Opinião: Holanda apresenta o estilo "Flechas e Parábolas"
Sistema é uma novidade mortífera, feita de lançamentos longos e penetrações agudas
Copa do Mundo 2014|Eugenio Goussinsky, do R7
A vitória da Holanda sobre a Espanha, na estreia das duas seleções na Copa do Mundo de 2014, não precisaria ser denominada como jogo. Mas como avalanche. O desempenho técnico e tático dos holandeses é mais um desafio a ser superado na cronologia do futebol.
A cada Copa, o mundo esportivo espera ver novidades no mural das inovações. Quando elas parecem não ocorrer vem logo a conclusão, a maioria das vezes injusta, de que nada muda há tempos. E, mesmo que muitas delas se insinuem em uma época para se apresentar inteiramente na seguinte, o decreto costuma ser impiedoso.
— Esta Copa foi horrível, o futebol está estagnado.
Pois bem, a Holanda de hoje nasceu em 2010. E neste ciclo evolutivo da bola, mesmo que seja por uma partida, já que tudo pode acontecer, uma coisa fica registrada para a história. Esboço ou não, a Holanda voltou. Voltou a encantar com um jeito “monstruoso” de jogar futebol.
Numa mescla de estilo, dos anos 70 e 90, a Holanda surgiu com o modelo “Flechas e Parábolas”. Um sistema mortífero, recheado de lançamentos longos e penetrações agudas dos velozes Robben e Van Persie.
Em 1974, a Holanda demoliu o Uruguai, em Hannover, emplacando 2 x 0 sobre uma equipe que tinha mitos como Pedro Rocha., Fernando Morena e Julio Montero. Das tribunas, o observador Paulo Amaral, trabalhando para o técnico Zagallo, deixou papel e caneta de lado, porque se perdeu nas anotações sobre a movimentação dos jogadores. “Vou deixar rolar para ver no que dá”, sentenciou.
Após chocolate, Van Persie vira super-herói da Holanda
Enquanto isso, o time conhecido como Laranja Mecânica, cuja criatividade nada tem a ver com o ambiente cruel e pervertido do filme de Stanley Kubrick, parecia se multiplicar em campo. Cruyff ia para a lateral. Rep recuava para o meio-campo. Neskeens voltava e de repente aparecia na ponta-esquerda. Parecia uma equipe de ilusionismo a desafiar retinas e conceitos.
A Holanda atual mostrou uma fagulha criativa semelhante. Foi até mais incisiva do que a de 1974 porque não deu brechas para a Espanha criar, a partir de metade do primeiro tempo. Na partida entre Brasil e Holanda, por exemplo, a seleção brasileira teve oportunidades, poderia até ter saído com outro resultado que não a derrota por 2 x 0. Nesta sexta (13), porém, Diego Costa parecia um passarinho perdido em meio a falcões.
E se, na base do tike-taka, a Espanha tinha, até há pouco tempo, um carrossel que lembrava o da seleção holandesa de outrora, este foi engolido pela de agora. Pode até se recuperar. Mas neste momento o time de Van Gaal, um Rinus Mitchel incisivo a despontar no horizonte laranja, mostrou que o futebol evoluiu a passos rápidos de 2010 até agora.
Ou melhor, em jogadas rápidas. A Holanda de Van Gaal guarda mais posição no meio-campo e no ataque. Seus jogadores não correm tanto como os de Rinus Mitchell nestes setores. O time tem uma defesa sólida, com três zagueiros. No meio, com De Guzman, Sneijder e até o marcador De Jong, fazem a bola rolar.
E, ao estilo de Daley Blind, botam ela para flutuar, na base de lançamentos mortíferos, que também caracterizam o futebol holandês desde os tempos de Ronald Koeman e Frank de Boer. Para concluir, em ritmo alucinante, Robben e Van Persie desestabilizaram por completo os experientes Sergio Ramos e Gerard Piqué.
A Copa do Mundo de 2014 veio para mostrar que, aquele que souber introduzir técnica a um esquema que dê velocidade do jogo, se impõe, seja ele qual for a tática. Nesta Copa, a Laranja Mecânica completa 40 anos. Mas a Holanda atual pode mostrar que, neste momento, carrossel no futebol é apenas coisa para criança.



