Depois de três anos, acabou a vergonha. São Paulo é líder
O time de Aguirre se impôs com personalidade, coragem. Equipe com autoestima, que cansou de ser desprezada. Chegou à liderança com a alma
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
"Eu não quero estar líder só uma rodada.
"Estamos em agosto, eu quero a liderança em novembro. Ninguém fala de título, de favorito. A única coisa que falamos é que vamos trabalhar pra ganhar o próximo jogo. Agora São Paulo tem que ser favorito. Ninguém acreditava que poderia estar nessa posição. Agora não tem que mudar tudo e isso ser um peso. Vamos fazer o possível pra continuar na liderança.
"O São Paulo que está voltando a ter protagonismo, coisa que tem que ter sempre."
Estas foram as principais frases de um empolgado Diego Aguirre.
O técnico uruguaio é responsável pelo São Paulo, depois 123 rodadas no Brasileiro. Desde a sétima rodada do distante Campeonato Nacional de 2015.
A desculpa da saída de Militão para o Porto, em um triste descuido da diretoria, serviu para o clima festivo dos jogadores e da Comissão Técnica. Todos caíram com satisfação no embalo da torcida, que comemorava a vitória sobre o Vasco, quase como um título, mesmo estando na 17ª rodada do Brasileiro, faltando ainda vinte para o campeonato acabar.
O motivo de orgulho está no fato que o inseguro Leco acertou ao ouvir Lugano e o empresário Juan Figer. Os dois uruguaios indicaram o compatriota Aguirre como o nome certo para tirar a acomodação, a apatia, a falta de combatividade, de garra e estratégia ofensiva que dominavam o clube.
Porque o São Paulo não tem apenas a garra uruguaia nas veias dos jogadores. Os neurônios de Aguirre funcionaram e a audácia também ao deixar claro que era impossível seguir no elenco com Petros e Cueva. Para montar seu time no versátil 4-3-3 que imprensou o Vasco de Jorginho, se tornou obrigatório despachar dois 'intocáveis'.
Em conversa com Raí, deixou claro que Petros era lento demais e que ao lado de Jucilei tornavam o São Paulo apático. Eles tornavam a saída de bola do time sem fluidez e demonstravam insegurança nos passes e fragilidade na marcação. Hudson e Liziero fazem tudo o que a dupla não fazia.

Foi graças a Aguirre que a saída de Petros foi facilitada. Se pudesse, o treinador faria a mala que o jogador levou para a Arábia.
Se livrar do volante com muita personalidade, mas lento para a necessidade do São Paulo, foi mais sutil do que despachar Cueva. O peruano desde o ano passado pedia para sair do Morumbi. Ele aceitou atuar no Morumbi como um trampolim para a Europa. Só que sua falta de comprometimento, suas farras e frustração pelo time não ter o potencial que ele acreditava encontrar, pesaram.
Cueva virou uma péssima influência para os demais jogadores. E Aguirre resolveu interferir, diante da falta de convicção dos dirigentes. Deixou claro que seria melhor negociá-lo. Por isso, o peruano foi 'empurrado' ao Krasnodar. O time russo pôde parcelar a compra em módicas quatro prestações. O importante era levar Cueva.
Aguirre percebeu que no Brasileiro de 2018 o preparo físico e a compactação estão imperando. E o segredo da tal garra do São Paulo, está em um trabalho de excelência na fisiologia, na formação de um time veloz, forte fisicamente, e muito obediente. Aguirre resgatou o que fez, com êxito, no Peñarol de 2011.
Conseguiu misturar jogadores jovens com talento com experientes, vividos, querendo mostrar que foram desacreditados precocemente. Como Nenê, Diego Souza, Trellez, Reinaldo e Everton, Sidão.
Sem o alarde do Palmeiras, do Flamengo, do Grêmio, os melhores elencos do país, Raí montou o elenco à imagem e semelhança do que sonhava Aguirre.
O São Paulo tem uma equipe montada para o contragolpe. É a pior visitante do futebol brasileiro. Se pudesse, quando atua fora do Morumbi, entregava a bola ao adversário. O atraía para sua intermediária. Só para tomar e contragolpear. Mas é quase isso que acontece.
A seriedade dos contragolpes em bloco é impressionante. O time foi somando vitórias fora, caminhando firme para a liderança. Sem dinheiro para meias talentosos, problema crônico do futebol brasileiro, a dificuldade vem quando o time atua em casa. É preciso muito mais determinação, vontade e garra nas partidas em casa do que fora. Porque o São Paulo precisa tomar a iniciativa do jogo. A opção do contragolpe fica para o adversário.
Mas aí entra um componente incrível: a torcida. Ferida pelos últimos anos sem títulos, os são paulinos seguem sendo parceiros infalíveis à equipe. A vibração das arquibancadas tem chegado ao gramado do Morumbi. Empurrado os jogadores nas divididas, nas disputas pela bola, incendiado o time.
Mesmo sem técnica fabulosa ou futebol encantador, o São Paulo tem encurralado seus adversários, jogado com a alma. Algumas vezes, isso não é suficiente, como foi contra o Colón, na quinta-feira, na derrota pela Sul-Americana.
Mas no Brasileiro, como contra o Vasco, a marcação adiantada, a velocidade pelas laterais, as inversões, os lançamentos, a compactação do time tem resolvido.
A vitória contra os cariocas veio na briga, na raiva de Rojas, que travou Ricardo logo no início da partida. O time não se abalou com o empate de Iago Pikachu. Ao contrário do que acontecia sob o comando de Rogério Ceni ou Dorival Júnior, por exemplo.
Aguirre insistiu na necessidade de o time se impor, lembrar que é grande e empurrados com a derrota do Flamengo para o Grêmio. Eles sabiam que a vitória levaria a equipe à liderança.

E, aos fórceps, veio o gol de Trellez.
O 2 a 1 que resgata a autoestima são paulina.
Dormir na liderança do Brasileiro faz bem à alma.
Aguirre tem razão em garantir que ainda falta muito.
O título do Brasileiro está longe.
Mas os primeiros passo em direção ao título são firmes.

O São Paulo merece estar em primeiro.
Passou a vergonha dos jogadores tricolores.
Eles já podem se encarar no espelho.
Acabou a apatia, a falta de rumo, de personalidade.
O Brasileiro tem um líder digno...













