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BRASILEIRO 2022

Opinião: Copa do Mundo toca no lado insano do brasileiro 

A população enlouquece durante cada Mundial, esperando da seleção apenas a vitória

Copa do Mundo 2014|Eugenio Goussinsky, do R7

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Beleza do futebol faz o brasileiro esperar, de maneira insana, a cada quatro anos, vitórias em Copas do Mundo
Beleza do futebol faz o brasileiro esperar, de maneira insana, a cada quatro anos, vitórias em Copas do Mundo

O Brasil vive agora aquele período especial, envolvido no manto encantado de uma Copa do Mundo. É a estação mais importante do quadriênio, onde sonhos desabrocham mais do que as flores da primavera e conceitos são colhidos como frutas apetitosas do outono. Tudo é sedutor em um evento como este, ainda mais sendo realizado no próprio país.

Tal sedução pode ser atraente como uma linda sereia. Faz o que quer dos apaixonados. Pescadores inebriados mergulham no mar em busca de suas próprias ilusões. Sem medo de se afogar. O brasileiro, em Copa do Mundo, se encanta, se empolga, sonha e se motiva.


E se torna um dos personagens do livro O Alienista, de Machado de Assis, em que o protagonista, Simão Bacamerte, vai ficando sozinho no mundo, em função da loucura que assola todos que o cercam. Em Copas do Mundo, o inebriado brasileiro simplesmente coloca sua loucura para fora. Será que sobra um fora do hospício?

Tarefa insana esta de ser brasileiro em Copa do Mundo. O desafio é árduo. Já até nos acostumamos a esta situação. Todos nós, jogadores, torcedores, o povo em geral, entramos em um barco que só pode ter um destino: a vitória.


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Nesta Copa esta missão é ainda mais enlouquecedora. Jogadores e comissão técnica almoçam, jantam, treinam, dormem só pensando em uma possibilidade: vencer. São sete jogos, não há outra saída minimamente satisfatória que não sejam sete vitórias, como se, em Copa do Mundo, as estatísticas lotéricas, naturalmente formadas pelo tripé vitória, derrota e empate, se contorcessem impiedosamente em direção apenas à primeira e anulassem as outras.


Claro que todas as seleções vivenciam um pouco desta necessidade frenética de subida, neste cassino de desejos que lutam de forma lúdica para serem realizados a qualquer custo. Mas no Brasil essa viagem é mais intensa. E há razões para isso.

A identidade do país, o seu cartão postal parece estar em xeque a cada quatro anos. Justamente o Brasil, que ficou marcado para a história como um país que não é sério. Justamente o Brasil, que é motivo de deboche permanente do mundo, e dos próprios brasileiros.


Não há como negar que o Brasil, ainda que muito rico em vários outros setores, precisa do futebol. Tem a necessidade e o orgulho de erguê-lo como um troféu, por todos os cantos do planeta, acima do Himalaia, pra lá do Everest, ecoando pelos sete mares a retumbância de sua competência com a bola, porque esta significa que, a partir dela, este país está vivo também em outras esferas da vida.

Uma derrota em Copa do Mundo é tão doída para o brasileiro, porque ele sabe que, neste caso, quando a seleção perde, um vazio entra em cena. E ele só poderá ser preenchido daqui a quatro anos. Enquanto isso, ruminarão da Europa e de outros continentes ironias sobre nossas falhas, nossos percalços, nossa incompetência. Não teremos o futebol para, como um primeiro passo, uma referência inicial, nos defender. Inclusive de nós mesmos.

É realmente insana esta situação. Mas quem não se aterroriza, bem no íntimo, com a ideia de que o Brasil perca, em algum momento, esta Copa? Percebo um Felipão abatido, envelhecido, buscando forças para não sucumbir ao desafio. Mas, no fundo, no fundo, é uma saudável loucura esta paixão pelo futebol. Já passamos por loucuras piores e nos recuperamos. Esta loucura pela seleção, pelo menos, busca exaltar nossa própria força.

Salve essa insanidade, tão inofensiva como uma flor que desponta do cano de uma arma. Um ponto de honra tão divertido quanto um drible nos barrancos da cidade. Loucura sagrada, sem contraindicações, que não significa alienação. Quando não obedecida, se transforma em esperança para a próxima tentativa. E quando dá certo? Simplesmente faz todo o país se tornar o sanatório mais apaixonado do mundo.

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