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Entendendo o College Football: o lado obscuro do esporte universitário

Importância econômica e social dos programas esportivos das universidades é sobreposta à segurança de estudantes

Jarda por Jarda|Lucas FerreiraOpens in new window

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Universidade de Texas Tech durante o Orange Bowl Reprodução Site/Texas Tech

Todas as quintas-feiras, há cerca de dois meses, publico aqui no Jarda por Jarda o Entendendo o College Football, uma coluna semanal que tem como objetivo apresentar ao brasileiro a magnitude do futebol americano universitário, as regras, as histórias. Enfim, quase um manual para você, leitor, estar por dentro deste mundo antes da partida que será disputada no Rio de Janeiro, em agosto.

A grandiosidade do College Football, no entanto, não funciona só para o bem. Se você nos acompanha toda semana, já sabe que os estádios comportam mais de 100 mil pessoas, que os campus costumam ficar em cidades pequenas que vivem a universidade e que ex-alunos fazem doações milionárias todos os anos para manter essa estrutura de pé.


Este contexto social e econômico, no entanto, possui seus reveses. E chegou a hora de abordar aqui no Entendendo o College Football um tema incômodo, que para muitos pode ser até um gatilho.

Como já comentei em semanas anteriores, o fanatismo dos norte-americanos pelo futebol americano universitário coloca os programas esportivos em um pedestal, algo acima do bem e do mal. Automaticamente, os jogadores se tornam figuras místicas dentro dos campus e acabam recebendo regalias, assim como um atleta de um time famoso do Brasil recebe após uma grande vitória.


Nos Estados Unidos, estas questões de favorecimento são catalizadas pelo ambiente no qual eles se encontram. Por exemplo, a cidade de Tuscaloosa, onde fica o campus da Universidade de Alabama, possui cerca de 100 mil habitantes. Estima-se que somente a equipe de futebol americano da instituição teve um orçamento de R$ 409 milhões no ano fiscal 2024/2025 — este valor posicionaria Alabama abaixo somente de Flamengo e Palmeiras na folha salarial do futebol brasileiro (e atletas universitários não recebem salários, vale dizer).

Os programas esportivos destas universidades movimentam a economia e qualquer tipo de escândalo envolvendo seus atletas — lembre-se de que eles são vistos como heróis — pode fazer com que ex-alunos simplesmente deixem de fazer as doações generosas que fazem essa engrenagem girar.


Quando alinhamos o valor econômico e social do futebol americano universitário para estas cidades, entramos em um terreno nebuloso, no qual omitir ou abafar casos muitas vezes é visto como solução para evitar repercussões negativas. A questão é quando existem seres humanos do outro lado em busca de justiça, mas não encontram apoio de autoridades.

A história mais famosa deste tipo de comportamento estrutural envolvendo investigadores e o esporte veio a público na década passada, envolvendo uma estudante e o quarterback Jamies Winston, à época aluno-atleta de Florida State, e atualmente no New York Giants.


Em 2012, Erica Kinsman acusou o jogador por um estupro que teria acontecido no banheiro do apartamento dele. Ao procurar as autoridades de Tallahassee, cidade onde fica localizado o campus de Florida State, Kinsman alega ter ouvido de um policial que aquele era um “município do futebol americano” e que ela deveria pensar bem se faria aquelas acusações contra Winston, quarterback recém-chegado à universidade e tido como uma grande promessa.

As autoridades de Tallahassee nunca condenaram Winston, que teve relação com Kinsman comprovada por meio de exames. Os investigadores, no entanto, alegaram que o sexo havia sido casual. A estudante, por sua vez, abandonou a universidade, enquanto Winston anos depois ganhou o prêmio Heinsman — maior honraria do futebol americano universitário — e foi selecionado com a primeira escolha geral do Draft da NFL.

O quarterback nunca admitiu o estupro, mas entrou em um acordo financeiro com a ex-colega de faculdade para encerrar as acusações.

Documentários como Rede de Abuso (2019) e The Hunting Ground (2015) mostram que o caso de Kinsman não é a exceção, mas sim, uma regra. Obras como estas mostram que para proteger o esporte, autoridades entendem que é preciso desproteger vítimas.

O futebol americano, por si só, é um esporte que amamos, mas não podemos e não devemos retirá-lo do contexto em que está inserido.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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