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“Cosme, entra! Felipão, entra!” O dia em que Angioni me trancou em uma sala com Scolari. Gritamos um com o outro. Nos acertamos. Paulo era ‘o diplomata’

Aos 80 anos, o futebol perde Paulo Angioni. Psicólogo, sociólogo e administrador, ele conseguia unir times desunidos, apaziguar jogadores, técnicos e, até jornalistas, irascíveis. Convencer importantes atletas e treinadores a trocarem de clubes. E administrar elencos mimados ou sem receber salários. Era um dirigente muito especial, que tive a sorte de conviver no Palmeiras e no Corinthians

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Paulo Angioni conseguiu unir a Psicologia, Sociologia e Administração no futebol. Dirigente diferenciado, que fez história, por onde passou Divulgação/Fluminense

São Paulo, Brasil


Janeiro de 1998.

Eu era setorista do Palmeiras.


A minha relação com Felipão era péssima.

Por vários fatores.


Desde que ele era treinador do excelente Grêmio, campeão da Libertadores de 1995.

Quando o time gaúcho eliminou o Palmeiras, nas quartas da Libertadores, perdendo por 5 a 1, no Parque Antártica, o clima no vestiário foi bélico. Os gaúchos haviam vencido por 5 a 0 a partida em Porto Alegre.


Discuti feio com Felipão. Perguntei sobre o impacto da derrota e ele não gostou. Falou que eu era paulista e estava ‘do outro lado’, como se eu estivesse defendendo o Palmeiras, me ofendi, respondi que não tinha lado nenhum e ele não queria falar sobre a goleada que tomou.

Felipão e sua família sempre tratou a imprensa, principalmente de outros estados, como inimiga.

Nada como o tempo.

Em 1997, ele estava no Japão, trabalhando no Jubilo Iwata. Quando recebe uma proposta milionária do Palmeiras. Tive a sorte de descobrir antes, por um motivo singelo.

Era noite de uma sexta-feira, todos os repórteres já tinham saído do CT. Eu trabalhava no Jornal da Tarde, que fechava às 23 horas. Aproveitava esse tempo a mais e buscava informações exclusivas.

Fui para a secretaria do clube tentando buscar notícias, com o saudoso administrador Odilon, já que o Palmeiras, mesmo com o apoio bilionário da Parmalat, estava em crise.

Vejo um homem se abaixar, tentar se esconder embaixo de uma mesa. Surreal.

Chego perto, lógico. O bigode o denuncia. Ele olha para mim, vermelho, envergonhado. Era Flávio Teixeira, o Murtosa. Sim,o auxiliar de Felipão.

Só o cumprimento, não era preciso falar uma palavra.

Volto para a redação do Jornal da Tarde e escrevou duas páginas sobre a contratação de Felipão.

Ligo para ele no sábado, no Japão. Ele me atende e diz claramente. “Mentira! Não vou para o Palmeiras. Tenho contrato aqui! Os japoneses não deixam.”

Dou como manchete que Felipão ‘esconde’ a verdade e está contratado.

Na segunda-feira, quando ele é apresentado no Palmeiras, ele carrega o Jornal da Tarde nas mãos. Começa a perguntar quem é Cosme Rímoli. Respondo que sou eu. Ele mostra a manchete do JT. ‘Chega hoje o homem que jurou que não vinha. Felipão.’

Ele grita. “Como é que você escreve um negócio desses?” Respondo. “Você me disse que não iria sair do Japão. Onde você está?” Felipão retruca. “Eu não podia, tinha contrato. Olha ele aqui.” E me mostra. A manchete do JT do dia seguinte. ‘Técnico que jurou não vir ao Palmeiras mostra seu contrato com o Jubilo. Em japonês, aquele que proibia de voltar. Mas ele voltou."

Desde então, a nossa relação era bélica. Eu perguntava, ele era áspero, eu dava a tréplica no mesmo tom. A imprensa acompanhava todos os treinamentos do time e depois cercava o técnico e ele falava. Diariamente.

Em 1998, com a perda do Brasileiro para o Vasco, Felipão estava insuportável. E eu, talvez, mais irritante.

Foi quando desembarca no Palmeiras, Paulo Angioni.

Inteligente, perspicaz, carismático, ele antevia situações. Sabia que estava em um clube onde ainda havia muito dinheiro da Parmalat, não como nos tempos de Luxemburgo, mas havia potencial econômico para dominar o cenário nacional. E para ganhar a primeira Libertadores.

E ele logo acompanhou os meus embates diários e ríspidos com Felipão. Que ficaram pior quando soube que ele me xingava para os jogadores.

Estava ficando insuportável, quando uma terça-feira, começamos a gritar um com o outro.

Foi quando Angioni apareceu. E fez um sinal para que eu me aproximasse. “Entra na minha sala que eu preciso conversar com você.” Ele faz o mesmo gesto para Felipão. E pede para que ele entre também.

Angioni olha muito sério para mim. E diz. “Cosme, entra.” Eu entro. Ouço ele falar para Felipão a mesma coisa. “Entra.”

Entramos.

Um olha para o outro com raiva.

Para nossa surpresa, Angioni coloca a cabeça entre a porta e diz. ‘Vocês são adultos. Vocês se acertem ou se matem. Chega dessa baixaria no Palmeiras.’

E tranca a porta!

Nos deixa sozinhos.

O Felipão começa. ‘Tu me persegue desde o Grêmio. Não se conforma que eu estou no Palmeiras.’

Respondo. ‘Você tem síndrome de perseguição. Mentiu para mim, que não viria para cá.’

Ficamos por uns dez minutos naquele clima tenso, pesado, a flor da pele.

Até que o Felipão foi mais sábio do que eu.

“Bah, vamos ficar assim a vida inteira?”

Pensei, ele tem razão.

“Não, vamos tentar zerar.”

E demos as mãos.

Paulo Angioni estava ouvido toda conversa atrás da porta, com certeza, pronto para intervir se ouvisse cenas de pugilato.

Ele entrou e falou: “Agora sim, vão trabalhar como profissionais que vocês são. E lembrem onde estão e a responsabilidade de cada um.”

E a minha relação com Felipão mudou desde então. Sempre foi distante, porque ele não aceita críticas e era mal orientado, mas Angioni me deu uma lição de profissionalismo que jamais esqueci.

Angioni no seu clube do coração. Parte dessa vida onde mais tinha prazer em trabalhar Divulgação/Fluminense

Na minha longa carreira de 40 anos nunca encontrei um dirigente como Paulo Angioni.

Cobri o Corinthians e o clube estava vivendo um caos político, com a Polícia Federal expulsando a MSI e seu dinheiro russo, do Parque São Jorge.

E ele foi o diplomata que evitou greves de jogadores, protegeu treinadores de agressões de torcedores organizados. Cobrou seriedade de presidentes, para pagar atletas e clubes.

A última vez que nos encontramos, em 2018, ele estava comandando o futebol no clube do seu coração.

“É no Fluminense que eu me sinto melhor, em casa.”

E trabalhando no seu tricolor, que hoje, aos 80 anos, ele parte.

Descanse em paz.

Muito obrigado por trancar aquela porta, Paulo...

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