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Torcida única em estádios não tem efeito no futebol, dizem estudiosos

Especialistas ouvidos pelo R7 criticam 'medida pitoresca das autoridades' e apontam o diálogo como a melhor saída para buscar a paz nos campos

Especiais|Adalberto Leister Filho e André Avelar, do R7

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Corintiano morreu após ser espancado por santistas antes do clássico em SP
Corintiano morreu após ser espancado por santistas antes do clássico em SP

Dois clássicos, dois torcedores espancados. Esse foi o saldo de brigas de torcidas no fim de semana de futebol. Em São Paulo, antes de Santos e Corinthians, um torcedor morreu. Em Minas, depois de Atlético-MG e Cruzeiro, um torcedor foi hospitalizado em estado grave.

Os episódios retratam diferentes modelos de segurança em estádio, mas com características muito semelhantes. As duas vítimas foram agredidas mesmo enquanto estavam no chão, longe dos locais das partidas, com e sem a chamada "torcida única". Apenas santistas estiveram no Pacaembu, enquanto atleticanos e cruzeirenses dividiram o Independência.


Para esta quinta-feira (8), no Allianz Parque, Palmeiras e São Paulo se enfrentam com o estádio também tomado apenas por uma cor de torcida. Mas a medida tem eficácia? Ao R7, especialistas afirmaram que a torcida única não faz sentido nos estádios.

Coordenador do Ludens (Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas) da USP (Universidade de São Paulo), o professor Flavio de Campos, criticou a medida e explicou que a violência no futebol não está propriamente relacionada ao jogo.


“A torcida única nunca fez sentido. É uma medida pitoresca das autoridades, que causa algum efeito na sociedade, mas não tem nenhum valor prático”, disse Campos. “A violência já existe na sociedade brasileira. Ela só se muda para o estádio de futebol. O que tem que voltar para os estádios é a festa. Mais festa e menos pirotecnia política.”

Desde abril de 2016, torcidas visitantes estão proibidas de frequentar clássicos paulistas. Autor da medida, o promotor Paulo Castilho, do Ministério Público de São Paulo, não foi encontrado para comentar o último episódio ou possíveis mudanças de postura para o clássico desta quinta por exemplo. Em entrevista à Rádio Jovem Pan no ano passado, no entanto, Castilho disse que o principal problema estaria no acesso das torcidas ao estádio.


Atleticano tenta arrancar camisa de cruzeirense
Atleticano tenta arrancar camisa de cruzeirense

“O problema é o acesso ao estádio. Imagina 20 mil pessoas do Corinthians e 20 mil pessoas do Palmeiras indo a um jogo? Elas vão se encontrar na rua, no metrô, no ponto de ônibus, e vai haver confrontos. Tudo isso passa por uma mudança de cultura, de filosofia, que acho que ainda vai levar um tempo”, disse Castilho, na época.

A opção pela torcida única inclusive extrapolou as partidas de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo no início deste ano. Após a confusão no Moisés Lucarelli pelo descenso à Série B, as partidas da Ponte Preta, em Campinas também deveriam ser disputadas com torcida única.


Uma liminar na metade de fevereiro havia derrubado a decisão parcialmente. Haveria torcida única apenas no clássico contra o Guarani e contra os grandes do Estado, mas a FPF (Federação Paulista de Futebol) entrou com recurso na tarde da última segunda-feira e provocou nova reviravolta no caso.

Em Minas Gerais, torcedores de Atlético-MG e de Cruzeiro dividiram as arquibancadas do Independência. Assim como em São Paulo, no estádio, nenhuma ocorrência grave, mas o problema estava longe dali.

"A maior parte dos conflitos acontecem longe do estádio. Na Argentina, desde a implementação de clássicos com torcida única, houve aumento dos confrontos. Essas brigas entre torcedores ocorrem fora do estádio. Há esse deslocamento espacial dos conflitos", disse Felipe Lopes, pesquisador e estudioso sobre violência no futebol.

Troféu das torcidas

Após o espancamento do torcedor em Minas Gerais, um homem com a camisa de uma organizada do Atlético-MG tentou arrancar a camisa de uma organizada do torcedor do Cruzeiro. As imagens da briga do circuito de segurança de um comércio local remontam cenas de guerra em que o combatente quer a cabeça do inimigo para servir de exposição.

Um importante líder de uma organizada contesta a versão e garante que as brigas são apenas “coisa de momento”.

“Quando tem morte, não tem essa de troféu. Ninguém está preocupado com troféu ou qualquer coisa assim”, disse.

Paz nos estádios

A solução para a tão pedida paz nos estádios talvez ainda esteja longe de acontecer, mas os estudiosos apontam para a mesma saída: ao invés de proibição, o melhor seria o diálogo com os líderes de torcida. Para Campos, a criação do Gepe (Grupamento Especial de Policiamento em Estádios), pela Polícia Militar do Rio de Janeiro, no início da década de 1990, foi um modelo a ser seguido. Segundo ele, o policiamento de praças esportivas cuidava de entender as ofertas e demandas de cada uma das torcidas cariocas.

“A ideia seria trazer para os estádios uma polícia especializada, em contato direto com os líderes de cada torcida. Entender as necessidades delas. A questão fundamental aí seria conversar”, disse Campos.

Outro exemplo citado foi o adotado na Alemanha. Lopes lembrou que, desde os anos de 1980, as autoridades investem em projetos com os torcedores. O caminho foi, por exemplo, diferente de repressão adotado na Inglaterra. Não raro, profissionais são chamados para intermediar possíveis conflitos entre torcidas.

"Por lá, eles investem em assistência social e educação com setores mais radicais dos torcedores. Tem espaço físico, com assistente social, educador, todo dia da semana e serve de ponto de encontro de torcedores", resumiu Lopes.

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