O público americano quer cada vez mais trocação e isso muda a forma que o MMA é visto
Talvez eles estejam acompanhando o esporte errado
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Quando o UFC nasceu, em 1993, a proposta era descobrir qual arte marcial era mais eficiente em um combate real. Naquela primeira edição, realizada em Denver, Royce Gracie venceu três adversários completamente diferentes e apresentou o jiu-jítsu brasileiro a um público que ainda enxergava as lutas sob outra lógica.
A mensagem era clara: um lutador tecnicamente superior no grappling poderia superar adversários maiores, mais fortes e especialistas na trocação. Décadas depois, Royler Gracie contou que a ideia do torneio tinha inspiração até mesmo no famoso game Mortal Kombat, colocando diferentes estilos frente a frente para descobrir qual era o mais eficiente.
Veja Também
Mais de trinta anos depois, o esporte evoluiu profundamente. Os atletas se tornaram completos, misturando boxe, muay thai, wrestling, judô e jiu-jítsu em um único sistema de combate.
Mas uma mudança aconteceu fora do octógono.
Principalmente nos Estados Unidos, uma parcela considerável do público passou a valorizar muito mais a parte da trocação, ou seja, socos e chutes, do que o grappling, mesmo quando o domínio no chão é tecnicamente impecável.
Um ótimo exemplo é a atuação de Charles “Do Bronx” Oliveira contra Max Holloway pelo cinturão BMF, no UFC 326. Durante cinco rounds, o brasileiro mostrou exatamente o que se espera de um lutador completo. Trabalhou bem a trocação, encontrou o momento certo para derrubar, controlou posições e buscou finalizações praticamente durante toda a luta.

Não foi uma estratégia baseada apenas em administrar vantagem. Sempre que chegava ao solo, Charles procurava avançar posições, atacar o pescoço, os braços ou abrir espaço para o ground and pound.
Foi uma exibição de MMA em sua forma mais completa.
Ainda assim, grande parte da repercussão girou em torno da quantidade de tempo que a luta passou no chão.
Conor McGregor ironizou a atuação nas redes sociais. Nate Diaz também fez críticas ao estilo apresentado. Entre os torcedores, muitos reclamaram que uma disputa pelo cinturão BMF deveria privilegiar guerras de trocação, como se o grappling fosse incompatível com agressividade.
Esse tipo de reação revela uma mudança interessante na forma como parte do público consome o esporte.
O entretenimento passou a pesar mais do que a técnica. Boa parte da base de fãs do UFC foi construída em torno de nocautes, rivalidades e momentos virais. Os próprios materiais promocionais da organização destacam sequências de golpes, nocautes espetaculares e trocas intensas. Naturalmente, isso influencia a percepção de quem acompanha o esporte.
Para muitos fãs, especialmente no mercado americano, uma luta emocionante é aquela em que os atletas permanecem em pé durante a maior parte do tempo. Quando o combate vai para o chão, mesmo que exista uma disputa técnica extremamente rica, a impressão frequentemente é de que a ação diminuiu.
O problema é que essa percepção nem sempre corresponde ao que realmente acontece dentro do octógono. Uma troca de posições entre dois especialistas pode exigir muito mais técnica, inteligência e risco do que vários minutos de trocação sem dano significativo.
Principalmente com o recente destaque dos russos, como Khabib Nurmagomedov, Islam Makhachev e até Magomed Ankalaev, lutadores que treinavam no famoso Daguestão, a onda de reclamações tomou as redes sociais.
As críticas seriam motivadas pelo foco no controle de posição e pela falta de busca por finalizar o combate. Mas é importante ressaltar: É muito diferente acompanhar as antigas lutas de Khabib e Makhachev em relação ao Ankalaev.
O ex-campeão dos meio-pesados e desafeto de Poatan ficou conhecido por ter um jogo extremamente tedioso. Já nos outros campeões russos, a finalização e até a trocação aparecem com muito mais frequência.
O fato é: nem todo grappling é igual. Existe uma distinção importante que costuma ser ignorada. Alguns atletas utilizam quedas e controle de solo para administrar o relógio, reduzir riscos e garantir vantagem na pontuação.
É uma estratégia perfeitamente válida dentro das regras.
Outros fazem exatamente o oposto. Usam o chão como uma plataforma constante de ataque.
Charles Oliveira é um dos maiores exemplos desse segundo grupo. Sua carreira inteira foi construída em torno da busca incessante pela finalização. Mesmo quando controla um adversário, seu objetivo normalmente é criar espaço para um estrangulamento, uma chave de braço ou golpes contundentes.
Contra Holloway, foi exatamente isso que aconteceu.
Quando o UFC passou a atingir um público muito maior, especialmente na última década, muitos novos espectadores chegaram ao MMA justamente buscando um tipo de espetáculo.
É natural, portanto, que parte dessa audiência prefira lutas predominantemente em pé. O problema aparece quando essa preferência passa a definir o que seria uma luta “boa” ou “ruim”.
MMA continua significando Artes Marciais Mistas. O próprio nome da modalidade explica sua essência. Quem deseja assistir exclusivamente à trocação encontra excelentes opções no boxe, no kickboxing ou no muay thai.
O diferencial do MMA sempre foi justamente permitir que todas essas linguagens coexistam dentro do mesmo combate.
✅Não perca nenhum lance! Siga o canal de esportes do R7, o portal de notícias da Record, no WhatsApp







