Opinião: Brasil vence o jogo muito mais ao estilo Parreira do que Felipão
Partida foi um bom teste; Sérvia lembrou as seleções soviéticas e do leste europeu nos anos 80
Copa do Mundo 2014|Eugenio Goussinsky, do R7

Poucos testes do Brasil, antes de estreias em Copas do Mundo, tiveram um adversário tão eficiente e competitivo quanto a Sérvia nesta sexta (6). A equipe comandada pelo ex-jogador Drulovic entrou em campo ciente da repercussão do amistoso e disposta a divulgar uma imagem positiva para o mundo.
A seleção brasileira venceu com méritos, por 1 a 0, e poderá aproveitar o amistoso para corrigir alguns erros de posicionamento defensivo e criar alternativas para superar marcações cerradas, que serão muito frequentes no Mundial.
O maior dilema de Felipão agora é encontrar uma maneira de compactar mais o meio-de-campo. Os atacantes brasileiros encontraram dificuldades para abrir brechas porque não conseguiam tabelar com os meias, que deveriam vir de trás com a bola dominada.
Alvo de críticas, Ronaldo responde: ‘Na Copa eu torço, manifesto na eleição’
Foi uma prova interessante antes da estreia brasileira contra a Croácia na próxima quinta (12). A Sérvia, ainda mais do que os croatas, cuja maior qualidade é o toque de bola, apresentou um sistema de marcação implacável, ao estilo das seleções do leste europeu nos anos 70 e 80 e a União Soviética de Valery Lobanovsky, em 1982 e 1986. Montou um esquema 4-5-1, no qual até os volantes Luiz Gustavo e Paulinho, mais ofensivo, não encontravam espaço para sair jogando.
Tendo disputado competições internacionais pela extinta Iugoslávia, o técnico sérvio, Drulovic, mostrou conhecimento tático e, assim como a França na final de 1998, armou a equipe bloqueando principalmente pelas laterais do campo. Neymar, pela esquerda, e Hulk, pela direita, ficaram praticamente sem ação no primeiro tempo.
Assim que recebiam a bola, quando recebiam, se viam cercados pelos laterais Basta e Kolarov, respectivamente, além de terem de encarar a cobertura de Jojic e Mirkovic nas raras vezes que se desvencilhavam dos seus "perseguidores".
É verdade que, em vários momentos, Petrovic e Matic abusaram das jogadas ríspidas, principalmente em cima de Neymar. Mas o time brasileiro, sufocado por esta teia defensiva, não ficou nada à vontade para criar. Assim, em vez de, apoiado pela torcida paulista no início, implantar uma variação de jogadas em cima dos sérvios, a seleção se viu acuada em alguns momentos, tendo que segurar investidas adversárias nas costas de Daniel Alves e Marcelo, principalmente.
No segundo tempo, Felipão trocou Oscar por Willian para dar mais mobilidade ao meio-campo e auxiliar Neymar nas avançadas pela esquerda. Mas a situação não mudou muito, até, em uma jogada individual, Fred fazer 1 a 0, após receber lançamento de Thiago Silva.
Ele recebeu nas costas de Ivanovic, dominou a bola com categoria e, mesmo escorregando, finalizou com firmeza, demonstrando técnica e oportunismo. Apesar de não aparecer muito no jogo, Fred teve função importante.
Em meio a uma floresta de zagueiros, o centroavante do Brasil segurou os avanços de Ivanovic, que, como lateral do Chelsea, sempre mostrou ímpeto ofensivo e poderia causar mais problemas aos sobrecarregados David Luiz e Thiago Silva.
A partir do gol, a seleção brasileira conseguiu assumir o comando da partida, com os jogadores do meio-campo se aproximando mais. Neymar também flutuou mais pelo ataque. Com toques mais rápidos, o Brasil passou a criar mais.
As substituições de Felipão também deram mais fôlego ao time e permitiram uma melhor movimentação de Hulk. Maicon, com sua velocidade, superou a marcação do cansado Kolarov e ainda impedia avançadas às suas costas.
Nem por isso a Sérvia desistiu. Pelo contrário. Se por um lado afrouxou a marcação, por outro apresentou seu repertório criativo, com Markovic se movimentando e causando problemas para a defesa do Brasil, principalmente em jogadas pelas beiradas do campo. Jojic cabeceou uma bola na trave. Matic, vinha de trás, mostrava visão de jogo.
O Brasil, no entanto, adotou o velho estilo de Carlos Alberto Parreira, atual coordenador da seleção. Procurou não correr riscos, girou mais a bola, com paciência, até encontrar espaços. Ou seja, fez o que Felipão queria desde o início e deixou o campo aliviado com o resultado. Já torcida presente ao Morumbi, que, como sempre, vaiou o próprio time, mostrando incompreensão com a importância do momento, fez a vitória do Brasil ser ainda mais louvável. Afinal, além do adversário difícil, a seleção novamente jogou fora de casa.



