Cosme Rímoli Sem medalhas, Galvão ganhou com Tóquio. Adeus será em Paris

Sem medalhas, Galvão ganhou com Tóquio. Adeus será em Paris

Aos 71 anos, Galvão Bueno se reinventou. Virou apresentador/narrador/comentarista da Olimpíada. Usa de forma inteligente o fôlego, a voz. A despedida, que seria na Copa do Catar, a Globo já adia para Paris, em 2024

  • Cosme Rímoli | Do R7

Galvão Bueno fazendo propaganda de chinelos. Aproveitando a abertura da Olimpíada

Galvão Bueno fazendo propaganda de chinelos. Aproveitando a abertura da Olimpíada

Divulgação/Havaianas

São Paulo, Brasil

"É prata, é prata, é prata, é da Rrrrrrrreeebeca...

"Saiu a medalha! Vivemos todos para vermos isso, depois de tantas olimpíadas esperando por esse momento.Que momento especial dessa menina!

Não sei se tenho mais idade para isso."

Carlos Eduardo dos Santos Galvão Bueno segue muito inteligente. Aos 71 anos, ele conseguiu capitalizar a conquista da inédita medalha de prata na ginástica artística de Rebeca Andrade, na Olimpíada de Tóquio. E terminar a celebração da conquista da excepcional atleta falando do assunto que mais gosta: dele mesmo.

Tendo as suas reações filmadas e divulgadas. Vivido, ele sabia muito bem que havia câmeras da Globo apontadas para ele durante a apresentação da ginasta brasileira. Ou seja, há naturalidade. Mas uma naturalidade nem tão espontânea.

Mas por trás de todo egocentrismo do narrador, que está na Globo há 40 anos, há mesmo motivo para sua celebração. 

Na noite de 21 de novembro de 2019, quando sofreu um infarto, no Peru, ele se viu humano. Deitado em um leito de hospital em Lima, debilitado, por conta do cateterismo, cirurgia para desobstriur artérias fundamentais no coração, pensou a sério na aposentadoria.

Como o inesquecível cantor Silvio Caldas, ele havia anunciado várias vezes sua vontade de parar. O foco seria transmitir a Copa do Brasil. Depois, a Olimpíada do Rio. Depois, se conseguisse, a Copa do Catar.

Foi um susto para a cúpula da TV Globo, que passa por profunda reformulação nos seus quadros, por economia e adaptação ao streaming, foco principal da emissora aberta, para não ficar na dependência da concessão de transmissão do governo federal.

E houve quem não acreditasse na recuperação de Galvão Bueno. Houve a, sério, a análise de quem estaria apto para substituir a voz oficial do esporte da Globo há 40 anos.

A popularidade dos outros narradores segue distante demais de Galvão Bueno, aos 71 anos

A popularidade dos outros narradores segue distante demais de Galvão Bueno, aos 71 anos

Divulgação

Três paulistas no páreo. Luis Roberto, 60 anos, acabou superando a concorrência com Cléber Machado, 59 anos, e o 'afilhado de Galvão', Gustavo Villani, 40 anos.

Só o carioca Galvão Bueno não se deu por vencido. Com o auxílio de fonoaudióloga, exercícios físicos, mudanças radicais na alimentação. Suas cordas vocais foram submetidas a um tratamento moderno de recuperação.

E aos poucos, ele foi se recuperado. E, muito inteligentemente, mudou seu estilo de narração. Assumiu de vez só o que é permitido a ele. Nada de acompanhar a bola, todos os inúmeros lances dispensáveis de uma partida. Galvão se tornou o primeiro narrador/comentarista da televisão brasileira. Ele conversa tanto quanto narra durante os 90 minutos. Sim, é o ego que prepondera. Com a transmissão de 11 Copas do Mundo, ele se julga capaz de prender o telespectador com suas opiniões. 

Mas 'não narrar' faz parte da estratégia para poupar suas cordas vocais.

A estratégia deu muito certo. Assim como seus exercícios físicos, o tratamento a laser, a mudança de alimentação e restrição aos tradicionais jantares após os programas de tevê, que varavam a madrugada, regados a vinhos caríssimos.

Galvão Bueno tratando de recuperar as cordas vocais, o fôlego, após o infarto

Galvão Bueno tratando de recuperar as cordas vocais, o fôlego, após o infarto

Reprodução/Instagram

Esperto, tratou de mergulhar, bem orientado, nas redes sociais. Acabou mostrando ser um fenômeno também para as novas gerações. Gostando ou odiando suas transmissões, suas opiniões, passou a ser seguido por mais de 1,9 milhão de pessoas.

Lá divulga os vinhos das uvas do Rio Grande do Sul e da Itália. Lógico que o nome tinha de ser Bueno Wines. Trocadilho do seu sobrenome, Bueno é bom em espanhol. E wines significa vinhos.

Além disso, decidiu dar um curso on line. Batizado de O Jogo de Comunicação. "Aprenda a desenvolver sua habilidade de comunicação para criar conexões com o público. Use a emoção, fale com clareza, objetividade, e venda suas ideias de modo eficiente com as técnicas de Galvão Bueno", diz a apresentação do curso.

Ele custa R$ 490,00. Dividido em parcelas de R$ 49,00. São dez aulas.

Também virou presença vip em jantares. Ou seja, ganha dinheiro para ir comer.

Virou presença 'vip' em jantares. É possível pagar para jantar com Galvão Bueno

Virou presença 'vip' em jantares. É possível pagar para jantar com Galvão Bueno

Divulgação

Além disso, está aproveitando como nenhum outro narrador o fato de a Globo permitir que ele faça propagandas. Compensação para a brutal queda no seu salário. De acordo com colunistas sociais, ele deixou de receber R$ 1 milhão por mês. Ganha R$ 500 mil.

Acaba de fazer propagandas dos chinelos Havainas, na abertura das Olimpíadas. Fez para o Serasa, Petrobras, Volkswagen, Gol. E segue recebendo ofertas.

A cúpula da Globo jamais colocou em dúvida sua popularidade.

E diante da recuperação de sua voz, decidiu colocá-lo na função de âncora/narrador/comentarista/inspirador de memes, na Olimpíada de Tóquio.

O resultado atingiu as metas plenamente. Estudioso, que sempre foi, sabe aproveitar os convidados especialistas de cada esporte nas mais diferentes competições.

Galvão Bueno está entusiasmado, revigorado.

A ponto de a Copa do Mundo do Catar, no ano que vem, não ser mais a certeza de sua aposentadoria.

Galvão Bueno ensinando a harmonizar presunto de R$ 7 mil com seu espumante

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Divulgação

A Olimpíada de Paris, que acontecerá 'apenas' daqui três anos, em 2024, já é uma grande possibilidade para o narrador. Ele fará 74 anos no torneio.

Luiz Felipe Scolari serve como exemplo para ele. O treinador campeão do mundo em 2002, segue trabalhando. Comandando o Grêmio.

E mesmo para a Globo, não há nenhum narrador que mobilize tanto patrocinadores como público que Galvão Bueno.

O esporte brasileiro pode quebrar recordes de conquistas de medalhas.

Mas a Olimpíada de Tóquio está ganha por Galvão Bueno.

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