Gesto obsceno e decadência de Gabigol. É a frustração de quem deveria estar no auge. Mas foi injustiçado por Tite, deixado de lado, na Copa do Catar
Segurar a genitália, e mostrá-la, para um torcedor do Santos, ontem, na Vila Belmiro, sendo expulso em seguida, é a ponta do iceberg. Jogador nunca se recuperou do golpe por não disputar a Copa do Catar. Valia R$ 152 milhões. Quatro anos depois, o mercado o avalia em R$ 17 milhões. Segue fazendo mal a ele mesmo...

Eram 11 minutos do segundo tempo na Vila Belmiro.
Ele fez que iria para a direita, correu para a esquerda.
O drible de corpo desnorteou Neris que o marcava.
E completou de cabeça o cruzamento de Miguelito.
Gol de artilheiro vivido, talentoso, especial.
Chegava a 126 gols na história do Brasileiro.
O décimo homem a marcar maior número de vezes.
Alcançava 14 gols e sete assistências.
Participação em 21 gols em 27 partidas.
Desempenho excelente em qualquer lugar do mundo.
O jogador fez questão de pular as placas e ir até a torcida santista.
Cerrou os dois braços, mostrando os bíceps, seu gesto imortalizado.
Foi aplaudido de pé.
Tomou amarelo pela comemoração fora do gramado.
Mas mesmo assim, fez questão de ir à forra com um torcedor que o xingara, desde o aquecimento.
O atacante o encarou, mandou que calasse a boca.
E não contente, segurou a genitália, e a balançou, em direção ao santista.
O gesto obsceno foi punido como deveria: cartão vermelho.
Além da expulsão, ele será suspenso.
O STJD quer parar com esta febre de mostrar a genitália, por parte dos jogadores. Já foi assim com Alan e André, do Corinthians, Jajá do Remo, e, ontem, Gabigol. O gesto se encaixa no artigo 248 do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. Ele poderá ser suspenso entre duas a seis partidas.
Gabigol fará 30 anos em agosto.
Ele sabia muito bem o risco que corria ao colocar sua mão na genitália. Jogo cercado de câmeras, VAR, observadores da CBF, quarto árbitro.
Mas não se conteve. Não importava se milhares o aplaudiam de pé, quis ‘se vingar’ de quem o xingava.
O Santos não vai dar punição alguma, para não piorar o clima de recuperação na Vila Belmiro.
Mas o que aconteceu com Gabigol?
Sua carreira deu um giro de 180 graus, desde a convocação final de Tite para a Copa de 2022.
Ele não se recuperou do baque de não estar entre os nove atacantes que o treinador levou para o Catar.
Foi tomando atitudes erradas, em cima de atitudes erradas.
A desilusão foi acompanhada da má sorte.
Atacou Tite diante da torcida do Flamengo.
O rancoroso treinador jamais perdoou o coro de palavrões contra ele, que o jogador regeu.
E qual clube Tite assumiu, depois de fracassar na sua segunda Copa do Mundo? Sim, o Flamengo.

De estrela maior da Gávea, o técnico se vingou e o transformou em reserva. Algumas vezes reserva do reserva.
O desestimulou o quanto pôde.
Gabigol esperou em vão apoio da direção. Os dirigentes apoiaram Tite. Para piorar, estava em fase de renovação de contrato.
Agiu da pior maneira, fazendo festas, tentando emplacar sua carreira de cantor, com o sugestivo nome de ‘Lil Gabi’.
Perdeu a idolatria, negociou um contrato milionário com o Cruzeiro.
Salário de R$ 2,5 milhões.
Encontrou um clube com dinheiro, mas sem rumo.
E quando chegou Leonardo Jardim, o choque foi inevitável.
O português exigiu do atacante o mesmo que a Inter de Milão e o Benfica, onde fracassou: movimentação constante, velocidade, abrir espaço para os companheiros. Não só um homem de área, para complementar jogadas.
Resultado: reserva.
Depois, quem chegou?
Sim, Tite...
O Santos, sua ‘casa’, o buscou. Aceitando pagar metade do salário, por um empréstimo de um ano.
Aceitou. Afinal, jogaria a lado do seu cunhado consagrado: Neymar. Só que não levou em conta a limitação do elenco. E o objetivo do clube está em apenas não ser rebaixado no Brasileiro. Nada de aspirar título algum.
Suas escolhas e atitudes cobraram um preço.
Em 2022, ano de convocação de Tite, ele valia 26 milhões de euros, cerca de R$ 152 milhões.
Hoje, o mercado o cota em 3 milhões de euros, R$ 17 milhões.
Seu contrato vai até dezembro de 2028 com o Cruzeiro.
Ninguém rasga dinheiro.
A direção mineira já tem como meta fazer uma proposta para rescindir o contrato com o jogador, depois que acabar seu empréstimo ao Santos, em dezembro deste ano.
Gabigol vive o momento mais desvalorizado da carreira.
Sem chance de convocação, sem propostas de outros clubes, ciente da fragilidade do Santos.

Ele se mostra cada vez mais fechado, sem dar entrevistas, sem despertar mais o interesse desvairado da mídia.
Na sombra de Neymar no próprio Santos.
Irritadiço.
Tenso.
A alegria, os sorrisos, foram embora.
O gesto cafajeste de ontem só o expõe ainda mais.
Suspensão infantil com Cuca precisando tanto dele.
Terapia, meditação, ioga, seja o que for.
Gabriel Barbosa precisa superar o baque da Copa de 2022.
Nenhum brasileiro tinha marcado mais gols entre 2018 e a Copa do Catar.
Foram 173 gols.
Tite foi injusto.
Mas não há mais volta.
Não adianta viver com esta mágoa.
E descontar na própria carreira.
Gabigol só está fazendo mal ao próprio Gabigol...













