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Presidente da CBFA promete mudanças em busca de vaga olímpica: ‘Temos que fazer um trabalho muito maior’

Em entrevista ao Jarda por Jarda, Cris Kaji fala em hegemonia sul-americana e destaca esforços para conquistar o mundo

Jarda por Jarda|Lucas FerreiraOpens in new window

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Cris Kaji, presidente da CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano) Divulgação/CBFA

A presidente da CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano), Cris Kaji, afirmou que as seleções de flag football do Brasil devem passar por modificações no corpo técnico após o Mundial de Dusseldorf, na Alemanha. Tanto o selecionado feminino quanto o masculino voltaram para o Brasil sem vitórias em campo, restando apenas o triunfo por WO contra a Nigéria, que não viajou para a Europa.

Em entrevista exclusiva ao Jarda por Jarda, Kaji defendeu que o nível das competições cresceu após a inclusão no programa olímpico e que o Brasil precisa performar melhor para ter chance de carimbar o passaporte para Los Angeles-2028.


“A gente pode ver um crescimento, um amadurecimento, pelo menos de estrutura, que a gente conseguiu trazer para os nossos atletas e treinadores, mas a gente sabe que, de nível técnico, a gente precisa fazer um trabalho ainda muito maior. Já se preparando para o continental e possivelmente o qualify, temos que fazer um trabalho muito maior e melhor para conseguir alcançar o nível das potências mundiais.”

Leia abaixo a entrevista com Cris Kaji:

Cris Kaji, presidente da CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano) Divulgação/CBFA

Jarda por Jarda — A gente teve o Mundial há poucas semanas, com apenas duas vitórias, que foram vitórias por WO. Queria que você avaliasse, primeiramente, o que foi o mundial para você e o que achou do desempenho do Brasil em campo.


Cris Kaji — É o primeiro mundial dentro do ciclo olímpico, então a gente imaginava que o nível técnico ia subir bastante. Para nós, do Brasil, foi o primeiro em que a gente conseguiu viajar com tudo pago. Todos os outros mundiais até então, principalmente o último da Finlândia, a gente sempre viajou com o nosso próprio recurso, os atletas, os treinadores, pagando suas próprias despesas, porque a gente não tinha o apoio do Comitê Olímpico [Brasileiro] nem de grandes patrocinadores. Era muito, muito individual o esforço, não só aquele dentro de campo, mas também o extra-campo.

Como existiu um torneio classificatório, a gente imaginou que seriam os melhores, mais restrito. Antigamente, os mundiais eram abertos para todos os países que queriam participar, não tinha quantidade mínima de equipes. A gente sabia que o nível ia aumentar bastante.


Acho que [a participação] foi dentro das nossas expectativas, a gente sabia que ia ser um mundial muito difícil com as melhores equipes de todos os continentes. A gente esperava ter algumas vitórias, sim, porque a gente conseguiu até ter alguns placares ali quase que parelhos, como no feminino contra o Panamá, no masculino contra o México, com alternância de placares. Foi muito bom pra gente ver que realmente tá todo mundo muito antenado.

Em um resumo disso, a gente pode ver um crescimento, um amadurecimento, pelo menos de estrutura, que a gente conseguiu trazer para os nossos atletas e treinadores, mas a gente sabe que, de nível técnico, a gente precisa fazer um trabalho ainda muito maior. Já se preparando para o continental e possivelmente o qualify, temos que fazer um trabalho muito maior e melhor para conseguir alcançar o nível das potências mundiais.


Seleção feminina de flag football do Brasil durante o mundial da modalidade, em Dusseldorf, na Alemanha Divulgação/CBFA

JJ — O flag se tornou um esporte olímpico. Esse fator também atraiu novas seleções, como, por exemplo, a Samoa Americana, que venceu um Estados Unidos que não perdia há anos no flag football masculino. Na sua opinião, o Brasil conseguiu avançar junto com essas outras seleções?

CK — Acho que, de certa forma, sim, porque a gente conseguiu sair um pouco do que a gente sempre fazia. A nossa seleção não é permanente. Então, são diversos atletas de várias partes do Brasil que se encontram de dois em dois meses, mais ou menos, aqui nos treinos de campo. Esse ano a gente conseguiu fazer um preparatório no México, então a gente conseguiu levar nossas seleções para fora para fazer um intercâmbio, só que a gente precisa fazer mais isso.

Percebemos que vamos precisar dar um salto a mais, colocar mais treinos durante o ano, de repente tentar colocar os atletas aqui em São Paulo e em algum centro de treinamento para que eles tenham mais entrosamento e mais vivência. E a gente viu que agora os países vão investir muito para realmente conseguir essas vagas [olímpicas].

Conseguimos avançar. A própria seleção masculina estava em, acho que, 25º lugar no último mundial. A gente conseguiu o 14º, não era o que a gente queria, a gente tinha a meta de ficar entre os dez melhores, mas assim, não conseguimos, infelizmente, mas acho que deu para ver a evolução.

A gente conseguiu jogar de algum modo de igual para igual, principalmente com o México, com algumas outras seleções, até a própria Alemanha também, jogar de igual para igual para tentar pontuar.

Vimos que o flag é muito, muito mais dinâmico até que o futebol americano. Na NFL, dependendo dos placares, você ainda consegue correr atrás, mas o flag, por ser um jogo mais rápido, de repente, se o seu ataque não consegue pontuar e a tua defesa não segurar, você já abre duas posses e aí depois é difícil demais você conseguir reverter. Então, às vezes, até um extra point também faz muita diferença.

Seleção masculina de flag football do Brasil durante o mundial da modalidade, em Dusseldorf, na Alemanha Divulgação/CBFA

JJ — Cris, você foi ao mundial em Dusseldorf, imagino que você tenha conversado com outros dirigentes. O que você pôde absorver da preparação, de protocolos, de outras seleções um nível acima do Brasil?

CK — A gente tem se espelhado muito na seleção do México, até por conta da própria cultura, que é um pouco mais parecida até com a nossa. Eles estão sempre lutando junto aos grandes, sempre estão nas finais ou disputa de terceiro, quarto lugar. Então a gente sabe que a gente quer chegar próximo a eles.

Até eles próprios fizeram intercâmbios com alguns países da Europa esse ano, então a gente tá tentando espelhar isso. Conversando também com a equipe do Canadá, vimos que parece que a equipe feminina do Canadá estava treinando três vezes por semana.

Em países menores, por exemplo, como a Áustria, se torna muito mais fácil eles estarem juntos muito mais vezes. Então, a gente tá pensando em como contornar essa dificuldade que a gente tem por ser um país continental.

JJ — A IFAF (sigla em inglês para Federação Internacional de Futebol Americano) estabeleceu um continental ano que vem, que vai classificar para um pré-olímpico em 2028. O que você e os treinadores das seleções, tanto masculina quanto feminina, discutiram para tentar ajustar em busca dessa vaga olímpica?

CK — Vamos fazer algumas reestruturações internas. Acho que a gente vai mexer algumas peças aqui das comissões técnicas, onde a gente viu que, de repente, não está ainda rendendo adequadamente. Então a gente vai fazer algumas reuniões agora nesses próximos dias. Eu tenho alguns treinadores que ainda não voltaram da Europa, que estenderam um pouquinho a viagem, mas acredito que até início de setembro a gente já consiga remanejar todas as peças dentro da comissão técnica.

A gente pretende trazer alguns reforços. Na nossa comissão técnica, temos treinadores mexicanos, americanos, e eles trouxeram uma visão bem bacana de jogo diferente, incorporando-a com os nossos treinadores, que entendem toda a cultura da nossa realidade, também do Brasil.

Sabemos que precisamos estar competindo em alto nível, então a gente quer fazer esses intercâmbios e buscar torneios internacionais onde a gente consiga se testar mais vezes, buscando essa vaga [olímpica]. A gente sabe que o Continental vai ser muito importante.

Tivemos, principalmente no feminino, uma grande sorte de conseguir que México e Canadá já se classificassem pelo mundial. Então, teoricamente, dentro das Américas, no feminino, a gente consegue disputar, acho que fácil, não facilmente, mas assim, de repente, junto com o Panamá, a gente conseguiria as duas vagas das Américas para disputar os qualifiers de 2028. No masculino, um pouco mais difícil, que tem México, Panamá e Brasil disputando duas vagas.

Seleção feminina de flag do Brasil durante procedimento de verificação de flags no mundial da modalidade, em Dusseldorf, na Alemanha Divulgação/CBFA

JJ — Desde que você voltou lá da Alemanha, já houve alguma conversa com o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) sobre o que eles podem ajudar mais nesse processo das seleções brasileiras de flag?

CK — Nós estávamos com a nossa gestora esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro lá in loco. Então, ela conseguiu acompanhar todo o mundial. Pela primeira vez ela esteve conosco, então ela conseguiu ver o formato dos torneios de flag, o nível das seleções pioneiras — as melhores seleções dentro do mundo. Ela conseguiu ver que a gente está ainda em um patamar abaixo das grandes, mas viu todo o potencial do nosso trabalho, dos nossos treinadores e atletas.

Agora, de agosto ao início de outubro, é o momento em que todas as modalidades olímpicas têm para mostrar ao COB o que a gente quer fazer no próximo ano, então veio bem a calhar a Sandra [Kawasaki], nossa gestora, ver tudo que aconteceu no Mundial e tudo que a gente tem de potencial de crescimento.

Temos essa abertura dentro do COB. Com um orçamento X, a gente quer fazer isso, isso e aquilo. Eles sempre são muito abertos, pedem para que a gente mostre, por exemplo, o plano A, B e C — o melhor dos mundos dos orçamentos para desenvolver a nossa seleção.

Mas agora está cada vez mais fácil de mostrar potencial. Já dentro do próprio Comitê Olímpico, a gente conseguiu participar dos Jogos da Juventude com o nosso sub-17 e conseguimos trazer a medalha de ouro. Tivemos também o Sul-Americano Adulto. Então, assim, querendo ou não, a gente mostra que, de alguma forma, dentro da América do Sul, a gente é referência, e agora a gente precisa alcançar os próximos passos para se tornar uma referência mundial.

JJ — A Gabi Bank, talvez a atleta mais conhecida da seleção brasileira, disse que chegar já não é mais o suficiente. Obviamente, o objetivo das seleções é um ouro em Los Angeles, mas como chegar até este objetivo? Como trilhar esse caminho? Como tornar essa hegemonia sul-americana em uma hegemonia americana e, no futuro, em mundial?

CK — Conversei muito com os atletas, a gente precisava ter esse canal aberto da CBFA com eles, ouvi-los um pouco mais sobre opiniões e ideias. Muitas dessas mudanças que a gente vai fazer agora na estrutura de treinamento e comissão técnica vão ser para dar esse passo.

JJ — Cris, espaço aberto para você falar com o leitor do Jarda por Jarda.

CK — O futebol americano e o flag hoje em dia têm crescido cada vez mais aqui no Brasil. Muita gente começa a acompanhar a NFL, que é a liga americana, e saibam que nós temos aqui também, principalmente hoje, campeonatos nacionais, temos as nossas seleções brasileiras. É um esporte que está ganhando espaço.

Acho que, hoje em dia, o público, as crianças, adolescentes já têm dificuldade maior para, de repente, gostarem de algum esporte. Acho que é um [esporte] que vem com bastante força, porque acaba sendo inclusivo, não tendo um estereótipo como outras modalidades, do alto, ou ter alguma habilidade específica. Dentro do futebol americano ou do flag, várias características físicas podem trabalhar juntas e estar no mesmo time, então acaba sendo um esporte muito inclusivo.

O futebol americano tinha uma dificuldade de crescimento aqui no Brasil, que era o custo dos equipamentos, que são aqueles que a gente vê na TV: tem o capacete, a ombreira. Enfim, o flag vem com esse mesmo objetivo, que é marcar o touchdown, avançar territórios, mas sem ter esse custo dos equipamentos de proteção.

Torcer muito para que o flag futebol vire, de repente, nosso próximo skate, nossa próxima modalidade queridinha das Olimpíadas. Que a gente consiga ultrapassar todas essas bolhas e alcançar o maior número de pessoas para que torçam pela nossa seleção, que queiram praticar o flag football. Acho que é uma modalidade apaixonante e tem tudo para virar uma febre aqui no Brasil.

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