Com adeus de Neymar, pressionado, Ancelotti assume erro. Se livrará da geração ruim dos veteranos. Buscará garotos. E sabe que não pode perder a Copa América
O técnico tenta amenizar as pesadas críticas e a falta de credibilidade da Seleção, depois do fracasso nos Estados Unidos. CBF arrumou amistosos contra equipes fracas, para dar confiança ao ‘novo time’. E Ancelotti promete apostar muito mais em jogadores que atuam no Brasil. E garotos. Para amenizar o ambiente, a meta será a Copa América de 2028. Com risco até de sua permanência, se o Brasil perder
Cosme Rímoli|Do R7

São Paulo, Brasil
“Não foi um período fácil, por causa da tristeza, da decepção da derrota. É uma derrota diferente, porque é uma derrota em uma Copa do Mundo.
“Você não tem tempo como em um clube de reagir, de recuperar. E a derrota fica dentro mais tempo.”
O desabafo de Carlo Ancelotti tem razão.
Ele está sentindo a pressão do que é comandar a única Seleção pentacampeã do mundo.
E que está presa no seu longuínquo passado vencedor.
O italiano sabe que o ciclo, formalmente, é até a Copa de 2030.
Mas se fracassar na Copa América de 2028, sua passagem como técnico do Brasil pode ser encurtada.
Muito pelo fraco futebol da Seleção na Copa.
A eliminação precoce, decepcionante, foi um golpe na sua credibilidade no mundo.
Jornais de todo planeta questionaram a frágil estrutura tática brasileira na Copa.
As primeiras declarações de Carlo Ancelotti mostram o quanto foi duro para ele ser ‘batizado’. Descobriu que a Copa do Mundo não é um mata-mata, com jogos de volta, na fase eliminatória.
A desilusão com o que aconteceu nos Estados Unidos atingiu diretamente a opinião pública, os patrocinadores, os presidentes de Federações, que acreditaram que Ancelotti, com uma campanha de sucesso na Copa, daria ainda mais sustentação ao presidente Samir Xaud.
A resposta precisa ser imediata.
E a CBF fez a parte dela.
Conseguiu amistosos contra equipes fracas.
De propósito.
Para dar confiança nessa nova Seleção que será montada.
Dias 25 e 29 de setembro, dois jogos contra a Austrália, em Towsville e Brisbane. Sim, você leu direito, dois jogos contra o mesmo adversário.
Depois, o inédito jogo, em Calcutá, contra a Índia, dia 3 de agosto.
Em novembro, está programado um quadrangular em Singapura. Nele estão o país sede, Japão e Paraguai.
Ancelotti usará uma nova base. Se livrará da esmagadora maioria dos 15 jogadores que acumularam fracassos nas Copas de 2022 e 2026. E fará suas observações. Prometendo estar muito mais presente até nos clubes, o que não fez para o Mundial dos Estados Unidos.
“Acho que temos que aproveitar os amistosos que vamos ter no próximo ano para ver os novos jogadores, que conhecemos menos. Temos que avaliar bem, escolher bem o talento e depois acompanhá-lo.
“Obviamente com a ajuda dos clubes, porque é inevitável que o jogador jovem passe muito tempo com os clubes. É necessário acompanhar essa progressão junto com os clubes.”
E quando Ancelotti fala em novos, quer dizer literalmente.
Foi observar hoje, e acabou fotografado, a Seleção Brasileira sub-15.
O treinador quer, de qualquer maneira, que sejam formados meio-campistas e laterais, as maiores deficiências da Seleção nos Estados Unidos.
Ele seguirá com todo o apoio da cúpula da CBF.
Mas terá de dar o retorno.
E em forma de taça.
A Copa América, que foi tão desprezada por décadas, se torna prioritária.
Ela será disputada em 2028.
A sede pode ser na Colômbia ou Estados Unidos, a Conmebol negocia onde será mais lucrativa.
A CBF sabe que o salto recente da Argentina começou com a Copa América de 2021, que ganhou do Brasil, dentro do Maracanã. De lá, vieram as conquistas da Copa do Mundo, de nova Copa América. E o vice de outra Copa, nos Estados Unidos.
O técnico assume que, com quatro anos de trabalho, sua postura será outra, na montagem do time.
“É um processo diferente, porque teremos quatro anos. Tivemos que fazer muitas coisas no primeiro ano, levando em conta também que tivemos oito lesões entre março e junho, que mudaram um pouco a estrutura que tivemos do time. Então a verdade é que sempre vamos ter pressão. Mas acho que é uma pressão diluída no tempo.
“Não podemos jogar tudo no lixo (seu primeiro ano na Seleção) pelo resultado.
“O primeiro objetivo não vai ser a Copa do Mundo 2030, o primeiro objetivo vai ser a Copa América, tentaremos ganhar a Copa América em 2028.”
Ancelotti sentiu o golpe.
Cair nas oitavas-de-final da Copa.
Diante de um selecionado sem a menor tradição em vitórias.
Ficar em 11º, a pior classificação desde 1990.
Não foi para isso que a CBF resolveu contratar e pagar o maior salário entre os treinadores de seleções do mundo.
5,5 milhões por mês.
Mais bônus por títulos.
Vivido, aos 67 anos, não teve explicações para dar após a eliminação para a Noruega.
Precisou ir para o vestiário, se acalmar, respirar para dar sua coletiva.
E que foi superficial.
“Começa agora uma nova aventura”, disse, para surpresa e até indignação de muitos que estavam nos Estados Unidos. Foi como se referiu à Copa do Mundo de 2030.
Era como se Ancelotti não compreendesse a dor dos brasileiros, que igualariam o maior jejum sem Copa do Mundo. 24 anos. Uma geração inteira teve de se acostumar com o fracasso.
A derrota em New Jersey foi no dia 5 de julho.
24 dias depois da queda, o início do esperado novo ciclo.
Ele terá quatro anos para colocar em prática, justificar o seu currículo espetacular de treinador mais vencedor da história.
O primeiro passo foi anunciar, de maneira polida, o fim da história na Seleção de Neymar, Casemiro, Danilo e Alex Sandro são os mais badalados.
Mas Douglas Santos, Fabinho, Ederson, Weverton sabem que podem esquecer a camisa da Seleção.
Dos veteranos, Ancelotti não abrirá mão de Marquinhos, que deverá seguir como capitão. E Alisson, 33 anos, que, a princípio, poderá seguir entre os três goleiros chamados. Mas não será mais titular, Carlos Miguel, Hugo e Bento terão prioridade.
Mas a maior mudança será no meio-campo e nas laterais. O treinador não vê jogadores com grande potencial nestes setores.
A reformulação começará para valer em setembro, na sua primeira convocação depois do fracasso na Copa do Mundo.
Acabou a aura.
Ancelotti será cobrado como qualquer um mortal que assume o país pentacampeão.
Mas que acumula gerações fracas, de jogadores coadjuvantes.
E com só um talento fora de série que se aposentou da Seleção.
Chegou a hora do italiano mostrar que é o melhor do mundo...
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