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Obrigado, Neymar. Se o Brasil ainda é respeitado no futebol, a culpa é sua. Em uma geração de coadjuvantes omissos, você nos deu o direito de sonhar

Foram 15 anos. E, infelizmente para os brasileiros, ‘mal acompanhado’. Cercado por jogadores sem a metade do seu talento, coadjuvantes nos seus clubes, omissos na Seleção. Travados nos momentos decisivos. Neymar reinou sozinho. Isolado. Apesar de todos os erros, seu talento tem de ser reverenciado no adeus à Seleção. A saudade já incomoda

Cosme Rímoli|Do R7

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Neymar foi o responsável por, pelo menos, os brasileiros sonharem com a Copa. Sem ele não restaria nem a esperança Lucas Figueiredo/CBF

São Paulo, Brasil


Terminava a Copa de 2010.

A Seleção acumulava seu segundo fracasso em Copas, desde o título de 2002.


Terminava com o constrangimento de Kaká, a geração pentacampeã.

Mas havia muita esperança.


Por conta de um garoto franzino, de talento espetacular.

Dono de arrrancadas e dribles fabulosos.


Com enorme fome de ser o sucessor de Pelé, Romário, Ronaldo Fenômeno.

Real Madrid e Barcelona quase provocam uma nova guerra civil na Espanha por aquele jogador do Santos.

O tal raio caiu de novo na Vila Belmiro.

O nome dele Neymar da Silva Santos Júnior.

Carregava o nome do pai, que era jogador comum, e teve a carreira interrompida por um acidente grave, onde luxou a bacia. Por sorte, seu filho apenas cortou a testa.

Neymar pai não conseguiu voltar a jogar futebol como antes, mas se prometeu que faria de Juninho um grande atleta.

Roteiro de cinema. Jogador frustrado e acidentado faz do filho um dos maiores da história do futebol mundial Reprodução/Arquivo pessoal

E desde cedo foi o responsável por fazer com que chutasse bolas de plástico. Fazia o menino ensaiar dribles. Pular das faltas mais maldosas.

Se assustou com tamanho talento do filho.

E Neymar foi tratado como um príncipe na Vila Belmiro.

Desde que chegou.

Foi mimado, paparicado. Ganhava R$ 70 mil com 15 anos. Dirigentes santistas esfregavam as mãos, tinham um tesouro.

Destro, jogando do meio para a esquerda, impressionava adversários, olheiros, narradores, comentaristas.

Todos tinham duas certezas.

A primeira: seria o melhor do mundo.

A segunda: levaria o Brasil ao hexacampeonato mundial.

Foi para o Barcelona, em uma transação que só o pai de Neymar pode explicar.

Encontrou outro gênio, de nome Messi.

Um argentino, já melhor do planeta e que fazia a valente Catalunha estar aos seus pés.

Por que ajudaria um brasileiro talentosissímo, que poderia no futuro o ofuscar?

Aí entra um personagem que é esquecido da história.

O espetacular Ronaldinho Gaúcho.

Ele tratou Messi como se fosse seu irmão mais novo.

Logo o viu como sucessor, futuro melhor do mundo.

E deu todo o seu carinho, o acolheu, o protegeu, ensinou, foi seu mentor.

Foi o que Messi tratou de fazer com Neymar.

E eles se tornaram, realmente amigos/irmãos.

Enquanto isso, o improvável acontecia com o país do futebol.

Secou a fonte.

Só havia Neymar como excepcional jogador.

O tempo é sábio. E deixa claro o quanto Neymar esteve só nas Copas do Mundo Reprodução/CBF

Pelé teve Garrincha, Didi, Tostão, Rivellino, Gerson.

Romário teve Bebeto, o sacrifício dos ótimos Zinho, Mazinho, Dunga que, sim foi um jogador importantíssimo e, principalmente, de enorme personalidade.

Ronaldo teve Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Roberto Carlos, Cafu.

Neymar?

Não teve ninguém à altura.

Nem próximo.

Ganso logo teve problemas gravíssimos nos joelhos e ficou para trás. Philippe Coutinho não deslanchou, Oscar, também, não,

Vinicius Júnior foi na Seleção, uma triste sombra do que jogou no entrosado Real Madrid.

Raphinha desapareceu nas duas Copas que atuou.

Quem mais?

Só esforçados coadjuvantes em quatro Copas do Mundo.

Neymar sempre foi um solitário fora de série na Seleção.

Centralizador? Sim? Mimado por Felipão, Dunga, Tite, Fernando Diniz e até com Dorival Júnior, com quem jamais jogou na Seleção? Sim.

Fez Carlo Ancelotti quebrar sua promessa e levar um atleta contundido para a Copa dos Estados Unidos? Sim.

Transformou os seus 192 milhões de seguidores, somando todas as redes, em cúmplices, disposto a defendê-lo mesmo nas inúmeras vezes em que esteve errado? Sim.

Técnicos tratavam Neymar como um tesouro. Sabiam o quanto dependiam dele. E erraram não o cobrando como ele precisava. Faria bem ao próprio Neymar Marcelo Machado de Melo/Conteúdo Estadão

Egocêntrico? A ponto de se prejudicar misturando a vida de celebridade, playboy para os mais antigos, com a de um atleta de elite? Para seu prejuízo físico? Sim.

Dono de uma redoma, cercado de amigos, seus parças, que o endeusaram durante toda a carreira na Seleção, o fazendo acreditar que estava acima do bem e do mal e quem o criticava tinha inveja do seu dinheiro, das suas mulheres, da sua idolatria midiática? Sim.

Não só desfrutou de todos os privilégios que Pelé, Romário e Ronaldo jamais ousaram reivindicar da CBF? Sim.

Poderia ser muito diferente o adeus à Seleção. Neymar sabe disso. E quem chora somos nós... Reuters

Mas Neymar tem uma importância que nem ele entende.

Ele sozinho fez o Brasil sonhar.

Ter esperança de quatro em quatro anos, desde 2014.

Sim, não era a Seleção.

Era Neymar que nos daria o hexacampeonato.

Com ele em campo, seleções, muito mais fortes e mais bem preparadas do que a Brasileira, tremiam.

Armavam esquemas, deslocavam dois, três jogadores para tentar abafar seu enorme talento.

Por trás de toda sua arrogância, Neymar fez o que pôde.

Lutou de verdade, chorou a cada fracasso da Seleção.

Sabia que os olhares eram todos dele.

Era Neymar quem fracassou.

Só ele sabe o peso que carregou nas costas, na Seleção Brasileira.

Principalmente nas derrotas.

O país pentacampeão chegou a 28 anos de jejum.

Seus netos vão ler inúmeras matérias o criticando.

Muitas com razão pelos seus tolos exageros.

A proteção do pai empresário o fez bilionário.

Os seguidores/cúmplices deram aval aos seus erros.

Tanto que jamais aceitou questionamentos, que poderiam ter transformado a sua trajetória na Seleção.

Denunciou o peso das cobranças, não aceitando mais ser o capitão do Brasil.

Abriu mão de uma honraria por birra.

Pena, que, mal orientado, via seus críticos como inimigos.

Não pessoas com coragem de apontar seus erros.

Fosse realmente encaminhado e não mimado, poderia ter ido onde deveria.

Colecionado troféus de melhor do mundo.

Mas só Neymar sabe o que é ser Neymar.

Sua despedida da Seleção traz tristeza.

Medo do futuro.

De um país que deixou a Copa em 11º lugar.

Que não sabe o que é uma final desde 2002.

A odisséia termina.

Sem a taça, tão desejada, e prometida.

Mas, muito obrigado Neymar.

Sem você não teríamos nem o direito de sonhar.

De nos iludir.

Só resta encarar a realidade.

E apoiar uma insegura geração de coadjuvantes.

Diante de seleções muito melhores do que a nossa.

Que nos enfrentarão sem medo de surpresas.

Do improviso genial.

Da ousadia.

Das arrancadas, dos dribles inacreditáveis.

Não temos mais Neymar.

Acabou a magia na Seleção.

Restou o amargo gosto do desperdício.

E a frase que ele mesmo escreveu.

Neymar, tenho saudade de tudo do que não vivi...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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