Cosme Rímoli Messi se livrou da sombra de Maradona. É campeão do mundo. O melhor jogador da história da Argentina

Messi se livrou da sombra de Maradona. É campeão do mundo. O melhor jogador da história da Argentina

Em uma partida fantástica, espetacular, na melhor final de todas as Copas, a Argentina venceu a França, nos pênaltis. 4 a 2. É tricampeã mundial. Mbappé marcou quatro vezes. Não adiantou

  • Cosme Rímoli | Do R7

Quem tem a coragem de dizer que este homem não mereceu ser campeão do mundo com a Argentina?

Quem tem a coragem de dizer que este homem não mereceu ser campeão do mundo com a Argentina?

REUTERS/Hannah Mckay - 18.12.2022

Doha, Catar

Sumiu a sombra de Maradona das costas de Messi.

Calou a boca dos muitos que o chamavam de jogador "de clube".

O seis vezes melhor do planeta conquistou o único título que faltava na sua estupenda carreira.

É campeão do mundo, com toda a justiça.

Com a camisa da Argentina.

Não com a do Barcelona.

E ainda foi escolhido o melhor jogador da Copa.

Marcou seis gols.

Mesmo aos 35 anos.

Foi uma partida frenética.

A melhor decisão de todas as Copas do Mundo.

De todos os tempos. 

Um duelo espetacular entre Mbappé e Messi.

Com direito a dois gols do argentino seis vezes melhor do mundo.

E com quatro do francês (só três contam para a artilharia, que foi dele nesta Copa, com oito gols). Mbappé marcou dois nos 90 minutos, um na prorrogação e outro na decisão por pênaltis.

Mas a vitória foi da Argentina, por 4 a 2, nos pênaltis.

Tricampeã do mundo.

Com gols perdidos dos dois lados, em ritmo alucinante.

Nos 120 minutos de futebol, o francês marcou três gols e se igualou ao inglês Hurst, da Copa de 1966.

Mbappé fez questão de abrir a cobrança de pênaltis. 1 a 0, França. Messi foi para a Argentina. Cobrou com tranquilidade. 1 a 1

Coman foi para a cobrança, Martínez acertou o canto, o direito. Defendeu.

Dybala bateu no meio do gol, mas deslocou Lloris. 2 a 1, Argentina.

Tchouaméni bateu para fora.

Paredes cobrou forte. 3 a 1.

Muani foi convicto, forte, no meio do gol. 

3 a 2.

A decisão ficou para o lateral Montiel.

A cobrança foi perfeita.

4 a 2.

Messi comemorou como sempre sonhou. Gols, palavrão e o alívio
Messi comemorou como sempre sonhou. Gols, palavrão e o alívio REUTERS/Paul Childs - 18.12.2022

Argentina tricampeã do mundo.

Messi, livre da maldição.

Assim que acabou o jogo, ele correu em direção à torcida, sinalizando com os braços que terminou o trauma que vivia.

O de não ser campeão com a Argentina.

Depois, pegou o microfone da Fifa e fez questão de gritar para todo o estádio.

"Vamos, Argentina. C... de tu madre (o equivalente a p.q.p.). Somos campeões do mundo!"

No primeiro tempo, a Argentina desfilou em campo, com atuação incrível de Messi, com direito a um gol e participação decisiva no segundo. No de Di María.

Mas, no segundo tempo, tudo mudou.

Graças a Mbappé e à mudança tática de Deschamps, que trocou seu meio-campo.

Quando a partida parecia decidida, com festa argentina no estádio Lusail, Mouani partiu com velocidade para cima do lento Otamendi. Sem recursos, o zagueiro o derrubou. Pênalti.

Com sangue frio, Mbappé cobrou e marcou 2 a 1, aos 34 minutos. Aos 36, Coman desarmou Messi, tocou para Rabiot. Ele acionou Mbappé. Dele, a tabela com Thuram. E o chute fortíssimo, convicto. 2 a 2.

Em dois minutos o jogo estava completamente mudado.

E o cenário também. Mbappé se tornava o artilheiro e o melhor jogador da Copa.

Viria a prorrogação.

O primeiro tempo equilibrado, tenso, com a Argentina recomposta.

Mas, aos 3 minutos do segundo tempo, veio a justiça do futebol.

Messi descobriu Enzo Fernández. O passe foi para Lautaro Martínez, livre. O chute foi fortíssimo, Lloris espalmou. Messi completou de pé direito. 3 a 2, Argentina.

A decisão parecia acabada.

Mas o jogo fantástico ainda tinha muito mais emoção.

Aos 10 minutos, Mbappé pegou a sobra e bateu forte para o gol, Montiel se esticou e tocou com o braço na bola. Pênalti. O francês assumiu a cobrança. E não deu chance a Martínez.

Incríveis 3 a 3.

Mbappé leva para casa só o troféu de artilheiro. Marcou oito gols. E ficou com o vice
Mbappé leva para casa só o troféu de artilheiro. Marcou oito gols. E ficou com o vice FRANCK FIFE / AFP

Ainda daria tempo para a Argentina e a França perderem gols diante de Lloris e Martínez.

A decisão da mais espetacular final de Copa do Mundo ficou para os pênaltis.

Vitória argentina por 4 a 2, com Messi calando os críticos. 

Calou também Mbappé, que ousou colocar os europeus como inatingíveis.

"Na América do Sul, o futebol não é tão avançado. Quando você olha as últimas Copas, os europeus sempre ganham."

A certeza de Mbappé vinha de 2006 a 2018. 

Isso acabou hoje, aqui no estádio Lusail.

A final das finais.

Desde 1970, dois gigantes, no auge, não faziam uma decisão de Copa do Mundo com tanto significado. 

A briga não era pelo tricampeonato, mas para manter a hegemonia da França no futebol mundial. E pelo surpreendente ressurgimento da Argentina, justo no ocaso de Messi.

Os sul-americanos invadiram o Lusail sonhando com o primeiro título depois de Maradona. Os franceses eram minoria, 20% das arquibancadas. Oitenta por cento era torcida argentina, e eles conseguiram transformar o estádio catari na Bombonera.

O melhor jogador da Copa do Mundo. Gênio, líder, seu talento é em favor da seleção argentina
O melhor jogador da Copa do Mundo. Gênio, líder, seu talento é em favor da seleção argentina FRANCK FIFE / AFP

O técnico Lionel Scaloni tomou uma decisão surpreendente. Não colocou três zagueiros, como a imprensa argentina estava prevendo, por conta de Mbappé. Nada disso: ele apostou em Di María.

Na predestinação do argentino. Ele marcou gols em decisões importantíssimas. Na final da  Olimpíada de Pequim (2008), contra a Nigéria; na Copa América de 2021, contra o Brasil; e na Finalíssima de 2022, contra a Itália.

E também havia a função tática; aberto na esquerda, ele travava Koundé. Impedia as triangulações com Dembéle. A preocupação de Scaloni era travar Griezmann e, principalmente, Mbappé. Fixou De Paul como escudeiro de Molina.

Deschamps, por seu lado, apostou na compactação, nas mesma linhas definidas, explorando a velocidade de Mbappé e Dembéle. E o oportunismo de Giroud.

Nos dois esquemas, as estrelas maiores dos times não tinham funções defensivas e só se preocupavam com o ataque. Messi, dessa vez, ocupava as intermediárias, e não a ponta direita, como havia feito em outras partidas.

E Mbappé seguia aberto demais na esquerda, como um ponta dos anos 70.

A Argentina estava muito mais bem postada em campo. Enzo Fernández, De Paul e Mac Allister domavam qualquer ímpeto francês. Dominavam as intermediárias.

O reflexo foi o encolhimento da França. Suas linhas terminaram muito atrás. 

O que acabou passando confiança, facilitando o que os argentinos de Messi têm de melhor. O toque de bola, a troca de passes. E o time é muito bem treinado por Scaloni. Nada acontece por acaso. Não há a espera alucinada de que um jogador saia driblando. A espera apenas pelo improviso. Isso não combina com o futebol moderno. Como, por exemplo, fez a seleção de Tite neste Mundial.

A Argentina passou a pressionar, encurralar os franceses. Apesar de recuados em duas linhas de cinco, havia espaço para os dribles. A cobertura não funcionava. As jogadas pelas pontas da Argentina eram cada vez mais perigosas.

Até que, aos 22 minutos, Di María driblou Dembéle, que o empurrou. De forma sutil. Mas foi pênalti para os argentinos. Infantil. Mas decisivo.

Messi tinha a oportunidade de ouro, a com que sempre sonhou na sua carreira. Cobrar um pênalti em uma Copa do Mundo.

E cobrou com todo o talento especial de um dos melhores jogadores, se não o melhor, de todos os tempos. Deslocou Lloris. Argentina, com toda a justiça, 1 a 0, aos 23 minutos.

O prazer de marcar se mostrou na comemoração, ao deitar no chão e esperar ser coberto por todo o time, que não só é feliz por tê-o como comandante, mas que torcia para que ele fosse campeão do mundo com a Argentina. E igualasse Maradona.

Foi um golpe terrível para os franceses.

Eles se mostravam muito mal psicologicamente, abatidos, tensos. Não tinham convicção para articular seus ataques velozes. A Argentina simplesmente não permitiu um mísero chute a gol do então campeão mundial.

E o pior viria.

Em um contragolpe muito, mas muito bem coordenado, treinado, veio o segundo gol.

Mac Allister procurou Messi, que dominou com a perna esquerda e tocou em seguida para Álvarez, que serviu Mac Allister. Dele, o toque para o predestinado Di María. O toque foi seco, preciso diante do desesperado Lloris.

2 a 0 Argentina.

Vieram as lágrimas de Di María.

Ele e o estádio acreditavam que o jogo estivesse decidido.

Não estava.

Em dois minutos, Mbappé empatou o jogo.

Viria a prorrogação.

Mais gols de Messi e do francês.

E os pênaltis.

O melhor time, o mais vibrante, com o mais talentoso do mundo levou o título.

Sorte do futebol.

Sorte de quem viu Messi.

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