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Cosme Rímoli Mundial, Tevez, Kia, esfirras e renúncia: O Corinthians de Dualib

Mundial, Tevez, Kia, esfirras e renúncia: O Corinthians de Dualib

Aos 101 anos, morreu ontem Alberto Dualib. No exílio, longe do Corinthians. Justo ele, que foi o presidente mais vencedor da história do clube. Seus 14 anos de poder foram vitoriosos dentro do campo. E polêmicos fora

  • Cosme Rímoli | Do R7

Andrés Sanchez e Kia cantando 'parabéns a você' a Dualib. O Corinthians era 'dele'

Andrés Sanchez e Kia cantando 'parabéns a você' a Dualib. O Corinthians era 'dele'

Corinthians

São Paulo, Brasil

"Agora, ninguém fala de futebol. Todo vocês se acomodem que as esfirras estão chegando. E tem de comer quentinhas. Vocês vão adorar."

E lá íamos nós, repórtes, setoristas, sentarmos à mesa da presidência do Corinthians. Comendo, com guardanapos, esfirras abertas de carne. Regadas a Coca-Cola, em copos com o logotipo do clube.

Depois de comer, a desejada entrevista. Que muitas vezes terminam em gritos de lado a lado e copos de Coca-Cola derramados na mesa.

"Quanto mais ele acreditava que o jornalista o perseguia, mais esfirras ele mandava colocar no seu prato.

Muitas vezes, vi meu prato cheio. 

Recusar era impossível, ele ficava ressentido, monossilábico.

Ao seu maior parceiro de diretoria, o vice-presidente Nesi Cury, ele dizia que, sem as esfirras, tudo seria pior.

Na sua psicologia, elas acalmavam os jornalistas, que 'viviam com fome'.

Alimentados, escreveriam e falariam 'sem tanto rancor'.

O rodízio se repetia com ou maior ou menor frequência, dependendo da crise.

As esfirras acabaram quando a MSI e a Polícia Federal chegaram ao Corinthians.

Astuto, inteligente, simpático, apaixonado pelo poder, mas absolutamente ditador. Foi assim, com mão de ferro, que Alberto Dualib controlava o clube mais popular do estado mais rico do Brasil. Por 14 anos. Quatro mandatos seguidos, algo que só ele conseguiu. De 1993 a 2007.

Ao lado de Blatter, aplaudindo, satisfeito, o título mundial do Corinthians, em 2000

Ao lado de Blatter, aplaudindo, satisfeito, o título mundial do Corinthians, em 2000

Corinthians

"Eu sou o presidente mais vencedor da história do Corinthians. Ganhei Mundial, ganhei três Brasileiros, duas Copas do Brasil, cinco Paulistas e um Rio-São Paulo. Ninguém ganhou tanto quanto eu e nem vai ganhar", discursava, na intimidade.

Alberto Dualib, que morreu ontem, aos 101 anos.

Foi o último representante assumido do poder centralizado nas mãos de um só homem no Corinthians. Andrés Sanchez, que derrubaria Dualib, tem a mesma força, mas é 'representante' dos novos tempos, aparentemente de alternância de poder, de democracia.

Dualib sempre foi muito astuto. Ele derrubou um mito no Corinthians, Vicente Matheus, articulando com os mesmos homens que o apoiaram por anos. Depois, adiou eleições, venceu a viúva Marlene Matheus. Se instalou no poder.

Alberto Dualib era rico, para os padrões dos dirigentes corintianos da época. Dono de cinco empresas, entre elas, a All Latex, que fabricava tênis.

Disse que o clube prejudicou suas empresas, as levaram à falência, porque ele colocava dinheiro do próprio bolso para comprar jogadores. Com Marcelinho Carioca, por exemplo, que ele adorava.

Ele tinha como único foco o futebol. Não apostava na infraestrutura do clube. Até o final de sua vida, acreditava ser um desperdício de dinheiro a construtução da arena Corinthians. Dizia que o Corinthians ficaria cada vez mais rico e poderoso continuando a jogar no Pacaembu.

Dualib com as faixas das conquistas. E troféu do Mundial. Maior vencedor do Corinthians

Dualib com as faixas das conquistas. E troféu do Mundial. Maior vencedor do Corinthians

Reprodução/Twitter Vessoni

Dualib acreditava que, a cada crise que o time enfrentava, qualquer denúncia de desmando no Corinthians, tinha uma fórmula fácil de ser resolvida.

"Basta comprar um jogador e a imprensa e a torcida se esquecem das crises", dizia aos conselheiros.

E foi assim que montou esquadrões inesquecíveis para o Corinthians. Como o time campeão mundial de 2000, cuja estrutura também conseguiu o bicampeonato brasileiro.

Dida,Índio, Fábio Luciano, Adilson e Kleber; Rincón,Vampeta e Ricardinho (Edu Gaspar); Marcelinho Carioca, Edilson (Fernando Baiano) e Luizão.

Dualib fez três parcerias para tentar manter o futebol, cada vez mais caro. Com Banco Excel (1997 e 1998), Hicks Muse (1999-2002) e MSI (2004-2007).

Conseguiu trazer dinheiro e títulos para o Parque São Jorge.

Mas errou na última delas. O fundo de investimento MSI, (Media Sports Investment), comandada pelo iraniano naturalizado inglês, Kia Joorabchian, tinha recursos de bilionários russos e a Polícia Federal desconfiava ser fachada, para lavagem de dinheiro. Foi assim desde o início, mas tudo ruiu quando o time com as estrelas internacionais Tevez e Mascherano, mais Roger, Carlos Alberto, Nilmar foi eliminado da Libertadores da América de 2006.

O time já havia perdido na Argentina, a primeira partida das oitavas por 1 a 0, para o River Plate. No jogo decisivo, derrota por 3 a 1. E a soldados da Polícia Militar agiram com muita coragem e destreza para evitar que os torcedores revoltados invadissem o gramado para agredir os jogadores, no Pacaembu.

Depois daquele caos, nós jornalistas, fomos para o hotel no qual o Corinthians estava hospedado. A troca de acusação entre os dirigentes do clube e os da MSI mostravam que a parceria iria desmoronar. Ela acabou graças à investigação da Polícia Federal.

Enquanto isso, Andrés Sanchez, apadrinhado do vice Nesi Cury, e que foi diretor de futebol do Corinthians, na época da MSI, começou a trabalhar contra Alberto Dualib. Junto com conselheiros e, contando principalmente com as lideranças das torcidas organizadas, Sanchez comandou um levante contra o presidente.

Faixa em frente à casa de Dualib

Faixa em frente à casa de Dualib

Reprodução/Twitter

Conseguiu um processo de impeachment. Além disso, Dualib sofreu terrível perseguição pessoal, com as organizadas o ameaçando de morte, em frente à sua casa, o perseguindo onde fosse. Exigiam sua renúncia, de qualquer maneira. 

Com medo de sua integridade física, Dualib renunciou. Nesi Cury, homem que colocou Andrés no Corinthians, também perdeu seu cargo graças ao movimento orquestrado por Sanchez.

"O Andrés ainda me visita, me leva no Corinthians. Não sei se é remorso", ironizava, triste por ter sido expulso do clube, tendo sua carteira de sócio cassada.

Dualib ganhou 14 títulos no Parque São Jorge.

Conseguiu ser o presidente mais vencedor de todos.

Foi o último representante de uma época.

Deixou amigos, deixou inimigos, fez história.

Principalmente dentro do campo.

Que sempre foi o seu foco...

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