Cosme Rímoli França e Croácia. A decisão que muda a hierarquia do futebol

França e Croácia. A decisão que muda a hierarquia do futebol

O trabalho profundo que levou croatas e franceses à decisão hoje da Copa do Mundo, aqui na Rússia. Lição de modernidade para os gigantes como o Brasil

França e Croácia mostraram a importância da competitividade. Não da exibição

França e Croácia mostraram a importância da competitividade. Não da exibição

Lance

Moscou, Rússia

França e Croácia, a final mais inesperada de todas as 21 Copas. A decisão de 2018 serve para profundas reformulações das seleções tradicionais, que acumularam vexames neste final de década. A começar por Itália  e Holanda, que não conseguiram sequer se classificar. Alemanha, Argentina, Espanha e, principalmente, o Brasil têm muito o que aprender. 

O que aconteceu na Rússia não foi por acaso.

Croatas e franceses não chegaram à decisão por acaso. São os maiores representantes do futebol coletivo. De total entrega tática, física e psicológica. Os dois times contam com jogadores talentosos, importantes. Como Modric, Mbappé, Griezmann, Rakitic, Mandzukic, Pogba, Umtiti, Matuidi.

Mas o potencial que reúne dribles, arrancadas, chutes, toques de primeira, lançamentos, cabeçadas, cobranças de faltas, ficou para trás. Para quem quiser desvendar o mistério dos dois tímes decidindo a Copa precisa entender a dinâmica do futebol. A movimentação, a sincronia dos movimentos, a intensidade, a recomposição, as triangulações pelas laterais, os contragolpes em bloco. 

A briga por cada centímetro na intermediária. A proximidade das linhas de cinco, sem a bola. A humildade de servir ao time e não se servir dos companheiros. Ter jogadas ensaiadas à exaustão em escanteios, faltas laterais. 

Times formados por atletas capazes de correr 11 quilômetros por partida. 

A Fifa contabiliza que a Croácia correu 723,9 quilômetros nas seis partidas, somando todos os jogadores que estiveram em campo. 116,4 quilômetros a mais do que percorreram os franceses, 607,5 quilômetros. No final da Copa de 2002, a média de quilômetros corridos ficava nos 9,5. 

O futebol mudou muito e pouca gente percebeu.

A França chega à sua terceira decisão de Mundial em 20 anos. Ninguém tem esse trabalho tão consolidado entre todas as seleções. E não é por acaso. A filosofia de jogo coletivo impera e serve de parâmetro desde 1998, quando foi campeã pela primeira vez, surpreendendo o Brasil. 

Didier Deschamps era o capitão em 1998 e é o treinador agora, vinte anos depois. Pode se igualar a Zagallo e Beckenbauer, campeão como jogador e treinador, como muitos repetem a cada instante.

Mas o que ele representa para a França é muito além. O futebol vibrante, com os atletas se sacrificando pelo esquema. Sem o menor improviso do meio de campo para trás. E para a frente, também é controlado. Com os ataques e contragolpes fincados na velocidade, na transição rápida, firme, coordenada. Dribles tabelas, infiltrações instintivas, só perto da grande área adversária.

Na França de Deschamps nada é por acaso. Por isso venceu cinco jogos e empatou um. Marcando 10 gols e sofrendo 4. Três deles no jogo mais espetacular da Copa, a vitória que despachou a Argentina por 4 a 3.

"Nós temos uma equipe treinada, consciente do seu potencial. E que sabe o que quer, o que precisa fazer", diz o treinador, que implementou a sua revolução francesa, depois da perda da Eurocopa em casa, em 2016.

Mbappé e Griezmann. Antes da pose, jogam pelo time

Mbappé e Griezmann. Antes da pose, jogam pelo time

Catherine Ivill/Getty Images - 21.06.2018

A derrota para Portugal foi excelente para a decisão de hoje. Os franceses sabem que não poderão baixar a guarda, acreditar demais na vitória antes da hora. 

É a favorita, mas promete não se acomodar no potencial e no equilíbrio maiores do que os croatas.

A equipe de Zlatko Dalić demonstra um espírito de superação incrível. Que, de longe, parece ser muito romântico. Da repescagem nas Eliminatórias à final. Mas houve o encaixe do trabalho moderno, com o foco no aspecto fisico para a aplicação da estratégia e uma dedicação que vai além do normal. E que está fincada no nacionalismo extremo de uma geração ainda machucada com a guerra civil que decidiu a separação da Iugoslávia.

A campanha no Mundial é digna de um documentário. Depois de três vitórias importantes na fase de grupos. Contra Islândia, Argentina e Nigéria, três empates no tempo normal. Dois na prorrogação que acabaram em festas, na decisão por pênaltis. Contra a Espanha e a anfitriã Rússia. Até o triunfo no tempo extra diante dos ingleses.

O goleiro Subasic igualou o recorde do argentino Goycochea, defendendo quatro pênaltis em um Mundial.

"Nós chegamos muito fortes no aspecto psicológico para esta final", deixa escapar o treinador Dalic. 

Ele sabe que por trás dos conceitos modernos do futebol o lado emocional é tamanho, que seus jogadores titulares pediram para não sair, mesmo chegando a o recorde de três prorrogações em um mundial. 

A Croácia atual já foi além da chamada geração de ouro, terceira colocada na Copa de 1998. Deixando de disputar a final na derrota para a França de Deschamps. Como os croatas seguem ligados umbilicalmente à história, à revanche, esse é um ingrediente que não pode ser desprezado, logo mais ao meio-dia, horário de Brasília.

Mandzukic representa o orgulho croata. Mas a dedicação tática

Mandzukic representa o orgulho croata. Mas a dedicação tática

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A Copa do Mundo da Rússia não mostra apenas uma nova ordem no futebol mundial. 

Nada é por acaso, esse conceito não pode ser desprezado.

A técnica e o talento seguem importantíssimos.

Mas a modernidade exige profundo compromisso tático.

Estágio fisico de atletas de elite.

E comprometimento com o time, antes do prazer individual.

A lição dos franceses e dos croatas está dada.

Aquele que sair campeão daqui, do estádio Lujnik será merecido.

Ninguém tem o direito de contestar.

Subasic se superou durante a Copa. O brilho individual ajudando o coletivo

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Alemanha, Espanha, Argentina, Itália, Holanda.

Nem Uruguai, Inglaterra.

E principalmente o Brasil, refém de Neymar...