Cosme Rímoli Para calar quem não acredita no seu futebol. Cristiano Ronaldo dará a vida na Copa do Catar. Para mostrar que ainda é uma estrela

Para calar quem não acredita no seu futebol. Cristiano Ronaldo dará a vida na Copa do Catar. Para mostrar que ainda é uma estrela

Cinco vezes o melhor do mundo, CR7 não acusou o treinador do United de tê-lo traído à toa. Não vai voltar para o clube. Quer fazer da Copa a vitrine para provar que, aos 37 anos, ainda pode ser a estrela de um gigante

  • Cosme Rímoli | Do R7

Rompimento com o United não foi à toa. Cristiano Ronaldo se desafia. Será tudo ou nada no Catar

Rompimento com o United não foi à toa. Cristiano Ronaldo se desafia. Será tudo ou nada no Catar

Reprodução/Instagram

São Paulo, Brasil

Não bastasse ser a última Copa de sua vida, Cristiano Ronaldo se impôs um desafio reservado aos garotos e jogadores em início de carreira.

Fazer do Mundial do Catar palco para uma reviravolta na vida.

A sua última na carreira.

Aos 37 anos, cinco vezes o melhor do mundo, bilionário, o primeiro jogador a romper a barreira dos 400 milhões de seguidores nas redes sociais, ele vive um dilema.

Vivendo a pior fase de sua carreira, não tem o apoio de que precisa para tentar se readaptar em campo, fazer com que o time mude taticamente, para que possa exercer o seu maior talento, marcar gols.

Nas mãos inseguras de Erik ten Hag, holandês que está empenhado em reformular o decadente Manchester United, Cristiano Ronaldo vem sendo tratado não só como qualquer um.

Mas como exemplo de "personalidade" do treinador, que quer mostrar aos seus comandados, e ao mundo, que é ele quem manda. E não se impressiona por Cristiano Ronaldo ser um dos maiores ídolos da história do Manchester United, ter apoio da torcida, da direção, da mídia.

Com ele, terá que correr como um garoto nos treinos, marcar, sem privilégio tático algum. Ao contrário do que Messi tem no PSG, por exemplo.

Cristiano Ronaldo recebe 30 milhões de euros do United, cerca de R$ 164 milhões, R$ 13,6 milhões mensais. Fora o dobro que ganha em patrocínios. 

Ele quis voltar para o Manchester United, depois de anos fantásticos no Real Madrid, de uma passagem decepcionante na Juventus.

Tinha certeza de que, no clube que o havia lançado para o mundo, seria tratado com o respeito, com a admiração que merece. Mesmo sem ter as mesmas arrancadas fabulosas, os dribles curtos, o incrível poder de artilharia dos anos 2003 a 2009.

Capitão e maior ídolo da história do futebol de Portugal.

Voltou com a determinação de ter últimos anos sensacionais, com o carinho da torcida de Manchester. Só que encontrou pela frente o holandês Erik ten Hag, disposto a entrar na elite dos treinadores mundiais. O caminho que escolheu foi tirar qualquer privilégio de Cristiano Ronaldo, jogador com o qual nunca contou no time intenso, vibrante, veloz que tenta montar no United.

Erick não teve o menor tato em deixar Cristiano Ronaldo no banco, cobrá-lo publicamente e, muitas vezes, na frente dos companheiros do jogador, nos treinos.

Egocêntrico, o português cinco vezes melhor do mundo passou a enfrentá-lo. Não aceitar suas humilhações. Deu desculpas e não foi a treinos. Não quis entrar em campo no final da partida contra o Tottenham. Saiu do banco, antes de o jogo acabar, e foi para o vestiário.

O clima estava insuportável.

Cristiano Ronaldo percebeu que estava sendo mostrado como vilão pela imprensa.

E deu o troco.

Falou a um jornalista sensacionalista na TV inglesa, Piers Morgan. Editor de tabloides especialistas em escândalos como The Sun, ele serviu de "escada" para Cristiano Ronaldo atacar o treinador, os companheiros de time e os dirigentes do United.

"Não tenho respeito pelo Erik ten Hag porque ele não demonstra respeito por mim. Se você não tem respeito por mim, eu nunca terei nenhum por você.

"Não só o técnico, mas outros dois ou três caras no clube. Eu me senti traído. Sinto que algumas pessoas não me queriam aqui.

"Adoro o Manchester United, adoro os adeptos, estão sempre do meu lado. Mas se o Manchester United quer fazer diferente… Eles têm que mudar muitas, muitas coisas. Aqui o progresso foi zero desde que sir Alex Ferguson deixou o clube.

"Nada mudou aqui desde que sir Alex saiu. A piscina, a jacuzzi, até o ginásio, até um pouco de tecnologia. Até os chefs que eu aprecio, pessoas adoráveis. Achei que veria novas tecnologias, infraestrutura. Vi coisas que vi quando tinha 20 anos!

"Sinto que algumas pessoas não me queriam no Manchester United, não apenas neste ano, mas também na temporada passada.

"Se você nem é treinador [Ralf Rangnick, ex-técnico do United em 2021], como vai ser o chefe do Manchester United? Nunca tinha ouvido falar dele."

Cristiano Ronaldo e Erick ten Hag têm péssimo relacionamento. O holandês não queria o ídolo

Cristiano Ronaldo e Erick ten Hag têm péssimo relacionamento. O holandês não queria o ídolo

Reprodução/Sky

Ele criticou a postura do clube até na morte do seu filho, que faleceu durante o parto, em abril. Cristiano recebeu a solidariedade da torcida; dos dirigentes, oficialmente, não.

"O Manchester United não demonstrou empatia alguma e não me apoiou durante esse momento difícil.

"Como disse Picasso, é preciso 'destruir para reconstruir'. E, se começarem por mim, para mim, não há problema. Um clube desse tamanho deveria estar no topo, mas não é o caso, não há desculpas.

"Quero o melhor para o Manchester United. É por isso que venho, mas você tem algumas coisas dentro do clube que não ajudam a alcançar o nível mais alto como Manchester City, Liverpool e até agora o Arsenal."

Cristiano Ronaldo conseguiu o que queria

A entrevista bombástica provocou reações negativas no clube. Muito mais do que ser multado em 1 milhão de libras esterlinas, R$ 6,3 milhões, o jogador midiático conseguiu o que queria.

Criou um clima insuportável para sua permanência no United. Deixando claro o que vive. Ganhou todas as manchetes no mundo antes da Copa.

E está aberto para o mercado.

De acordo com a imprensa portuguesa, quer jogar duas temporadas mais, em um gigante europeu, antes de encerrar a carreira no Sporting, clube pelo qual começou a atuar.

Para isso, Cristiano Ronaldo assume mais um desafio na sua vida. Terá de sair da zona medíocre do jogador especial que vive do passado.

Como capitão, terá de fazer histórica a sua última Copa do Mundo. 

Para calar a boca de Erick ten Hag.

Fazer se arrependerem os dirigentes de Bayern, Chelsea, PSG, Atlético de Madrid, Napoli, Roma e até o Borussia Dortmund. Todos esses clubes não quiseram negociar com o português.

Não há meio-termo para Cristiano Ronaldo no Catar.

Ou ele consegue a última reviravolta na carreira.

E assume o protagonismo de um grande europeu.

CR7 postará o seu final de carreira na Copa do Catar. Retomada por cima ou dinheiro em mercados menores

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Uefa

Ou vai viver do passado, atuando em ligas menores, enriquecendo ainda mais. Só que terá de atuar nos Estados Unidos, na Arábia Saudita, na China. Centros que não deseja.

A não ser que deseje antecipar a volta para o Sporting e caminhar para o final da carreira.

Para o Manchester United não vai retornar.

Aos 37 anos, Cristiano Ronaldo não fez nada sem querer.

Sem medo das consequências, para quem tem um patrimônio de R$ 11 bilhões, de acordo com revistas especializadas em fortunas.

Ele usou a imprensa sensacionalista para se vingar de Erick van Tag.

Dos dirigentes do United que apoiam o treinador.

Jogou-os contra a frustrada torcida do tradicional clube, que não conquista a Champions há 14 anos. E que não obteve nem vaga para disputar o torneio desta temporada.

Quem foi a estrela da conquista da Champions em 2007-2008?

Cristiano Ronaldo.

Ídolo que voltou em 2021 para "voltar a ser feliz e trazer importância ao United".

Mas que só conseguiu desprezo e frustração.

E agora terá de apelar à Copa do Mundo como sua redenção no futebol.

O Catar será tudo ou nada para Cristiano Ronaldo.

Sem meio-termo...

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