Cosme Rímoli O privilégio de conviver com Zagallo em três Copas do Mundo. Ninguém amou mais a Seleção Brasileira do que ele

O privilégio de conviver com Zagallo em três Copas do Mundo. Ninguém amou mais a Seleção Brasileira do que ele

Dois títulos em campo. Um como treinador e um como coordenador. A vibração pela Seleção Brasileira era fora do comum. Conhecer Zagallo foi entender porque este país tem cinco Copas do Mundo

  • Cosme Rímoli | Do R7

Duas Copas do Mundo como jogador. Uma como técnico. E outra como coordenador. O maior vencedor

Duas Copas do Mundo como jogador. Uma como técnico. E outra como coordenador. O maior vencedor

Reprodução/Fifa

São Paulo, Brasil

Chega a ser simbólica a morte de Mario Jorge Lobo Zagallo, no final da noite de sexta-feira, de 5 de janeiro, quando Fernando Diniz é demitido da Seleção e Dorival Junior está receoso em aceitar o convite para comandar o Brasil na Copa dos Estados Unidos.

Foi surreal porque ninguém, na história do futebol neste país, amou mais defender a camisa da Seleção Brasileira do que ele.

"A amarelinha representa o meu país. O orgulho de vestir essa camisa ou comandar o time que a veste é um dos sentimentos maiores da minha vida. O mundo tem de respeitar. O Brasil fez por onde. Dentro do campo. Só nós temos cinco estrelinhas."

As frases são de Zagallo em uma última entrevista que ele me deu, em 2010.

Todos sabem que ele foi um jogador revolucionário nas mãos de Vicente Feola, que aprendeu com Béla Guttmann, treinador húngaro que passou pelo São Paulo.

Muito inteligente taticamente, sem ser um craque excepcional, se tornou fundamental às seleções campeãs de 1958, a que sepultou o complexo de 'vira-lata', e a de 1962, a que confirmou a geração excepcional, se tornando bicampeã mundial. 

Depois, em 1970, já como treinador, escolhido pela última hora, pela Ditadura Militar, para suceder o João Saldanha, Zagallo mostrou sua genialidade como treinador.

Nada de disputa entre Pelé, Rivellino, Tostão, Jairzinho, Gerson. Encaixou o genial quinteto. Com funções táticas diferentes e que se convergiam para o bem da melhor seleção de todos os tempos.

Fez de Clodoaldo um jogador versátil, capaz de trocar de lugar com Gerson, que recebia marcação individual, na partida mais eletrizante emocionalmente do México, contra o Uruguai. E o ex-volante do Santo decidiu o confronto.

Foi quem enxergou que Carlos Alberto Torres não estava sendo marcado na final, contra a Itália, e o liberou para surgir como homem surpresa no ataque, quando naquele tempo o lateral era proibido passar da linha do meio-campo.

Zagallo teve essa visão revolucionária.

A emoção de ser campeão mundial pela primeira vez. Jogador tático, inteligente. Falso ponta esquerda
A emoção de ser campeão mundial pela primeira vez. Jogador tático, inteligente. Falso ponta esquerda Reprodução/Fifa

Peça fundamental em quatro títulos.

Em 1974 não conseguiu controlar o bairrismo e jogadores de São Paulo e Rio de Janeiro se detestavam. E o Brasil fracassou terminando em quarto lugar. 

Voltou para a Seleção em 1994, como coordenador da Seleção.

Aí começou a nossa convivência. Nos Estados Unidos vi o quanto influenciou, ensinou Carlos Alberto Parreira. Foi o grande defensor de uma seleção muito forte defensivamente, que vivia às custas de contragolpes puxados por Jorginho, Branco, Mazinho, Zinho para Bebeto e Romário.

Foi Zagallo quem convenceu Parreira a deixar de lado o improdutivo Raí.

E também o 'Velho Lobo' quem insistiu para o time entrar em campo de mãos dadas. Representando 'nós contra eles'. Lógico que 'eles' era a imprensa que massacrava o time que fez Eliminatórias vergonhosas para a época. Perdendo o primeiro jogo da história da disputa sul-americana para chegar a um Mundial, diante da Bolívia, em La Paz. 

Eu estava em La Paz e vi o desespero de Zagallo, maior do que todos os jogadores e Parreira.

Dentro do avião, de volta para a Bolívia, porque na época a CBF fretava para a imprensa, a preços exorbitantes, os lugares que sobravam na aeronava. O Jornal da Tarde, onde eu trabalhava, pagou o meu lugar. E vi o comentarista Juarez Soares puxar, assoviando, a canção "Pra Frente Brasil". Todos os jornalistas seguiram assoviando, eu inclusive. Era uma crítica musical. Demonstrando que 'time bom era o de 70'.

A declaração de guerra estava feita.

Zagallo conseguiu encaixar Pelé, Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho. Fez o melhor time de todas as Copas

Zagallo conseguiu encaixar Pelé, Tostão, Gerson, Rivellino, Jairzinho. Fez o melhor time de todas as Copas

Reprodução/CBF

E a Seleção de 94 jogou com raiva. Assumiu o futebol 'feio', que traia a tradição brasileira, mas foi eficiente para ganhar o Mundial. Zagallo ficou ensandecido com a conquista. E tratou de desafiar os jornalistas.

Em 1997, eu estava cobrindo a Seleção na disputa da Copa América, na Bolívia. Zagallo era o técnico. E montou um time competitivo, muito mais forte que os rivais.

O Brasil jamais tinha vencido a competição fora do país.

E se impôs, até na altitude terrível, de La Paz.

3 a 1 na final, diante dos bolivianos.

Zagallo, ainda rancoroso, com as críticas de 1994, foi direto falando para as câmeras.

"Vocês (jornalistas) vão ter de me engolir."

Chegou renascido na Copa da França. 

Zagallo beijando Ronaldo, depois da semi da Copa da França. Apostaria no jogador, mesmo com as convulsões

Zagallo beijando Ronaldo, depois da semi da Copa da França. Apostaria no jogador, mesmo com as convulsões

Reprodução/CBF

O time brasileiro tinha altos e baixos. Perdeu Romário cortado antes do início do Mundial. O que foi um choque. Era um time que misturava competitividade, talentos fora de série, como Rivaldo e Ronaldo. Mas tinha falhas defensivas. O meio-campo era frágil. E o miolo da zaga falhava muito pelo alto.

Aos trancos e barrancos, o Brasil chegou à final.

Nós, jornalistas, questionávamos muito Zagallo. Mas, tivemos de admirá-lo pelo que fez na disputa de pênaltis contra a Holanda, na semifinal da Copa. A Seleção tinha ido muito mal e a vitória dos holandeses nos 90 minutos seria mais justa. Só que nas penalidades, o Velho Lobo animou todos os jogadores, passou convicção, confiança, em cada um deles. E veio a vitória, a classificação para a final.

Ronaldo sabotou o plano de Zagallo, de atuar nos contragolpes, contra a favorita e melhor time, França. A convulsão no dia da decisão, provocado por excesso de remédios contra dores nos joelhos, e a pressão psicológica para vencer o Mundial, somado às confusões de seu país, com seus respectivos namorados, em uma mansão alugada em Paris. Mais o terrível boato que estaria sendo traído por sua namorada na época. Tudo foi demais para Ronaldo.

Ficamos estupefatos no estádio na final quando saiu a escalação e Edmundo estava na vaga de Ronaldo. Depois soubemos o que havia acontecido. E da decisão de Zagallo em voltar atrás e escalar Ronaldo, mesmo depois das convulsões. Os jogadores tinham medo, durante o jogo, que ele morresse em campo.

Zagallo assumiu ter escalado Ronaldo, porque ele era o melhor jogador do mundo, em 1998.

O Brasil perdeu a decisão por 3 a 0.

O treinador foi massacrado por ter exposto Ronaldo e ter tirado Edmundo do time, depois de ter dado até a preleção, explicado como o time iria atuar, com Edmundo.

Zagallo não queria responder perguntas após o jogo.

Iria fazer só um pronunciamento.

Eu estava nos vestiários e vi quando o repórter carioca Mauro Leão decidiu quebrar as regras, e perguntar, o motivo de Ronaldo ter jogador.

"Vocês vão ter de me engolir." Zagallo enfrenta a imprensa em 1997, na Bolívia

"Vocês vão ter de me engolir." Zagallo enfrenta a imprensa em 1997, na Bolívia

Reprodução/Instagram

Zagallo começou a gritar, a polícia francesa pensou que Mauro o havia ofendido e queria prendê-lo. Nós jornalistas defendemos aos empurrões o jornalista carioca.

Zagallo foi embora xingando, sem explicação alguma.

Em depressão por uma cirurgia muito invasiva que se submeteu, Parreira decidiu levá-lo como coordenador da Copa de 2006.

Foi uma decisão completamente errônea.

Nós que conhecíamos Zagallo víamos a sua fragilidade física.

Parreira tinha muita preocupação com seu mentor. Era assustadora a tensão que Zagallo provocava ao surgir nos treinos e mesmo nos jogos, no banco de reservas.

Para piorar a situação, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Adriano chegaram ao Mundial muito acima do peso. Com foco nas farras. Kaká era o único elemento do 'quadrado mágico' em forma. E não conseguiu 'carregar o time nas costas'.

Parreira não teve força para conter o trio nas noitadas na Suíça no período de preparação, e principalmente, na Alemanha, durante a Copa.

Zagallo pouco pode fazer.

Não tinha força física para se impor.

O fracasso diante da França, nas quartas-de-final, foi o fim da participação de Zagallo com a sua amada 'Amarelinha'.

Sua saúde jamais voltou a ser a mesma coisa.

Entre várias entrevistas que fiz com Zagallo, a mais marcante foi uma em 1998, na França.

"A Seleção Brasileira representa a nossa Pátria. Cobro dos jogadores o amor que eu tive nas Copas de 1958 e 1962. Eles precisam saber que o futebol significa para os brasileiros. E vencendo conseguimos dar alegria, amor-próprio à nossa população que sofre tanto para sobreviver.

"Eu vim de Alagoas, de uma cidade pequena, Atalaia. Éramos pobres. O futebol era a nossa alegria. Dar tudo o que posso para o futebol, principalmente para a Seleção do meu país, é minha obrigação.

"Eu tenho amor verdadeiro à Amarelinha.'

Muitas vezes injustiçado no Brasil, Zagallo é reverenciado no mundo todo. Único vencedor de quatro Copas
Muitas vezes injustiçado no Brasil, Zagallo é reverenciado no mundo todo. Único vencedor de quatro Copas CBF

"Espero que os jogadores sigam tendo orgulho de vestir a camisa da Seleção como eu."

Descanse em paz, Mario Jorge Lobo Zagallo.

Foi uma lição de vida ter convivido com você.

Te ver ganhar e perder com a Seleção Brasileira.

Mas dando de tudo para vencer.

Inclusive sua saúde.

O futebol deste país será eternamente grato...

Estrela do Manchester United ostenta garagem de mais de R$ 2 milhões; veja a coleção

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

Últimas