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Opinião: Manifesto a Chico Buarque

Em tempos de Copa do Mundo, Brasil está sentindo falta da inspiração dos festivais na Record

Copa do Mundo 2014|Eugenio Goussinsky, do R7

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Chico Buarque já deu muito olé na censura, em tempos mais difíceis
Chico Buarque já deu muito olé na censura, em tempos mais difíceis

No ímpeto por manifestações que se espalhou pelo Brasil, um toque de poesia está fazendo falta. Um escritor inglês, Percy Shelley, certa vez disse que os poetas são os melhores legisladores. Eu aposto que eles seriam os melhores manifestantes. Como já foram em outras épocas no país.

Toda a poesia que acompanha a seleção está sendo desconsiderada nesta história de manifestação distorcida. Claro, se trata, compreensivelmente, da “gente sofrida tentando se despedir da dor.” Gente sofrida? É isso, Chico Buarque! O Brasil em transição está precisando de um poeta como Chico Buarque. Ou do próprio. Mas onde está Chico Buarque?


O momento agora também pede sabedoria. Vive-se uma ditadura da corrupção. Por outro lado, sobra a tirania da falta de ideias. A revolta manifestada por Chico contra a ditadura militar era a melhor resposta, em forma de canto e de encanto. As revoltas de hoje não têm melodia, falta harmonia, são secas, odiosas, órfãs de presença de espírito e de criatividade.

Já não se fazem, ou melhor, criam, manifestações como antes. Não é saudosismo. É que não se pode perder o idealismo. Odes à vida surgiram no Brasil enquanto o sangue de muitos inocentes foi derramado por campos e cidades afora. Época muito mais dura, sem liberdade. E Chico, um dos grandes apaixonados por futebol, nunca meteu o esporte na seara.


Manifestava-se como um craque, driblando a censura, dando olé na ditadura, fazendo o povo cantar sua música com a mesma paixão com que entoava um grito de gol da seleção. E não se envergonhava em dizer, salve a seleção!

Nos últimos anos, e bota ano, o ímpeto do artista arrefeceu. Por quê? Talvez, porque, sob a pressão da censura, a criação flui de modo mais natural, como um rio que sente a necessidade de desaguar no mar. O mar hoje se poluiu e Chico parece ter ficado sem ter para onde desaguar. A alma que não podia se calar, ficou sem opção, se inibiu.


Já não vivemos o tipo de censura cruel. A liberdade de agora, apesar de ainda poluída, é um ganho real, mas ainda pende para a intolerância e a truculência. É preciso de um tempo, que artistas como Chico poderiam ajudar a acelerar, justamente por estarem acima dele. A mensagem de todo o seu repertório é atual, imortal, mas é um vento de esperança soprado do fundo da memória. Revitalizá-lo é preciso.

Geni do momento


Gostaria que, neste período crucial, Chico Buarque falasse sobre a Copa do Mundo, a Geni da moda. Que até fizesse uma composição sobre ela, falando de algo bonito, como uma dançarina esquecida, de beleza oculta, tentando chamar a atenção na avenida. A Copa é um sonho acalentado no Brasil até pela militância nos anos 60 e agora tem gente que quer torná-lo um pesadelo só porque vive um pesadelo.

É legítimo e necessário sair deste pesadelo, mas destruir as belezas que o país construiu só vai atrapalhar. Deste jeito, sugado pela liberdade, santa liberdade, que ele ajudou a implantar, até Chico Buarque está perdendo a voz em meio aos urros irracionais que ecoam “nas escolas, nas ruas, campos, construções.”

Às vésperas de completar 70 anos, Chico Buarque nem vai assistir à Copa no Brasil. Por ironia, justamente quando poderia, este fã da seleção e do Flu, apreciador de “peladas” em sua casa no Rio, irá se exilar por um tempo em Paris. Bem na hora em que o Brasil recebe o evento que mais o apaixona! No instante máximo de integração popular: simplesmente, uma Copa do Mundo!

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Mas Chico Buarque não vai estar aqui. Parece ter se rendido a uma realidade que teima em se desenhar como ela não é, sem sonho, sem respeito. Sem nem mesmo “caminhar contra o vento, sem lenço, sem documento.” Aliás, se alguém fizesse isso hoje, poderia ser baleado por um policial, sem nem poder se defender com um argumento: alegria, alegria!

No longínquo 1967, no Teatro Record, berço da liberdade, que fez história ao sediar os Festivais de Música Popular Brasileira, a composição A Banda, de Chico, foi a vencedora. Ele, porém, não aceitou subir ao palco sem dividir o primeiro lugar com Disparada, de Geraldo Vandré e Théo de Barros, cantada pela voz radiante de Jair Rodrigues. Chico bateu o pé, e continuou batendo por anos, até se cansar.

Talvez seja importante o Brasil beber da fonte da nostalgia para redirecionar seu futuro, neste contexto de turbulência. A banda já começa a fazer seus acordes ressoarem na vizinhança. O país precisa de inspiração, de um facho de luz para aplacar sua ira. Para mudar para melhor. O Brasil está se transformando, mas a ternura sempre é bem-vinda.

Ainda vivem por aqui a namorada, o faroleiro, o homem sério, a moça triste, a rosa triste. A democracia funciona muito melhor com música. Por favor, diga alguma coisa, Chico. Não deixe de falar para todos estes personagens, que também são seus, junto com o pedreiro, o sindicalista, o estudante, o agricultor, o desempregado, o desassistido, quando for tarde demais.

A pergunta de Drummond ameaça: E agora, Brasil? A Copa passou, você ficou, o Jair se foi. Rápido. O país em ódio vai ver a banda, ou melhor, a Copa passar. E depois vamos nos arrepender de não termos cantado coisas de amor. Onde está você, Chico Buarque?

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