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Mortes de torcedores só vão parar se a Polícia Civil agir

O  Brasil precisa seguir o exemplo da Inglaterra e infiltrar soldados nas organizadas. Só assim, mortes como a de Leonardo serão evitadas

Cosme Rímoli|Do R7 e Cosme Rímoli

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O Ministério Público determinou.

Guarani e Ponte Preta teria, a partir de ontem, torcida única.


Pela primeira vez, em 106 anos.

Acreditou ter encontrado a fórmula mágica da paz.


A Polícia Militar de Campinas não tem capacidade para conter as violentas organizadas dos dois clubes rivais da cidade. Assim como acontece na Capital, soldados se responsabilizam mais pelo ódio intenso que domina vândalos, criminosos, infitrados nas torcidas.

Mais de 300 homens foram destacados para trabalharem no Brinco da Princesa. As principais vias até o estádio estariam vigiadas, para evitar tocaias.


E assim, a cidade estaria tranquila.

Só os ingênuos acreditaram nessa falsa calma.


Tivesse a Polícia Civil o mínimo interesse, tolerância zero com os violentos criminosos que desfrutam das organizadas, não haveria mais uma morte estúpida, que usa o futebol como desculpa.

Bastasse o comando da Polícia Civil se der ao trabalho de entender as providências da Inglaterra para acabar com os hoolingans, Leonardo Bernardes, de 18 anos, estaria vivo.

Basta policiais civis se infiltrarem, disfarçados nas organizadas, que eles ficarão sabendo das ações criminosas arquitetadas. E nem precisa ser um espião eficiente. Os vândalos gostam de propagar as barbaridades que vão fazer. Basta acompanhar de perto os líderes e suas redes sociais.

O plano de ontem foi violento e básico. Alguns vândalos da torcida da Ponte Preta se sentiam na obrigação de dar o troco nos criminosos que convivem nas organizadas do Guarani. Isso porque na venda dos ingressos para o derby, alguns pontepretanos decidiram bater em bugrinos. De forma aleatória, tentaram espancar alguns rivais. Só que se saíram mal. Membros das organizadas do Guarani previram o ataque. E, em maior número, espancaram os rivais.

Como é de costume, o troco seria dado.

Como o policiamento seria muito forte na hora da partida, 19 horas, o melhor seria agir bem antes do jogo. E às 11 horas, como em um filme de terror, cerca de 100 vândalos foram, armados de pedras e paus, até o bairro de São Bernardo, a cinco quilômetros do Brinco da Princesa. Território livre de policiais.

Eles queriam espancar um membro da diretoria da Torcida Organizada Fúria Independente do Guarani. Sabiam que ele morava na rua Alagoas. Estavam dispostos a invadir a casa desse rival, bater nele. E quebrar toda sua residência. 

Seria o troco. No dia 7 de abril, o Guarani foi campeão da A2 e garantiu a volta à elite do futebol paulista em 2019. A comemoração para alguns criminosos foi invadir a sede da Torcida Jovem da Ponte Preta. E arrebentar tudo o que viram pela frente.

Qualquer policial infiltrado na Jovem saberia que alguns vândalos arquitetavam a revanche. Eles ficaram à vontade. E sonhavam com uma vingança caprichada.

Só que ao chegarem à rua Alagoas, a reação foi muito além do que esperavam.

Membros das organizadas do Guarani souberam o que aconteceriam.

E, de acordo com a polícia de Campinas, receberam os pontepretanos à bala.

Para evitar a agressão, tiros foram dados em direção aos rivais.

Um atingiu em cheio as costas de Leonardo Daniel Bernardes Silva.

Com apenas 18 anos, ele foi ferido mortalmente.

Familiares disseram que não trabalhava e sonhava em ser jogador de futebol. Enquanto isso não acontecia, se tornou um membro ativo da torcida Jovem, indo acompanhar a Ponte Preta em quase todos os jogos, inclusive fora de Campinas.

Companheiros de torcida o colocaram em um carro e rumaram, desesperados, ao Hospital Ouro Verde. Médicos constataram que ele havia chegado sem vida.

Sua última postagem no facebook, na manhã de ontem, foi direta. 

"Dia de Derby vai ser assim, se eu tromba galinha vai ser o seu fimm #MtoBomdiaa #Deixaosmeninobrinca".

Torcedores do Guarani quando souberam da morte e da postagem, entraram na página do facebook de Leonardo e passaram a ofendê-lo. Mensagens de ódio diziam, em resumo, que ele teve o que mereceu.

A versão, os detalhes da morte são da Polícia Militar de Campinas que, inclusive, já garante ter um suspeito pelo tiro fatal. Ele estaria ligado ao diretor da torcida Fúria Independente, que teria a casa depredada e seria espancado.

O enterro de Leonardo Bernardes será no Cemitério dos Amarais, no Jardim Santa Mônica, em Campinas. A torcida Jovem dará assistência financeira ao sepultamento. 

Conhecendo a lógica dos vândalos das organizadas não é difícil prever que eles organizarão o troco. E os criminosos bugrinos estão preparados. Se a Polícia Civil de Campinas se der ao trabalho de infiltrar soldados nas torcidas de Ponte Preta e Guarani, com certeza, evitará novas mortes. Caso cruze os braços, nova tragédia já tem até data para acontecer.

Leonardo sonhava ser jogador
Leonardo sonhava ser jogador

Sábado, dia 25 de agosto.

Dia para a revanche, quando a Ponte Preta receberá, apenas com sua torcida, o Guarani, no returno do Campeonato Brasileiro da Série B.

Está na hora da Polícia Civil trabalhar ao lado da Polícia Militar.

Não adianta apenas remediar.

Lamentar, enterrar os mortos, e tentar prender os assassinos.

Esses crimes são evitáveis.

Basta ter vontade política.

E trabalhar.

Os vândalos das organizadas são violentos e perderam os limites.

Mas absolutamente previsíveis...

"Na minha época como chefe de torcida, a gente brigava, sim. Mas tinha limites. A gente batia, dava surra. Mas era só isso. Agora, não. Tudo está muito mais violento. Há sede de morte. As brigas são para matar. E os chefes de torcida perderam o controle das organizadas. É muita gente. Sede, várias subsedes independentes. A coisa está muito feia."

Palavras de Moacir Bianchi, ex-presidente da Mancha Verde, assassinado em março do ano passado, por brigas com novas lideranças na principal torcida organizada palmeirense.

Infelizmente, você estava certo Moacir.

E as autoridades fazem de conta que não enxergam...

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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