‘Enfrentei tabus: machismo, abusos contra crianças, homofobia. É minha missão. Como jornalista. Como pessoa.’ Joanna de Assis
Apresentadora, repórter, comentarista, correspondente nos Estados Unidos, escritora. Reportagens corajosas, como a que descobriu que o técnico consagrado da ginástica olímpica, Fernando de Carvalho Lopes, abusou de 42 meninos entre sete e 16 anos. Foi para ela que Richarlison revelou sua orientação sexual, em um podcast que enfrentava a homofobia no futebol. Autora de um marcante livro sobre atletas paraolímpicos. Vinte anos de carreira na Globo. ‘Lá foi minha casa. Farei outras ‘minhas casas’

São Paulo, Brasil
O sorriso fácil desaparece.
As ironias somem. A feição fica séria, pesada. Desaparece a figura da apresentadora carismática. E se deixa tomar pela alma de corajosa repórter, quando é perguntada sobre que tabus enfrentou.
“Há várias portas trancadas no esporte. Aquelas que ninguém quer mexer. Mas a sociedade não avança se não enfrenta os tabus. É difícil, sofrido, cobra um preço alto. Mas é essa a minha missão como jornalista.
“Enxergar e ter força para enfrentar as várias barreiras. E elas existem. Mas neste momento é que surge o jornalismo puro, sem medo. Posso levar meses,anos, como já levei com algumas matérias investigativas que fiz. É isso que me move.”
Joanna de Assis Rita não aceita ser rotulada. Multifacetária: repórter, apresentadora, comentarista. Aos 45 anos, com rosto de 30 e energia de 20, está no seu auge.Ganhou o prêmio Latino Americano de Jornalismo Investigativo, na Colômbia.
Depois de meses juntando provas, convencendo atletas a vencer a vergonha, Joanna conseguiu demonstrar que, um dos mais importantes técnicos de ginástica olímpica da história deste país, abusou sexualmente de, pelo menos, 42 ginastas.
Meninos entre sete e 16 anos. Fernando de Carvalho Lopes foi banido do esporte. E também julgado e condenado a 109 anos de prisão.
‘Mas ele recorre há anos. A justiça no Brasil é assim. Ele não está preso. Pelo contrário. Foi para Portugal e vive uma vida normal, como se nada tivesse acontecido”, lastima Joanna.
‘Mas toda semana, eu me atualizo sobre sua situação. Um dia será feita a justiça. Imagine o trauma destas crianças, destes pais que confiaram nele. É revoltante. Esse abusador é um monstro!’Ela também enfrentou outro enorme tabu.
Criou o podcast ‘Nos Armários dos Vestiários’, que trata da sexualidade, muitas vezes escondida, dos jogadores, técnicos. “É algo que todos sabem que existe, mas ninguém quer falar abertamente.
Por conta da homofobia. Tanto que fiz apenas áudio, sem câmeras, sem filmagem.”
O ex-jogador e comentarista Richarlison, o ex-goleiro, e hoje presidente do Bahia, Emerson Ferretti e o árbitro Igor Benevenuto assumiram suas preferências.
Como se não bastasse, escreveu o livro Para-heróis. Ela conta a história de vida de dez campeões paraolímpicos brasileiros. Além de ‘Verônica, a Magrela que Era Forte’, onde conta a história de Verônica Hipólito, campeã paraolímpica, que enfrentou AVCs e tumores, para crianças.
Joanna tem uma carreira muito sólida. Fez jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, passou pelo jornal, sim, jornal, Gazeta Esportiva. Pelo portal Terra. Pela revista Placar.
Até chegar à TV Globo.
“Comecei em 2006. Me identifiquei com a reportagem. Enfrentei o machismo. Criei fontes e acumulei vários furos, notícias em primeira mão. Fui correspondente nos Estados Unidos. Voltei e me tornei apresentadora do Sportv. Mas não parei de apurar, de conseguir entrevistas exclusivas. Me sentia em casa. Criei raízes.”
Mas tudo acabou no dia 12 de agosto.
“Fui normalmente trabalhar, nem imaginava o que iria acontecer. Foi quando a minha chefia me chamou e me demitiu. Fiquei em choque, não tinha problema algum. Pelo contrário. Além de apresentar, dava informações em primeira mão, que eu apurava. Tinha certeza que todos estavam feliz com meu trabalho, minha dedicação. É assim que eu sou.”
Joanna foi forte com seus chefes. Mas chegou em casa e desabou com sua filha Agata.
“Chorei. Ela chorou também, me vendo chorar. E perguntou se não me veria mais na televisão. Respondi para ela: ‘vou continuar, sim. Só saí de um trabalho e vou para outro.’ E não vou fazer mais a minha filha chorar.“
E foi além do baque pela demissão.
“Lógico que estava triste. Mas não iria seguir o caminho normal de uma mulher que perde o emprego e se lamenta. Sou muito mais do que isso. Me encaixo onde quiser. Procurei uma marca de carnes, a Swift, e falei que iria fazer um post nas minhas redes sociais, anunciando a minha saída da Globo, depois de 20 anos. E que iria fazer um churrasco.
“Toparam a ideia. Ganhei cachê e muita carne com a demissão. Sou assim, enfrento as situações. E ninguém me define. Me coloca em uma caixinha, me rotula. Eu defino onde e como quero estar.”
E nestes 34 dias, que saiu da Globo, Joanna já recebeu quatro propostas. Estuda o que fazer.
’Fiz da Globo a minha casa. Mas vou fazer de outras casas as minhas.”
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