Tiago Nunes segue caminho que derrubou Carille do Corinthians

Treinador repassa aos jogadores os fracassos, principalmente os mais humildes. Não acerta o time. E ironiza, desvaloriza as cobranças da imprensa

Tiago Nunes repassa aos jogadores as derrotas. Não é postura de comandante

Tiago Nunes repassa aos jogadores as derrotas. Não é postura de comandante

Reprodução/Twitter

São Paulo, Brasil

Tiago Nunes está tomando um caminho perigoso no Corinthians.

E que já foi trilhado, de maneira desastrosa, por Fábio Carille.

Não na primeira passagem do ex-auxiliar, na qual chegou até o título brasileiro e na conquista do tricampeonato paulista, contando com o apoio incondicional dos jogadores.

Mas na segunda, a do ano passado.

Nunes, pressionado pelo fracasso precoce na Libertadores, e da incapacidade de o seu time vencer fora do Itaquerão, com direito à derrota para o humilde Água Santa, no sábado, está seguindo a cartilha que derrubou Carille em 2019.

Depois de revelada a adoção de medidas rígidas na concentração, aprendida nos tempos do Athletico Paranaense, de Mario Celso Petraglia, ele opta por repassar a culpa de fracassos aos jogadores.

Diz que faltou 'malandragem' do time na derrota para o Água Santa.

Com a frase, ele resume que os atletas estavam orientados taticamente, sabiam o que deveriam fazer, mas por 'ingenuidade' entregaram a vitória ao frágil adversário.

Esse é um caminho perigoso.

Comandante que não assume a situação quando ela é negativa.

Tiago Nunes já foi vaiado, quando seu nome foi anunciado em Diadema, antes mesmo do jogo.

Depois da partida, para se preservar, por não começar o jogo com Pedrinho, ele revela publicamente que o meia é o que menos corre, o que menos se movimenta do meio para a frente no seu time.

"Ele tem que se condicionar melhor ao tipo de jogo também. A distância que ele corre é menor em relação aos demais. (...) Ele é um jogador que tem que se complementar com os demais", revela, sem o menor cuidado.

Repassa, como fez Carille, a culpa dos fracassos iniciais do ano ao menos experiente. O que já se mostrou ser péssimo para o ambiente.

Se ataca Pedrinho, defende de maneira absoluta, a contratação mais cara do time, indicada por ele: Luan.

"Luan é o jogador que mais toca na equipe junto com o Cantillo. Ele deu muita circulação de bola. Às vezes prende demais e perde a bola. Ele é um cara de movimento, de pedir a bola, de dar ritmo, ele precisa de acompanhamentos que potencialize. Espero que ele consiga ser esse jogador.

"Eu quero pontuar que ele é um jogador que se tem uma expectativa que ele resolva tudo a cada partida."

Traduzindo a declaração do técnico: Luan precisa de companheiros que façam o seu jogo render mais. E Tiago Nunes acredita que a imprensa e a torcida considerem o meia-atacante uma mistura de Messi e Cristiano Ronaldo, que "resolva tudo a cada partida", o que é algo bizarro.

Aliás, Tiago Nunes também com Fábio Carille, decidiu atacar a imprensa, ao ver reveladas suas medidas de comportamento na concentração corintiana.

Comparou a divulgação e as críticas que recebeu pelos exageros, com ironia, atacando a revelação.

"Eu tratei isso tudo com muito bom humor. Para mim parecia algo de programa de humor", disse pelo assunto ter se tornado público.

Mas não tem ninguém rindo no Corinthians.

Ele se esquece que no Athletico, ele tinha o respaldo de Petraglia para atacar e até nem dar satisfação para os jornalistas. O clube paranaense age com agressividade, ironia ou silênncio quando é questionado.

Expor Pedrinho foi fácil para Tiago Nunes. Assim como defender Luan

Expor Pedrinho foi fácil para Tiago Nunes. Assim como defender Luan

Reprodução/Twitter

No Parque São Jorge as coisa são bem diferentes.

A cobrança é muito maior.

E exige democracia, com os atos dos treinadores e dos dirigentes explicados para a maior torcida do estado mais rico do país. É um clube bicampeão do mundo.

Tiago foi contratado para mudar o Corinthians.

Mas dentro do campo.

Torná-lo ofensivo, espantando o futebol acovardado da segunda passagem de Carille, em 2019.

Foi escolhido para buscar esquemas, saídas táticas que reflitam o anseio por vitórias, gols, intensidade.

Não posturas antidemocráticas, linchamento público de jogadores, defesas de estrelas, e ironias vazias, desrespeito aos jornalistas que estão diariamente cobrindo o clube e já sabem da insatisfação de alguns atletas com suas regras.

Até agora, foram três vitórias, dois empates e quatro derrotas, no início de 2020. Com direito à eliminação no Itaquerão, da pré-Libertadores, para o Guaraní, do Paraguai.

Tiago se viu obrigado a pedir desculpas pela derrota para o Água Santa.

Mas ele deveria rever seus conceitos.

E entender o porquê de suas atitudes serem vazadas para a imprensa.

O grupo corintiano já rejeitou a maneira com que Ralf e Jadsons foram dispensados. Ambos passaram as férias iludidos, treinando, sonhando em seguir no clube. E apenas um dia antes da apresentação dos atletas foram avisados que não seguiriam.

Agora, depois da derrota para o Água Santa, ele fala em diminir o elenco. Mandar mais jogadores embora. Porque não agiu antes? Foi contratado no final de 2019. Com 'carta branca' para escolher o número de atletas com quem queria trabalhar.

Ou seja, vai levar mais tensão ao grupo.

Deveria ter agido nas férias.

O Corinthians é um clube muito diferente do Athletico.

Ninguém no Parque São Jorge é blindado de críticas e está livre de questionamentos.

A começar por Andrés Sanchez.

O presidente sabe o quanto é pressionado pela oposição, situação e pela imprensa. 

E se explica, se justifica, assume os erros.

A repassar a culpa dos fracassos aos jogadores, principalmente os mais humildes, e defender as estrelas, impor regras militares à concentração e desafiar, ironizar a imprensa, Tiago Nunes segue um caminho perigoso, dificulta a própria sobrevivência no Corinthians.

Principalmente pelo futebol desequilibrado, sem consistência que sua equipe mostra. Afobada no ataque e vulnerável defensivamente.

O início de trabalho de Tiago Nunes é decepcionante.

Em todos os sentidos.

E não é só a torcida e a imprensa que enxergam.

A diretoria já o vê com desconfiança...

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