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Endrick é da turma da bagunça; e o futebol precisa tomar cuidado para não matar isso

Entre relatos de indisciplina e cobranças por obediência tática, talvez exista uma qualidade rara que o futebol moderno anda confundindo com defeito

Zé da Zaga|Zé da Zaga

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Endrick cumprimenta o marroquino Hakimi, depois do jogo entre Brasil e Marrocos, em que ele ficou no banco Caean Couto/Reuters - 13.06.2026

Nos últimos dias, surgiram histórias sobre Endrick.

Que não segue todas as orientações à risca.


Que nem sempre executa exatamente o que o treinador pede.

Que tem personalidade forte.


Que, às vezes, escapa do roteiro.

No futebol moderno, isso costuma soar quase como um crime.


O jogador ideal virou uma espécie de funcionário padrão. Corre onde mandam. Pressiona quando mandam. Fala o que mandam. Posta o que mandam.

Tudo certinho.


Tudo organizado.

Tudo previsível.

E talvez seja justamente por isso que Endrick desperte tanta atenção.

Porque ele parece ser daquela turma que todos tiveram na escola.

O moleque da bagunça.

Aquele que conversava na hora errada.

Que fazia piada quando não devia.

Que às vezes deixava o professor maluco.

Mas que também era o mais inteligente da sala.

O mais criativo.

O que encontrava soluções que ninguém mais enxergava.

E, no fim das contas, aquele que todo mundo gostava de ter por perto.

Porque existe uma diferença enorme entre ser problemático e ser inquieto.

Entre ser indisciplinado e ser criativo.

Entre desobedecer por ego e desafiar limites porque enxerga algo diferente.

O futebol, historicamente, foi construído pelos segundos.

Se Pelé tivesse seguido todos os manuais, talvez não existisse o drible da vaca.

Se Garrincha obedecesse a todos os treinadores, talvez não existisse Garrincha.

Se Romário adorasse cumprir ordens, provavelmente teria feito bem menos gols.

Os gênios quase nunca são perfeitamente organizados.

E graças a Deus por isso.

Porque o futebol não nasceu para ser uma planilha.

Nasceu para ser surpresa.

Claro que Endrick precisa aprender.

Precisa ouvir técnicos.

Precisa evoluir taticamente.

Precisa amadurecer.

Todo jovem jogador precisa.

Mas existe um risco enorme quando o futebol tenta transformar personalidade em defeito.

Porque, às vezes, na tentativa de criar um atleta perfeito, acaba destruindo justamente aquilo que o torna especial.

E eu confesso uma coisa.

Entre um garoto que segue o manual em cada página e um garoto que às vezes faz uma traquinagem, arranca uma gargalhada dos colegas e depois decide um jogo que parecia impossível...

Eu sei qual deles eu pagaria para assistir.

E acho que a maioria dos brasileiros também.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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