A santa ousadia de Fernando Diniz. Acabou a ingenuidade
Demissões mostraram ao jovem treinador: não adianta só utopia. A vitória do Fluminense contra o milionário Flamengo mostra que aprendeu a lição
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

São Paulo, Brasil
"Ao nível de Fernando Diniz?
Quem sabe, Guardiola..."
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As frases foram ditas pelo homem que domina o Athetico Paranaense há décadas, Mauro Celso Petraglia.
Às vésperas da decisão do primeiro título internacional do seu clube, a Copa Sul-Americana, de 2018. O técnico da conquista foi Tiago Nunes, mas Petraglia não teve constrangimento em dizer que foi Fernando Diniz que deu a base, mostrou o caminho da conquista.
Petraglia quase perdeu o controle político do clube, tamanha a convicção nos métodos do treinador. Ele queria de qualquer maneira segurar o ousado técnico, que é defensor absoluto da troca de passes desde o goleiro até o jogador mais agudo, perto da área adversária. A obrigação de atletas desempenharem três funções em campo: marcar, organizar e atacar.
Volantes como pontas abertos, atacantes como laterais, meias como zagueiros. Diniz se apaixonou com tamanha sofreguidão pelos métodos de Pep Guardiola, que decidiu ira além do treinador catalão. Buscar a utopia.
Defensor radical dos seus métodos, ele não levava em consideração a capacidade técnica, a inteligência e a vontade dos jogadores brasileiros em seguirem tanto repertório. Fora a necessidade absoluta de excepcional preparo físico para a sincronia de movimento dos setores do time.
É uma tarefa árdua, muito difícil e que que exige longo tempo de treinamento exaustivo.
Por isso mesmo com Petraglia, Fernando Diniz só durou 21 partidas no Athetico Paranaense. Os resultados, que servem como diagnóstico se um treinador está no caminho certo ou não, foram péssimos. 5 vitórias, sete empates e nove derrotas, com a ameaça de rebaixamento.
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Foi demitido em junho de 2018.
Ficou seis meses desempregado.
Só conseguiu trabalho em dezembro do ano passado, no Fluminense.
Os 180 dias fora do mercado serviram para mais reflexão por parte de Diniz.
Seguir sua filosofia de maneira extremista? Ou perceber que as equipes que comanda não são réplicas do excepcional Barcelona que encantou o mundo entre 2008 e 2012?
O veterano treinador Márcio Araújo é auxiliar de Diniz no Fluminense. E ele tem por características profundas trocas de ideia sobre futebol. Não estava adiantando Fernando Diniz seguir tentando formar equipes utópicas e sendo demitido. Seguiria sendo um risco para equipes grandes.
Daí a mudança nas Laranjeiras.
Com orçamento baixo, jogadores dispostos a conseguir ou reconquistar espaço no futebol brasileiro se submeteram a Diniz. A exigência do domínio de jogo, a trocas de passes, a mudança constante de posição. Tudo continuou. Com diferenças fundamentais. Sua equipe passou a ser muito mais compactada na defesa. Se houver a necessidade, os chutões estão liberados para os zagueiros e para o goleiro Rodolfo, apesar de doer a alma do treinador.
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Faltas táticas para matar contragolpes adversários passaram a ser permitidas.
Acabou a ingenuidade do radicalismo.
E o resultado neste início de ano está mais do que animador.

Campeonato Carioca, como todos os estaduais, são falsos, iludem. As conquistas não podem ser levadas em consideração. Principalmente no Brasileiro que é muito mais difícil. E costuma levar campeões do seu quintal para a Série B.
Mas a passagem do Fluminense para a final da Taça Guanabara (esperteza dos dirigentes cariocas, que dão taça à uma simples conquista de turno) merece ser destacada.
Foi a vitória da tática, da ousadia, sobre o talento, sobre o dinheiro.
Mesmo contra um ótimo técnico, Abel Braga, e um elenco repleto de jogadores importantes e caros para a realidade brasileira, como Arrascaeta, Gabigol, Diego, Everton Ribeiro, Vitinho, Bruno Henrique, Cuellar, o Fluminense se impôs. Teve 62% de posse de bola.
O dado que importa: trocou 423 passes certos.
Enquanto o Flamengo apenas 267.
O gol de Luciano, aos 47 minutos do segundo tempo, foi a mistura do amor ao 'jogo bonito' com a disposição, à forte marcação. Arrascaeta estava com a bola dominada e não imaginou a disposição de Caio Henrique em desarmá-lo. Afinal, o jogo estava no fim.
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Depois da roubada de bola, ela foi parar nos pés de Yoni González. O cruzamento foi rápido, seco, perfeito. Assim como o toque decisivo de Luciano, vencendo Diego Alves.
Fluminense 1 a 0 e na final da Taça Guanabara contra o Vasco.
2019 ainda está no seu início.
Mas já é possível ver o Fluminense uma equipe organizada, firme, sabendo o que deseja em campo.
E ousada.
Afinal, o atacante Marcos Calazan e o meia Caio Henrique acabaram o jogo substituindo os laterais.
A versatilidade nas Laranjeiras se tornou obrigatória.
Aos 44 anos, Fernando Diniz parece ter entendido.
Há como ser atrevido, buscar outra leitura do futebol.
Ter a bola sob domínio.
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Atacar e defender em bloco, em sintonia.
Fazer a bola sair dos pés de Rodolfo até Luciano, com ela raspando o gramado.
Fruto de técnica e constante movimentação da equipe toda.
Sem chuveirinhos, ligação direta, chutões da defesa para o ataque.
Ou ficar com o time encolhido, sonhando com uma bola parada.
Ou a dádiva de um contragolpe encaixado.
O Fluminense pode arejar o futebol deste país.
Mas sem utopia.
Sem exposição desnecessária, com a necessidade de variações.
Porque nos último anos era ridículo ver equipes piores que as comandandas por Fernando Diniz. A fórmula infantil de vencer era marcar a saída de bola. Proibidos de dar chutões, zagueiros e goleiros se complicavam. E times muito melhores treinados eram derrotados e Diniz acabava demitido.
Parece que as demissões ensinaram.
Futebol pode ser vistoso, técnico, empolgante, jogo de domínio.
Mas sem vitórias, nenhum treinador se sustenta.
Essa lição parece aprendida por Fernando Diniz Silva.
Agora ele se prepare para um outro desafio.
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Tão difícil quanto a abandonar a utopia.
Fazer Paulo Henrique Ganso encarar a realidade.
E encaixá-lo no seu versátil Fluminense.
Mostrar ao meia que não está nos anos 70.
Ou participa efetivamente do jogo.
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Correndo, vibrando, defendendo, atacando.
Ou seguirá estático, frio, querendo a bola nos pés.
Enorme talento desperdiçado...
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