Logo R7.com
RecordPlus
Cosme Rímoli - Blogs

Morre Claudio Carsughi. Com cadeira de rodas, ele deu uma entrevista inesquecível na RECORD. Um mestre. Não só de F1, de futebol, de jornalismo. De vida

O italiano, que mudou todo o panorama da Fórmula 1 neste país, descansou hoje, aos 93 anos. Há dois anos, fez questão de sair de sua casa de muletas. Atravessou os corredores da RECORD em uma cadeira de rodas, acompanhado por sua filha Claudia. Me disse frases que não esquecerei nunca. “Eu tinha de dar esta entrevista. E dizer: ‘Este país um dia vai descobrir a força que tem.’”

Cosme Rímoli|Cosme RímoliOpens in new window

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Claudio Carsughi foi direto. 'Nunca houve sucessor de Senna. A Globo pressionou, de forma injusta, Rubinho e Massa Reprodução/Instagram/claudiocarsughi

São Paulo, Brasil

Aquele 19 de junho de 2024 foi inesquecível.


Em frente ao prédio em Moema, espero por um ícone do jornalismo neste país.

Por um mestre.


Que eu admirava há pelo menos 30 anos.

Sua voz única na rádio Jovem Pan trazia ensinamentos.


Opiniões marcantes e esclarecimentos que só alguém especial, extremamente culto, e que viveu todo o início das corridas neste país.

E acompanhou a Seleção Brasileira do primeiro vexame histórico, na Copa de 1950, até perder seu ‘complexo de vira-lata’ e voltar a ser coadjuvante de luxo nas últimas seis Copas.


Ele desce da portaria apoiado em muletas e com sua filha, Claudia.

Impecavelmente vestido, de blazer xadrez, camisa rosa, calça cinza, sapatos reluzentes pretos.

Italiano, de Arezzo, sempre fez questão da elegância.

Faz questão de se equilibrar nas muletas, estica sua mão direita e me cumprimenta firme.

“Tudo bem, Cosme?”

Senti que começava a ganhar o dia.

E fomos, com a minha falta de talento ao volante, para a RECORD.

Claudio, concentrado, quieto, economizando sua voz, no banco de trás.

Ou tenso, preocupado com a pressa com que eu dirigia, para não perder a hora do estúdio.

Lógico que deve ter se sentido muito mais seguro dentro dos carros de Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet ou Ayrton Senna, com quem circulou nos autódromos do mundo.

Chegamos na RECORD. O estúdio de gravação era longe para as muletas. Faltava força para percorrer o caminho. Pedimos uma cadeira de rodas e fomos para a entrevista.

Dissolveu uma pastilha na boca para que sua voz fluísse de forma forte, marcante, como foi por décadas e décadas, e mostrou por que é chamado pelos colegas jornalistas como mestre.

Quando os microfones foram ligados, começou o show.

Aos 91 anos, mostrava lucidez, inteligência e firmeza nas opiniões impressionantes.

Acompanhei, com orgulho pelo privilégio dele ter aceitado o convite para a entrevista.

Carsughi deu uma aula inestimável. Não só sobre Fórmula 1 e futebol. Mas sobre a vida, sobre o país que escolheu para viver.

O combinado com Claudia eram 45 minutos, ‘no máximo’, de conversa. Mas ele quis, e eu, mais ainda, mais. Falamos por uma hora. Por mim, seriam seis horas.

Ao final, no caminho para o carro, de cadeira de rodas, ele me falou frases que nunca mais esquecerei.

“Eu tinha de dar esta entrevista.

“E dizer: ‘Este país um dia vai descobrir a força que tem.’”

Obrigado por escolher o Brasil para viver...

Abaixo o texto publicado quando a entrevista foi ao ar, no dia 2 de julho de 2024.

Foi a mais emocionante entrevista do canal. Aos 91 anos, Claudio Carsughi atravessou os longos corredores da RECORD em cima de uma cadeira de rodas.

Ao lado de sua filha Claudia, herdeira do talento para o jornalismo, mesmo podendo andar, com o auxílio de uma bengala, se poupava para a longa e sincera conversa. Assim que os microfones foram colocados, ele colocou uma pastilha na boca, e deu preciosa lição sobre ética, jornalismo, futebol e automobilismo.

Mostrou por que é reverenciado como mestre. Muito culto, de personalidade fortíssima, adaptou a fria lógica de engenheiro formado para analisar esportes dominados pela paixão: a Fórmula 1 e o futebol.

A história de sua vida daria um filme digno de Federico Fellini. Nascido em Arezzo, na Itália, no dia 13 de outubro de 1932, o roteiro reservava surpresa atrás de surpresa.

Primeiro, ao ir ainda menino assistir, junto com seus colegas de escola, a um desfile de carro aberto de Hitler, que se aproximava da Alemanha nazista da Itália, dominada pelo fascismo de Mussolini.

Logo após o final da Segunda Guerra Mundial, sua avó decide que toda a família deveria ir para o outro lado do planeta. Viver no Brasil, onde já existiam laços profissionais.

“Ela dizia que já tínhamos sobrevivido a duas Guerras Mundiais na Itália. Melhor seria fugir da Terceira”, relembra Claudio.

Já no Brasil, teve aulas de português com ninguém menos do que Jânio Quadros, que chegaria à presidência da República. “Foram aulas memoráveis. Aprendi a falar português com o melhor professor. É uma questão de respeito falar e escrever o idioma de maneira correta.”

Apaixonado desde sempre por automobilismo, foi estudar Engenharia na respeitadíssima Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Poli.

Só que, antes, aos 14 anos, seu pai queria que ele não perdesse o contato com o italiano. E ofereceu seu serviço como ‘jornalista’ para o Corriere dello Sport.

Foi assim que cobriu a Copa de 1950. E, sempre muito direto, dá seu veredicto.

“Não gosto de falar com quem não pode se defender. Para mim, a culpa da derrota foi do treinador Flávio Costa, que infelizmente já morreu. Ele não conseguiu entender que o empate bastava contra o Uruguai. E quis atacar de qualquer maneira. E o Brasil perdeu o título em dois contragolpes.“

Sim, Carsughi acompanhou as últimas 19 Copas do Mundo. Claudio só se deixa levar pela paixão em relação a um jogo que marcou sua vida. A final da Copa dos Campeões entre Fiorentina e Real Madrid, na temporada 1956/1957.

“Os espanhóis foram campeões graças ao árbitro holandês Leo Horn. Ele manipulou o resultado. O que ele fez foi imperdoável.

“Mas a verdadeira paixão de Carsughi estava ganhando o mundo. A Fórmula 1.

“Acompanho corrida desde criança, quando meu pai me levava para assistir corridas de rua na Itália. Com três, quatro anos.“ Juntou sua paixão com o jornalismo e teve uma passagem histórica na Jovem Pan, de quase 60 anos.

Viu o nascimento dos grandes pilotos brasileiros. E acompanhou de perto suas carreiras. Desde Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Ayrton Senna, Rubens Barrichello, Felipe Massa. Assim como os melhores do mundo.

“O meu time perfeito seria Juan Manuel Fangio, o melhor piloto de todos. O único a vencer um Mundial sem estar com o melhor carro. E Ayrton Senna, inquestionável.“

Seu amor na Fórmula 1 é pela Ferrari, equipe de quem é mais crítico, talvez por esse amor intenso.

Carsughi foi o primeiro jornalista do Brasil a anunciar a morte de Senna. Em plena transmissão da Jovem Pan, de São Paulo, ele entrou em contato com um jornalista na Itália, que entrevistava a médica que atendeu Senna. Ele não poupa a Globo pela pressão exagerada sobre Rubinho e Massa.

“A emissora pensou que seria natural. Surgiriam campeões atrás de campeões. Não há lógica alguma. A Inglaterra teve de esperar 50 anos por Lewis Hamilton. A Alemanha, uma eternidade por Schumacher. Nunca houve sucessor para o Senna. As coisas na Fórmula 1 não acontecem assim. A Globo jogou pressão de forma injusta em Rubinho e Massa, dois ótimos pilotos.“

Carsughi sempre foi movido pelo trabalho. Ao mesmo tempo que comentava futebol e automobilismo pela Jovem Pan e na rádio Bandeirantes, fazia questão de escrever.

Foi editor da Quatro Rodas, trabalhou no Jornal da Tarde, na Gazeta Esportiva. Além de seguir correspondente do Brasil para jornais italianos. Na TV, teve passagem marcante no Sportv. Ficou quase 60 anos na Jovem Pan.

Extremamente lúcido, inteligente e irônico, justificou plenamente nesta histórica entrevista o motivo de ser chamado pelos colegas de Mestre.

Seu livro, Meus 50 anos de Brasil, escrito, a fórceps, pela filha Claudia, se tornou leitura obrigatória para qualquer pessoa que ame o jornalismo. E este país...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Siga R7 no Google e fique por dentro de tudo que acontece

Seguir no Google

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.