Cosme Rímoli O 'adeus' de Andrés não engana ninguém. Nem ele mesmo

O 'adeus' de Andrés não engana ninguém. Nem ele mesmo

O homem que domina o Corinthians desde 2007, deixa a presidência, pela terceira vez. Mas segue mais poderoso do que nunca. Seguirá mandando

  • Cosme Rímoli | Do R7

São Paulo, Brasil

"Minha gratidão e agradecimento a vocês todos. Mais uma vez, peço desculpas por esse ano difícil que tivemos, pelos erros que cometi esse ano com vocês, sei que não é normal no Corinthians, mas neste ano foi assim.

"Desculpa mesmo.

"Agradecer pela recuperação que vocês tiveram, nós aqui sabemos que vocês trabalhavam e corriam e o resultado não vinha. Aqui dentro era compromisso, mesmo que lá fora não soubessem. Vou ficar longe de vocês um bom tempo.

"E vai, Corinthians sempre!"

Esta foi a despedida formal de Andrés Sanchez, aos jogadores do Corinthians.

Em entrevistas, ele garantiu que nunca mais volta à presidência, depois de seu terceiro mandato.

Só que nem membros da oposição, e principalmente, da situação, acreditam que ele ficará longe do poder no Parque São Jorge.

Nem ele mesmo.

Andrés Sanchez conseguiu construir uma teia no Corinthians desde a década de 90, apadrinhado por Nesi Curi, então vice-presidente de Alberto Dualib.

Da base passou para o futebol profissional e foi o representante do clube na MSI, junto a Kia Joorabchian.

Andrés não foi afetado pela investigação da polícia federal, de lavagem de dinheiro da empresa. A culpa caiu toda sobre Dualib, que teve de renunciar.

Sanchez, um dos fundadores da torcida Pavilhão Nove, nome dado a uma das alas do extinto presídio Carandiru, teve total apoio das organizadas e de conselheiros para assumir a presidência do clube, em 2007.

"O baixo clero chegou para ficar", cansou de repetir Andrés, para ironizar ex-dirigentes como Roque Citadini e Romeu Tuma Júnior, que nunca mais chegaram perto do poder.

Andrés Sanchez ao explicar a negociação do novo nome do estádio. "Fui estuprado"

Andrés Sanchez ao explicar a negociação do novo nome do estádio. "Fui estuprado"

Corinthians

Andrés comanda a vida política do Corinthians há 13 anos.

Ele, melhor do que ninguém, sabe que não é preciso ser presidente para mandar.

Mesmo com Mario Gobbi e Roberto de Andrade, Sanchez era o homem das decisões mais importantes. Apesar das brigas em público.

Graças à contratação de Ronaldo, que mostrou ao dirigente as entranhas de um clube europeu e ensinou o caminho da modernização, e à amizade de Lula, e o desejo presidencial de 'facilitar ao seu time do coração um estádio moderno', Andrés Sanchez revolucionou o Corinthians.

Deixou por acertar o tolo acordo para o pagamento da arena, comprometendo todo o dinheiro da bilheteria. E a promessa dos naming rights.

Voltou à presidência por uma questão de ego.

Para corrigir seus dois grandes erros.

E porque a oposição começava a se articular.

Prometendo fazer escândalo em relação ao estádio, disposta a acabar com sua reputação como dirigente.

Muito articulado politicamente, nos últimos três anos, Andrés só pôde montar times medíocres. Graças ao defensivismo de Fábio Carille, conseguiu dois Campeonatos Paulistas.

Enquanto atrasava salários, Andrés costurava novo acordo para o pagamento do empréstimo para a construção do estádio. Desta vez, garantindo que uma parte significativa da arrecadação fique no clube. 

Andrés Sanchez foi o responsável pelo Corinthians gastar R$ 23 milhões com Luan

Andrés Sanchez foi o responsável pelo Corinthians gastar R$ 23 milhões com Luan

Corinthians

Em vez de o Corinthians pagar a arena em 2028, a dívida será quitada em 2040. 

Doze anos a mais.

E ele também conseguiu convencer a Hypera Pharma pagasse R$ 300 milhões pelos prometidos naming rights do Itaquerão, como o estádio ficou conhecido.

Dinheiro que o clube nem encostará, já que será todo destinado a pagar o empréstimo com a Caixa Econômica Federal.

Andrés Sanchez conseguiu até que o adiamento da aprovação, ou mais provável, reprovação das contas de 2019, no Corinthians. A análise do Conselho Deliberativo não aconteceu antes das eleições. Para favorecer seu candidato e, agora, eleito presidente, Duílio Monteiro Alves.

Sanchez, até por recomendação médica, tirará férias.

Duílio assumirá no dia 4 de janeiro.

Mas todo o grupo que sustenta Duílio seguirá comandado por Andrés.

Ele não precisa nem aparecer no Parque São Jorge.

Por telefone, como foi no mandato de Gobbi e de Roberto de Andrade, ele seguirá participando ativamente da administração de Duílio.

A despedida de Andrés não convence nem o mais ingênuo dos conselheiros corintianos.

Neste último mandato, Andrés consertou o erro para pagar o estádio, que Lula facilitou

Neste último mandato, Andrés consertou o erro para pagar o estádio, que Lula facilitou

Corinthians

Sabe que o 'alto clero', homens que cercavam Dualib, ainda querem voltar a mandar no Corinthians.

E ele prometeu que isso 'jamais acontecerá'.

Andrés fala demais, ele mesmo admite.

Como quando revelou que foi 'estuprado' nas negociações com a Hypera Pharma.

Hoje, ele também se deixou trair, ao pedir 'desculpas' aos jogadores pelos inúmeros atrasos de pagamentos de salários, direitos de imagem.

"Vou ficar longe de vocês um bom tempo", disse.

Não teve coragem de mentir.

"Longo tempo" está longe de ser "para sempre".

Sanchez é uma arma para o grupo político que manda, desde 2007.

No clube a reeleição se tornou proibida.

Mas uma mesma pessoa pode ser várias vezes presidente.

Basta não ser seguidamente.

O adeus de Andrés é 'só para inglês ver'.

Ninguem acredita no Corinthians.

Nem ele mesmo...

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