“Se eu ganhei, se eu perdi, cem emoções eu vivi.” Abel, ironiza a bipolar atuação do Palmeiras. Seu time venceu, mas sofreu à toa
Após a vitória por 3 a 2 contra o fraquíssimo Sporting Central, Abel Ferreira não aceitou as fortes cobranças dos jornalistas. Ele buscou a ironia para explicar o caótico time, desorganizado, que colocou na estreia da Libertadores. Sofrimento tem explicação na improvisação
Cosme Rímoli|Do R7

“Futebol é isso.
“Se ganhei ou perdi, cem emoções eu vivi.”
Abel Ferreira sabia que seria cobrado na coletiva.
Ele alterou profundamente a estrutura tática do Palmeiras.
A testou na estreia da Libertadores, em Lima.
E complicou a partida contra o fraquíssimo Sporting Cristal.
Igualou o confronto de um elenco bilionário contra um time limitado.
A vitória do Palmeiras veio aos 46 minutos do segundo tempo, em uma cabeçada de Richard Ríos.
O 3 a 2 para o time brasileiro valeu pelos três pontos fora de casa.
Porque a experiência com três zagueiros, com improvisos de volantes como ala e como meia, foi um fracasso.
Abel usou um jogo da Libertadores para fazer testes profundos, que mais caberiam em treinos na Barra Funda.
Seu time ficou desconectado.
Exposto, principalmente, na entrada da área.
E sem rumo, na hora de atacar.
Apelando para quais recursos?
Dribles de Estêvão e cruzamentos, os mesmos utilizados desde o início do ano.
Com a grande diferença de o bipolar Palmeiras de hoje, não conseguir se defender.
O 3-4-3 foi anárquico, caótico, com os jogadores transpirando insegurança.
Tendo enormes dificuldades de um time humilde, armado, de forma ortodoxa, no 4-4-2, pelo argentino Guillermo Farré.
“Futebol é ganhar.
“Quantos jogos fizemos?
“18?
“Duas derrotas.
“Parece que está tudo mal, não é?
“Que está tudo em crise.”

Abel se defendia, não aceitava a cobrança do futebol decepcionante do Palmeiras.
Contundido, Raphael Veiga estava fora. Ele vive fase péssima. E seu empresário, André Cury, o está oferendo para a clubes da Europa, da Ásia, da América do Norte. Para quem se dispuser a gastar R$ 150 milhões por ele, o que não é nada fácil.
O treinador também não pôde escalar Maurício, que segue se recuperando de cirurgia no ombro direito.
Ele precisava de articulação para seus atacantes.
Está mais do que transparente que seu elenco só tem dois meias que ele confia.
Veiga e Maurício.
É uma falha inexplicável na montagem do elenco.
Rômulo foi emprestado para o Ceará, sem chances efetivas.
A saída de Abel foi mesmo fingir ser Roberto Carlos e apelar em muita emoção.
Com dois treinos, colocou seus três zagueiros.
No meio-campo, Lucas Evangelista, Martínez, Felipe Anderson e Piquerez.
Completamente desentrosados.
No ataque, desconectados, Estêvão, Vitor Roque e Facundo Torres.
3-4-3 é preciso compactação, recomposição, sintonia de movimentos.
E que levam meses, algumas vezes, quase temporadas inteiras para dar certo.
Em vez de estratégia revolucionária, o bipolar Palmeiras se aproximou de uma equipe peladeira.
Os espaços não estavam definidos.
Os atletas estavam distantes e dependentes de jogadas individuais.
E o detalhe maior estava na fragilidade técnica do Sporting Cristal, que apelava para a correria e esquema definido.

Abel Ferreira foi outra vez infeliz na coletiva.
Ele repassava claramente a culpa aos jogadores por seu time estar escancarado.
Tomando dois gols de fora da área, com Pretell e Tavara tendo tempo de ajeitarem o corpo e fuzilarem Weverton.
Mesmo com a superpopulação de volantes, os atletas do Sporting Cristal tiveram liberdade de chutar como quiseram.
Estêvão fez o primeiro gol do Palmeiras, em um rebote do goleiro Enríquez.
Piquerez marcou o segundo, de pênalti, desnecessário, de Sosa em Flaco López, que estava de costas para o gol.
E Richard Ríos marcou o gol da vitória, aos 46 minutos do segundo tempo.
O sofrimento palmeirense seria evitado se Abel tivesse mantido a estrutura tática que montou há anos.
Com quatro zagueiros, três volantes de movimentação, Felipe Anderson atuando mais à frente, com liberdade, e seus três atacantes.
Abel experimentou, testou.
Teve de consertar sua experiência mal fadada durante a partida.
O Sporting Cristal é um adversário tão fraco que ainda perdeu.
As falhas defensivas do time peruano são assustadoras.
O Palmeiras venceu, voltou a marcar gols depois de três partidas.
Conquistou três pontos.
Mas não há o que celebrar.
Há algo muito errado.

A fase de Abel Ferreira é fraca, sem repertório consistente.
E ele está cansado das coletivas, daí sua ironia, sua irritação.
Até Richard Ríos, autor do gol da vitória, sabia que viriam críticas, pelo futebol confuso, peladeiro, do Palmeiras.
“A gente vem trabalhando bastante, independente do resultado. Tivemos derrota no Paulistão e a estreia no Brasileirão não foi como queríamos. A gente trabalha até o último minuto e começamos com vitória. A gente está sempre unido, o Abel é nosso treinador e estaremos com ele até o final. Enquanto ele estiver aqui vamos trabalhar com ele. Somos uma equipe unida.”
União, o elenco pode ter.
Mas força tática, perdeu.
Roberto Carlos não gostaria das emoções que esse Palmeiras transmite...