‘Tenho sangue de favelado. Não tinha o direito de fracassar. Passei fome. Vi gente ser assassinada. Como iria ter medo de jogar futebol?’ Magrão
Entrevista exclusiva e emocionante, que mostra a luta de um garoto que nasceu na favela de Heliópolis até ser ídolo do Palmeiras, Corinthians e Internacional

São Paulo, Brasil
Heliópolis é a segunda maior favela do Brasil.
Na década de 80, era presença constante no noticiário policial. Assassinatos, chacinas, sequestros, tráfico de drogas, infelizmente, eram normais. Foi neste cenário que o menino Márcio cresceu.
“Vi um amigo do meu pai ser assassinado com um tiro na nuca. Era rotina ouvir tiros e correr para casa da minha tia, que era de madeira, e ficar deitado no chão até acabar o tiroteio. Meu pai trabalhando demais e perguntando a nós, da família, se queríamos almoçar ou jantar. Porque o dinheiro só dava para uma refeição. Isso é pressão, que as pessoas passam diariamente neste país. Não um jogo de futebol”, desabafa Magrão.
Tanta dificuldade foi moldando um guerreiro no campo de futebol, com ótima visão de jogo, mas adorava a batalha pela bola, pela vitória.
“Eu tinha uma grande raiva, não era nem vontade de vencer. Mas a certeza que eu não tinha outra opção a não lutar, de corpo e alma, para o meu time vencer. Para tirar a minha família, as pessoas que eu amo, daquela vida difícil, terrível. Era revoltado. E mesmo quando as coisas deram certo, jamais esqueci das minhas origens. Nem deixo os meus filhos esquecerem. Tenho sangue de favelado correndo nas minhas veias. Com muito orgulho.”
Magrão lutou muito para vencer. Surgiu como um volante vibrante, guerreiro, que adorava divididas. Mas, aos poucos, foi desenvolvendo sua técnica,que vinha do futsal. Fez história no São Caetano, logo foi notado pelo Palmeiras.
“Nasci corintiano. Nunca escondi isso. Mas dei a alma pelo Palmeiras. Principalmente quando disputei a Segunda Divisão e ajudei este gigante a voltar para a Série A. O Palmeiras me fez o que sou para o futebol brasileiro.
“Me doeu ver, como dirigente do Inter, na nova arena, a foto do time que tirou o Palmeiras da Segunda Divisão. E eu não estou. Porque joguei no Corinthians. As pessoas precisam saber que foi o Palmeiras que não me quis de volta. Mas tudo bem. Sou muito grato ao Palmeiras.”
Magrão foi vendido, sem querer, do Palmeiras para o Yokohama Marinos. Pediu para voltar. Mas ouviu ‘não’. Foi quando o time do seu coração o procurou.
“Realizei o sonho da minha família e o meu. Aceitei o Corinthians depois do ‘não’ palmeirense. Na apresentação, fiquei sem camisa para mostrar que não tinha nenhuma tatuagem da Mancha Verde, como espalhavam.
“Foi uma emoção gigantesca ouvir a Gaviões gritando meu nome. Quando era menino, e meu pai arrumava dinheiro, ia ao tobogã do Pacaembu, que era o lugar mais barato, torcer pelo Timão. Consegui ajudar o Corinthians a não ser rebaixado. Pena que fiquei pouco tempo, a MSI estava indo embora e queria fazer dinheiro.”
Foi quando surgiu uma nova paixão.
“Fui para o Internacional. E houve o casamento perfeito. Fui tomado pela vibração da torcida, do clube popular que sempre lutou muito pelas suas conquistas. O casamento foi instantâneo. Virei colorado de corpo e alma. Sei que parece coisa de doido. Mas reconheço que devo tudo no futebol ao Palmeiras. Sou corintiano de coração. Mas me apaixonei pelo Internacional. Eu sou assim. Tudo comigo é intenso.”
Verdadeiro, faz um relato impressionante da depressão que ficou ao encerrar a carreira. De como o amor da esposa o salvou. Depois se tornou empresário. Foi trabalhar como dirigente do Internacional. E agora diz que se descobriu.
‘Amo comentar futebol. Me sinto muito bem estudando e explicando, com a minha visão, o futebol. Devo essa chance ao meu ídolo, o Neto. Ele tem um coração enorme, ajuda várias e várias pessoas, sem divulgar. Foi ele quem esticou a mão para mim, no pior momento.”
Um dos maiores sonhos do menino Márcio era tomar Danoninho, quando mal tinha o que comer. ‘Hoje não falta nada, graças a Deus, na minha geladeira, para a minha família, para os meus filhos. Mas faço questão de lembrar a eles que, nas minhas veias e nas deles, corre o sangue de um favelado que lutou muito nesta vida. E que não esquece sua origem. Meus grandes amigos estão em Heliópolis.
“A lição que eu deixo é: se eu pude sair daquela vida terrível, qualquer pessoa pode. É só não desistir. Engolir o choro e lutar, lutar e lutar. A saída sempre foi trabalhar muito. Deus nunca abandona quem trabalha, quem não desiste. Não desista! Eu não desisti!”
A entrevista, na íntegra, de Magrão está no canal Cosme Rímoli, no YouTube.
São mais de 200 personagens do esporte deste país.
O canal já tem mais de 19,5 milhões de acessos.
As entrevistas mais marcantes passam aos sábados.
Às 10 horas, na Record News.
Neste final de semana será com César Maluco, artilheiro, que conta bastidores da Segunda Academia, time histórico do Palmeiras.
E como foi vendido, sem querer, para o Corinthians...













