Especiais Gestão explica ascensão cearense e queda de Pernambuco no futebol

Gestão explica ascensão cearense e queda de Pernambuco no futebol

Para dirigentes e treinadores, o futebol nos Estados do Ceará e Pernambuco, potências da região, vive fase oposta devido às administrações dos clubes

Estádio Castelão, em Fortaleza, recebeu grandes públicos em 2018

Estádio Castelão, em Fortaleza, recebeu grandes públicos em 2018

Divulgação/Fortaleza

Região de times com camisas tradicionais do Brasil e torcidas de massa, o Nordeste se acostumou a fazer frente aos Rio-São Paulo e Sul-Minas na principais competições de futebol do país. Alguns clubes também se destacaram no cenário internacional. Entretanto, os dois maiores Estados da região vivem situações antagônicas.

Enquanto o Ceará terá o principal clássico regional (Ceará x Fortaleza) de volta à Série A na próxima temporada, Pernambuco está mergulhado em uma crise e não terá representantes na elite em 2019.

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O Sport, campeão brasileiro de 1987, foi rebaixado no Brasileirão deste ano. Já Náutico e Santa Cruz, rivais não menos importantes no cenário nacional, permanecerão na Série C em 2019. Ambos os clubes estão atolados em dívidas e não conseguiram o acesso. 

Por outro lado, os cearenses estão eufóricos com as campanhas dos seus principais times: o Ceará, que conseguiu se manter na principal divisão do Brasil, terá a companhia do Fortaleza, campeão da Série B, na próxima edição do Campeonato Brasileiro.

Cearenses: finanças em dia e contratações certeiras

O presidente do Fortaleza, Marcelo Paz, não vê relação entre os momentos antagônicos vividos por cearenses e pernambucanos. O dirigente acredita que o Estado vizinho esteja passando por um período incomum e que deverá se recuperar, porque os principais clubes têm bons gestores. 

"Lá tem grandes marcas ligadas ao futebol, times muito competitivos. É um Estado que gosta de futebol. Até onde conheço, tem gestões buscando fazer o melhor. Às vezes, a bola não entra. É circunstancial. A gente passou por isso. Mas acredito que logo os times de lá estarão de volta às grandes competições", ponderou.

No entanto, Marcelo Paz enfatiza a importãncia das boas práticas financeiras para o sucesso do projeto implementado no clube tricolor cearense.

"A gente sabe que o futebol faz toda a roda girar dentro de um clube. Se o futebol vai bem, todo o resto tende a ir bem, se tiver organizado. Você tem que um elenco qualificado. E contração não é somente a questão técnica: mas é também o caráter do jogador, o profissionalismo, a mentalidade de vitória, a boa convivência com o grupo. Então, a contratação é um processo crítico e importantíssimo", avaliou Paz.

A contratação de atletas com o melhor perfil para o clube é outro ponto citado como decisivo para se alcançar os objetivos.

"O equilíbrio financeiro também. Porque isso dá tranquilidade para todos que estão no clube, funcionários, jogadores, comissão técnica. É muito ruim estar num ambiente em que o dinheiro está faltando. Isso gera desmotivação, especulações. Esses dois fatores foram fundamentais", ressalta o mandatário do Fortaleza.

Vozão sonha alto

O presidente do Ceará, Robinson de Castro, também elegeu a boa gestão das finanças para explicar o bom desempenho do time na temporada. A equipe alvinegra, conhecida como Vozão pela imensa torcida, se manteve na elite nacional e tem planos ousados para o próximo ano.

Para o dirigente, manter os compromissos religiosamente em dia, como salários e premiações, gerou credibilidade, confiança do elenco e da comissão técnicao em relação à diretoria. E os frutos foram colhidos dentro de campo.

"Tenho dito que três pilares são importantes: equilíbrio financeiro, investimentos em infraestrutura e inteligência. Inteligência não é sabedoria, não é esperteza, mas sim equilíbrio para pensar, racionalizar e buscar as reais soluções para os problemas. Tem muita gente apontando solução, mas muitas delas não conhecem nem o problema", enfatizou o mandatário do Ceará.

Robinson de Castro também destacou que pretende propor parcerias ao Fortaleza na área de marketing para explorar comercialmente o bom momento vivido nos gramados pelos rivais. 

"Nós tivemos um ano sensacional. Houve competência dos dois lados, principalmente fora de campo. A gestão foi fundamental para essa continuidade. E claro que transcende, chega no campo, no comando técnico, na capacidade de planejar, de refazer o planejamento quantas vezes forem necessárias para conquistar um objetivo", frisou.

"O que posso dizer é que a capital do Nordeste agora é o Ceará. Os dois maiores clubes estão na Série A. Nos distanciamos muito na questão da visibilidade dos pernambucanos", complemetou Castro.

O presidente do Ceará também fez elogios ao técnico Luis Carlos, o Lisca Doido, que teve o contrato renovado para a temporada de 2019 e se monstrou motivado a enfrentar os desafios que o próximo ano trará ao clube.

Veja mais: De contrato novo, Lisca Doido sonha com títulos no Ceará, em 2019

"Assim que o Lisca chegou, a gente passou a reagir, ser mais competitivo. Era pra ter trazido o Lisca após a saída do [Péricles] Chamusca. Trouxe o jorginho. Foi um erro. Mesmo com a rejeição do Lisca, comprei a briga. Existe o personagem 'Lisca Doido', mas tem o Luiz Carlos, um treinador competente, preparado, inteligente, trabalhador e merecedor desse sucesso", elogiou o presidente do Ceará.

Abismo financeiro entre Sudeste e Nordeste

Ex-comandante do clube alvinegro, o técnico Sérgio Soares, relembrou com carinho da passagem pelo Ceará, entre agosto de 2013 e dezembro de 2014. O treinador também exaltou a competência das administrações em um ambiente de negócios desfavorável em relação aos grandes do Sul-Sudeste.

"A cota dos times do Sudeste são muito maiores. Isso causa um impacto. Isso favorece. Mas há uma diferença em função do aspecto financeiro. Os grandes investimentos estão para o lado de cá. A prova é a Crefisa, um patrocinador gigantesco que fez o Palmeiras maior do que já é". 

"O futebol cearense cresceu. Vem ocupando um espaço que há algum tempo era do futebol pernambucano e até do baiano. O futebol pernambucano está sofrendo. Tem Náutico e Santa Cruz na Série C. O Sport acabou de cair, um clube que sempre figurou em Série A", completou.

Pernambucanos em baixa

Além de possuir grandes torcidas, o trio de ferro pernambucano também é famoso por revelar alguns dos mais importantes atletas da história do futebol nacional, casos de Juninho Pernambuco, Vavá (Sport), Rivaldo, Grafite (Santa Cruz), Orlando Pingo de Ouro e Jorge Mendonça (Náutico).

O técnico Milton Cruz, que passou pelo Náutico no primeiro semestre de 2017, lamenta o péssimo momento pelo qual o clube passa.

O experiente treinador, responsável por revelar craques do futebol brasileiro — como o meia Kaká, ex-São Paulo, Milan e Real Madrid e pentacampeão da Copa de 2002 pelo Brasil —, entende que as más administrações causaram a crise atual.

"O problema foi a falta de pagamento. Havia uma diretoria que tinha me levado. Depois, entrou outra que queria fazer contenção de despesas e começou a tirar os jogadores mais importantes do nosso time. No dia em que saí, disse que se continuassem a se desfazer da equipe, o próximo passo seria cair para a terceira divisão. E acabou acontecendo", revelou Milton Cruz.

Veja as contratações oficializadas até agora pelos clubes da Série A: