Eufórico com o time, Tite decide correr risco desnecessário
Treinador ordenou que os zagueiros evitem os chutões . A bola precisa sair da defesa para o ataque com passes. Um erro pode ser fatal durante a Copa
Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

Sochi, Rússia
Na unânime aclamação da Seleção Brasileira como uma das grandes favoritas à conquista da Copa do Mundo, há um detalhe que não pode passar em branco.
E que pode comprometer a caminhada do time de Tite. Algo que ele sempre sonhara mas nunca conseguiu aplicar nas equipes que treinou.
Na busca pelo aprimoramento, pela beleza do jogo, o treinador brasileiro pode estar exagendo em uma questão crucial.
Na saída de bola. Os defensores, inclusive o goleiro Alisson, estão orientados a não dar chutão. A sair jogando de sua área trocando passes, de pé em pé, até chegar aos volantes, aos meias na intermediária adversária.
É proibido dar chutões.
Não bastam 16 partidas que o Brasil não tomou gol, nas 21 partidas que o treinador comanda a Seleção.
Ele quer muito mais.

"Nós nos desafiamos constantemente. Nós nos cobramos. Isso faz elevar o nível da equipe individual e coletivo. É o preço que se paga por um trabalho de excelência. A Seleção está amadurecendo. A mobilidade que essa equipe tem é impressionante. Vamos nós mesmos nos desafiar para elevar o nível um pouquinho mais", deixou escapar Tite durante a coletiva, após a partida de ontem, contra a Áustria.
Ele não citou diretamente o tema, saída de bola, mas mostrou o quanto está encantado com o potencial de um time que deixa claro acreditar que fará história aqui na Rússia.
É uma tentação redescobrir todo o potencial de uma geração que parecia perdida nas mãos erradas de Luiz Felipe Scolari, nos 7 a 1. E nas de Dunga que, pela segunda vez teva a chance de comandar o Brasil. E fracassou de forma constrangedora. Em duas Copas América seguidas. E que, quase foi além. Colocou em risco o que hoje parece algo inverossível, a classificação do Brasil para o Mundial.
No sonho da equipe perfeita, Tite faz com que apenas os resultados não bastem. É como se o treinador se sentisse obrigado a empolgar, fazer com que o Brasil faça história aqui na Rússia. Deixe sua marca nos Mundiais.
Essa pretensão fez com que, um profundo estudioso de futebol como ele, acabasse sendo atraído além de sua filosofia básica. Amante e adepto confesso dos princípios do italiano Carlo Ancelotti: a fortíssima marcação na intermediária, a intensidade e a velocidade nos contragolpes, que tanto sucesso fez não só no óbvio Corinthians bicampeão brasileiro, da Libertadores e Mundial nas suas mãos. Mas ainda no Grêmio campeão da Copa do Brasil diante do favorito Corinthians de Luxemburgo, em pleno Morumbi lotado.
Tite decidiu ousar. Ir além. Sair jogando com Alisson, Danilo, Thiago Silva, Miranda e Marcelo trocando passes nas cercanias da grande área brasileira é algo mais do que arriscado. Um mero toque na bola mais forte ou mais fraco pode ser um presente dos céus para um time forte que enfrente a Seleção, em jogo eliminatório. Como Alemanha, França, Argentina, Inglaterra.
Só que o treinador brasileiro não encara como andar na corda bamba. Não. Ele tem a convicção que o elenco que tem nas mãos pode ir além do que já parece consistente.
"Em todos os esportes coletivos, o segredo é sobrecarregar tanto um lado do gramado que o oponente deve forçar sua própria defesa a jogar. Você sobrecarrega de um lado e os atrai tanto que eles deixam o outro lado fraco. E quando nós fizermos tudo isso, nós atacamos e marcamos do outro lado.
"É por isso que você tem que passar a bola, mas apenas se você estiver fazendo isso com uma intenção clara. É apenas para sobrecarregar o oponente, para atraí-los e então acertá-los com o golpe. É assim que nosso jogo deve ser."
Essas palavras poderiam facilmente ser confudidas, terem saído do discurso de Tite após qualquer vitória convincente. Mas foram ditas no auge de Pep Guardiola no Barcelona. Clube em que fez história, entre 2008 e 2012. Conquistar o bicampeonato da Champions e Mundial de Clubes não bastava. Ele queria deixar uma marca profunda na história do futebol. E deixou.
A saída de bola do Barcelona, no auge do tiki taka, apelido para a impressionante troca de passes do time catalão, era assustadoramente precisa. Nada de chutões, a bola era tratada com carinhos pelos defensores, mesmo pressionados pelos atacantes adversários. Houve erros, o time tomou gols. Muitas vezes conseguir virar, outras vezes, não. Mas Guardiola se manteve fiel aos seus princípios.

Contra os croatas, Thiago Silva errou um passe para Miranda e quase deu o primeiro gol do jogo aos adversários.
E ontem, Danilo titubeou e também se equivocou na intermediária e quase proporcionou contragolpe mortal para os austríacos.
Aliás, Danilo tem se mostrado o mais inseguro na saída de bola. Por ironia, ele atua no Manchester City, comandado por Guardiola. Nem no time inglês tem essa obrigação de sair trocando passes a todo instante.
Os elogios que vieram depois das vitórias acabaram encobrindo os erros. Tite escapou deles nas coletivas em Liverpool e em Viena.
Só que, como é comum, entre as equipes que sonham sair da Rússia com o título, tudo nos favoritos acaba sendo dissecado.
Essa nova postura da defesa brasileira não passará em branco para os rivais.
A saída de bola trocando passes de pé em pé pode ser uma alternativa, não uma constância, obrigação, que trave zagueiros, que não são necessariamente primorosos tecnicamente. Não há demérito algum em alternar, não chutões, mas lançamentos para atacantes velozes como Neymar, Gabriel Jesus, Philippe Coutinho.
A desculpa que são baixos não se encaixa, porque há a segunda bola, as rebatidas de cabeça dos adversários, que podem ir parar nos meias brasileiros, de frente para a zaga rival.
Tite precisa repensar essa novidade.
É um colírio ver zagueiros sair jogando trocando passes.
Desprezando a marcação pressão do oponente.

Mas o Brasil não veio à Rússia para ensinar futebol.
Cruzou o Atlântico para buscar o hexacampeonato.
Evolução não precisa significar risco desnecessário.
Tite, um novato em Copa, talvez precise repensar seus conceitos.
Mundiais costumam ser cruéis.
Não perdoam erros...

