Depressivo aniversário de Luxemburgo.Um ano desempregado
Nem a volta de Felipão e Levir Culpi, veteranos como ele, animou qualquer clube a contratá-lo. Luxemburgo completou um ano sem trabalho
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
27 de outubro de 2017
Vestiário da Ilha do Retiro.
O vice presidente do Sport, Gustavo Dubeux, não pensa duas vezes.
Está lívido, ouvindo os palavrões da torcida.
O time havia perdido para o Junior Barranquilla por 2 a 0. A clube já estava seriamente ameaçado pelo rebaixamento no Brasileiro, era apenas o 15º colocado. Despencara dez posições desde o início do campeonato.
A esperança era caminhar na Sul-Americana, contra adversários mais fracos e conseguir vitórias para animar os jogadores e dinheiro com a torcida.
A derrota para o time colombiano foi a pá de cal.
E o treinador foi demitido sumariamente nos vestiários.
28 de outubro de 2018, um ano e um dia depois, Vanderlei Luxemburgo da Silva completa o maior período de sua carreira desempregado.
Mesmo com o futebol brasileiro trilhando um caminho conservador, se livrando dos auxiliares e apostando em treinadores veteranos, como o quase septuagenário Luiz Felipe Scolari e Levir Culpi, as portas dos clubes do país seguem fechadas ao maior vencedor de Brasileiros de todos os tempos.
Tem cinco títulos nacionais em quatro equipes, dois com o Palmeiras, um com o Corinthians, um com o Santos e outro com o Cruzeiro.
O melhor treinador, disparado, nos anos 90 e início dos anos 2000, está esquecido.
Ultrapassado é o adjetivo que mais rejeita.
"As pessoas confundem experiência com velhice e uma série de outras coisas e acham que você tem que sair do futebol porque está ultrapassado e já não consegue enxergar (o futebol). Eu não estou ultrapassado. O futebol não mudou. Eu voltei para o futebol e o que estou vendo dentro do campo de jogo? Absolutamente nada diferente do que aquilo que eu via um tempo atrás."
Desde 2005, ele acumula 12 demissões sumárias.
Real Madrid, Santos, Palmeiras, Atlético Mineiro, Flamengo, Grêmio, Fluminense, Cruzeiro, Tianjin Quanjian (equipe da Segunda Divisão da China) e Sport Recife.
Sua decadência fulminante está relacionada à sua mudanda de atitude como treinador. Quando era pobre e ambicioso, ele foi o mais dedicado dos treinadores brasileiros. Primeiro a chegar e último a ir embora dos clubes. Não admitia palpite algum no seu trabalho.
"Sua visão tática era surpreendente. Estava a frente do seu tempo. O Vandeco sempre foi muito observador, inteligente. Montou equipes excelentes. E que privilegiavam a técnica, a compactação. Conquistou os títulos com merecimento", diz Zico, que foi companheiro de Luxemburgo no Flamengo. O treinador era um lateral mediano. Mas excelente jogador de pôquer, parceiro de noitadas na concentração com Zico.
Luxemburgo se impôs como treinador na Seleção depois de excelentes trabalhos no Bragantino, Palmeiras, Corinthians.
Mas a CPI do Futebol foi um golpe gigantesco no técnico. Na investigação do ano 2000 ficou comprovado que jogou a carreira toda, inclusive com a camisa da Seleção Brasileira, como gato. Tinha três anos a mais do que mostravam seus documentos falsificados. Até seu nome nunca teve W e Y, como gostava. Nunca foi Wanderley. E sim Vanderlei.
Teve de renunciar à Seleção depois do fracasso na Olimpíada de Sidney.

Ainda conseguiu ótimo trabalho no Cruzeiro e Santos.
Foi para o Real Madrid.
Mesmo com jogadores como Zidane, Ronaldo, Beckham, Raul, Roberto Carlos, fez péssimo trabalho.
Sendo dispensado sem dó.
Desde então foi perdendo prestígio como treinador.
Seus projetos fracassando, um em seguida do outro.
Principalmente o da Libertadores.
Vale a pena recordar os oito vexames.
Com direito a dois fracassos em 2004.
1991 - Flamengo - eliminado nas quartas-de-final pelo Boca Juniors
1994 - Palmeiras - eliminado nas oitavas-de-final pelo São Paulo
2004 - Cruzeiro - eliminado nas oitavas-de-final pelo Deportivo Cali (saiu no meio da campanha)
2004 Santos - assumiu nas oitavas-de-final e foi eliminado nas quartas-de-final pelo Once Caldas.
2007 - Santos - eliminado nas semifinais pelo Grêmio
2009 - Palmeiras - eliminado nas quartas-de-final pelo Nacional
2012 - Flamengo - O clube foi eliminado na primeira fase.
2013 - Grêmio - eliminado nas oitavas-de-final pelo Independiente Santa Fé.

Até que as diretorias acabaram de acreditar nos seus projetos.
A esta altura, Vanderlei já havia enriquecido. Mudado radicalmente sua maneira de trabalhar. Nada mais de ser o primeiro a chegar e o último a sair nos clubes. Formava Comissões Técnicas gigantescas. Se posicionava como um administrador. Deixava seus auxiliares comandarem os treinamentos. O que irritava os dirigentes que o contratava.
Abriu e faliu uma 'universidade' de futebol. Se arriscou em site de venda de vinhos. Virou presença constante em jogos de pôquer.
Enquanto seus projetos fracassavam, seus auxiliares diretos seguiam o tratando como uma divindade. Fazendo com que acreditasse que estava tudo bem. E que não precisava se atualizar, viajar para a Europa, buscar novos conhecimentos.
Não.
O que sabia já era mais do que suficiente.
Seus inúmeros e poderosos amigos que fez na imprensa, como Galvão Bueno, Benjamin Back, José Luiz Datena, não conseguiam mais ajudá-lo. Pelo contrário.
Os convites para participações em mesas redondas o mostraram ressentido, irritadiço, arrogante e ainda se colocando como se nada tivesse a aprender. Pelo contrário, que tudo de moderno no futebol brasileiro foi ele quem trouxe.
A resposta dos clubes é direta.
Um ano sem trabalho.
Luxemburgo abriu um canal no youtube.
Assim como sua carreira, a audiência está em franca decadência.
Começou em junho deste ano.
70 mil pessoas acessaram o primeiro vídeo.
O último, deste mês, tem apenas cinco mil acessos.
Ele é milionário, graças ao período vitorioso.
Foi o melhor treinador deste país por pelo menos 15 anos.
Há 13 anos estagnou.

Um enorme despedício.
Mas a opção foi dele.
A resposta vem com um ano sem um clube para comandar.
Fica o exemplo.
Alguém pode ser excepcional no que faz.
Mas caso se deixe levar pelo ego, a decadência virá.
A fome de novas conquistas desaparece.
A tentação de dormir em berço explêndido foi demais.
E Luxemburgo não evoluiu.
O seu discurso é o mesmo da década de 90.
Só que os resultados no gramado são pífios.
Perdeu o toque genial de Midas.
E completa o triste aniversário.
Um ano desempregado...













