Cosme Rímoli Mattos: 'Vendi mais de R$ 660 milhões em jogadores para o Palmeiras' 

Mattos: 'Vendi mais de R$ 660 milhões em jogadores para o Palmeiras' 

O executivo errou em algumas apostas, mas também valorizou jogadores importantes. Conseguiu trazer ao clube mais dinheiro do que a patrocinadora Crefisa

  • Cosme Rímoli | Do R7

Alexandre Mattos contratou Mina. E ele foi revendido para o Barcelona

Alexandre Mattos contratou Mina. E ele foi revendido para o Barcelona

Cesar Greco/Palmeiras

São Paulo, Brasil

A revolta de Alexandre Mattos vem à tona quando é questionado sobre só trabalhar com atletas caros. Ele nega e relembra os lucros que deu aos clubes.

Principalmente ao Palmeiras.

Alexandre, você só é bom para trabalhar com jogadores caros?

Essa crença ficou pelo sucesso do Palmeiras. E a última impressão é a que fica...A culpa disso é a diferença do patamar que o Palmeiras era quando eu cheguei e o que o Palmeiras virou. Foi uma diferença muito drástica. As pessoas se esquecem como começou.

Sou um profissional que só peguei clube em reconstrução. Se hoje em sou um presidente de clube, penso no Alexandre Mattos que só reconstruiu clubes. Técnica, de jogadores, e reconstrução financeira.

O América estava sete meses com salários atrasados, não tinha campeonato nacional no seu calendário. Não tinha um clube. O América até hoje tem um legado deixado por mim. O América foi se reconstruindo até chegar na Primeira Divisão.

Quando eu cheguei, o Cruzeiro devia salário. Depois de 25 anos, o Cruzeiro devia salários, os jogadores até divulgaram uma carta sobre a situação. O Cruzeiro tinha um grave problema técnico. O time quase tinha caído em 2011. Lembra do 6 a 1 na última rodada do Brasileiro, contra o Atlético? O Cruzeiro tinha um problema enorme financeiro, não tinha dinheiro para contratar.

Sem dinheiro, montamos o Cruzeiro que foi bicampeão brasileiro.

(Mattos se aproveitou de que, na época, 2011 empresários podiam colocar jogadores abertamente para serem valorizados nos clubes. E vários deles deixaram seus atletas na Toca da Raposa. Só em 2013, o Cruzeiro contratou 19 atletas.)

E, em dezembro de 2014, eu já apalavrado com o Palmeiras, recebi o pedido do presidente do Cruzeiro para vender jogadores. Eu vendi. Ricardo Goulart, 15,5 milhões de euros para a China. Everton Ribeiro, 12,5 milhões para os Emirados Árabes, Lucas Silva, por 15 milhões de euros para o Real Madrid e também o Egídio e o Nilton.

Entrou no caixa do Cruzeiro mais de R$ 200 milhões, na minha saída. Fora os dois títulos brasileiros, fora a valorização da marca, fora a equipe competitiva.

Finalmente, veio o Palmeiras, que foi uma grande aposta.

E o Palmeiras, Cosme, as pessoas não lembram, o Palmeiras não tinha patrocinador master, não tinha recurso para investimento. O Paulo Nobre me disse que a folha salarial não poderia passar de R$ 5 milhões. E não passou.

O Palmeiras tinha um dívida de R$ 200 milhões com o Paulo Nobre, quando eu cheguei. Sim, o valor chegava a R$ 200 milhões. Foi paga essa dívida.  O clube tinha 75% das receitas antecipadas (que já tinham sido usadas pela a diretoria anterior, a de Arnaldo Tirone). Situação que nunca mais fez, desde 2015. Nenhum centavo.

O Palmeiras tinha dificuldade de pagar em dia. (Comigo) pagou rigorosamente em dia. O Palmeiras não tinha credibilidade com os clubes e com os agentes. Recuperou essa credibilidade conosco pagando todos.

Foi uma reconstrução técnica, reconstrução financeira e física. Pagando as dívidas. Hoje o Palmeiras tem o maior patrocinador das Américas. Um dos maiores do mundo. O Palmeiras tem uma estrutura física invejável no mundo. O Palmeiras tem um baita time.

O Palmeiras construiu sua categoria de base. Porque, com todo o respeito, em mais de cem anos de clube, nunca teve excelência na base. Quantas pessoas no Palmeiras diziam que o clube nem precisava ter categoria de base e hoje aplaudem. E categoria de base você não faz para um ano. É projego de três, quatro, cinco anos.

E é muito comum que o gestor que construa não usufrue, não apareça na hora do legado. Isso no Brasil, porque fora, o gestor fica 30 anos no clube. No Brasil, nunca. Fizemos essa reconstrução e demos o time que a torcida queria.

Mattos também errou. Apostou em Lucas Lima, que nunca foi o mesmo jogador do Santos

Mattos também errou. Apostou em Lucas Lima, que nunca foi o mesmo jogador do Santos

Cesar Greco/Palmeiras

Como foi no Atlético?

Foi um pouco diferente. Cheguei em março, para fazer a reconstrução técnica. Saíram mais de 20 jogadores e refazer isso apoiado por um investidor. Foi o único lugar que eu cheguei e o investidor me falou assim. "Vamos contratar 15 caras aqui." Lá foi diferente. Porque o Sampaoli havia combinado isso com ele (Rubens Menin).

No América, no Cruzeiro e no Palmeiras, só peguei time que precisava ser reconstruído. Tecnicamente e financeiramente.

E as vendas no Palmeiras?

Em cinco anos, foram R$ 660 milhões em vendas de atletas. Foi mais de R$ 100 milhões por ano. (A ironia é que esse dinheiro é maior do que a Crefisa colocou no Palmeiras. A patrocinadora já colocou cerca de R$ 600 milhões, mas terá de receber de volta cerca de R$ 160 milhões, considerados empréstimos pela Receita Federal.)

Mas quanto você gastou no Palmeiras, em compras de jogadores?

Cerca de R$ 560 milhões. Mas não se esqueça do legado. Dos títulos (dois Brasileiros e uma Copa do Brasil). E em 2020, o Palmeiras vendeu o Dudu, o Bruno Henrique, o Victor Hugo, o Emerson Santos, o Arthur Cabral, o Arturzinho, o Thiago Santos, o Antônio Carlos. Todos eles fui eu quem contratou. Ou seja, continuo ainda a gerar receita para o Palmeiras.

O clube passou 2020, ano de pandemia vivendo com as vendas desses atletas, que acabo de falar para você. Foram mais de R$ 150 milhões.

Na final da Libertadores, do time titular, nove foram contratados por mim.

E hoje, quanto vale o Veiga, o Gustavo Gómez, o Weverton? Só para lembrar alguns que eu contratei.

E os garotos que vieram das categorias de base? Quanto valem esses meninos?

E desde 2015, todos os balanços, até 2019, foram de superávit no Palmeiras.

Todos.

Em janeiro de 2020, o Palmeiras pagou 5 milhões de dólares em um lateral esquerdo, Viña. E ainda fez a maior compra de sua história. Pagou 6 milhões de euros por 50% do Rony. Ou seja, o preço do Rony é 12 milhões de euros. O meu legado está tudo lá.

Nove dos 11 titulares da final da Libertadores estão no clube graças a Mattos

Nove dos 11 titulares da final da Libertadores estão no clube graças a Mattos

Cesar Greco/Palmeiras

Analisando tudo isso, o que pesou na sua demissão do Palmeiras? Contratar Mano Menezes, identificado com o Corinthians? Inveja de membros da diretoria? Não conquistar a Libertadores?

Os resultados é que não foram. O meu pior ano de Palmeiras, em 2019, o time ficou em terceiro lugar no Brasileiro. A expectativa é que foi muito muito grande. Tanto que as derrotas e não conquistas de títulos (Libertadores) é que pesaram. Criaram uma pressão muito grande. E a cabeça de alguém ficou a prêmio.

E como foram quebrados muitos paradigmas. Teve de impor regras, cuidar de verdade das categorias de base. Não permitir mais entrada no CT da Academia. Cortar regalias de muita gente. E quem fez isso? Por cinco anos? O diretor executivo.

Pessoas foram pedir a cabeça dos que cuidavam da base do Palmeiras. Porque trabalhavam com excelência, seriedade. Sem favorecer ninguém. Principalmente politicamente. Vários interesses foram afetados. São os tais paradigmas quebrados.

Quando o clube ficou em terceiro no Brasileiro, só em terceiro (irônico), veio a caça às bruxas.

Os meus muitos 'não' criaram um desgaste natural.

E quando a bola não entrou e o Palmeiras não ganhou, veio a vingança.

Foi o que aconteceu.

Alexandre, você é uma pessoa inteligente. E é muito difícil falar sobre seus erros. Não houve erros. Como contratar o Mano Menezes, tão identificado com o Corinthians. Não foi um grande erro? Assim como várias contratações?

Eu não tenho problemas em falar nos erros, não. Sou humano. E tem pessoas que acham que eu não tenho o direito de ser humano. Eu queria acertar sempre, mas não acerto. E lógico que a responsabilidade não era só minha.

Eu não sou o único campeão brasileiro de 2016. E nem o único campeão brasileiro de 2018. Nem o único campeão da Copa do Brasil de 2015. Não sou o único responsável pelas contratações do Dudu, do Gómez, do Mina, do Weverton. Não. Várias pessoas trabalharam.

Como também não sou responsável por jogadores que não deram certo, como Carlos Eduardo, Felipe Pires. Ou treinadores que não deram certo, como o Mano Menezes, o Eduardo Baptista.

Eu também não tenho a glória por ter levado o Cuca e ele ter sido campeão brasileiro. Ou ter se lembrado de novo do Felipão e o levado para ser campeão brasileiro também pelo Palmeiras.

Não!

Foram pessoas que decidiram comigo.

No Brasil é assim.

Ganhou todo mundo. Perdeu, vamos escolher um.

Isso não está certo.

E quanto ao Lucas Lima, Borja, contratações caríssimas que não deram certo?

Eu não sou responsável sozinho pelo Dudu, Mina, Weverton, Gómez, Felipe Melo, pelo Willian Bigode, pelo Veiga. E também não posso ser crucificado sozinho porque o Lucas Lima, Borja e o Carlos Eduardo não deram certo, amigo. Qual a justiça, nisso?

O Weverton foi xingado para caramba, quando contratamos. Quero lembrar também para você do Moisés. Falei para o Paulo Nobre. 'Vou trazer um jogador que vão dizer que foi esquema com o empresário, que não joga nada. Mas pode confiar em mim." Eu trouxe o Moisés por 800 mil euros e ele foi vendido por 6,5 milhões de euros, três anos depois. O dinheiro do Moisés pagou a dívida do Wesley,.

Hoje, o Rony briga com o Athletico para vir para o Palmeiras. O Viña briga com o Nacional para jogar no Palmeiras. Mas para chegar a isso, tive de ir atrás do Dudu, por exemplo, e perguntar. Você quer jogar no clube que vai ser o melhor do mundo? Se não vier, com todo o respeito, vai se fo... Ele acreditou em mim.

E quanto ao Mano Menezes? Sua contratação provocou revolta na diretoria, nos torcedores.

A contratação do Mano Menezes e a demissão do Felipão foram decididas por cinco pessoas. Eu, o Cícero Souza, Mauricio Galiotte como presidente, o Alexandre Zanotta, o vice, e o Paulo Roberto Buosi, como vice. E se o Flamengo não estivesse atravessando aquela fase esplendorosa, o Mano poderia ter sido campeão brasileiro...

Inúmeras pessoas dizem que os garotos do Palmeiras, como Gabriel Menino, Veron, Wesley, Patrick de Paula, Danilo só tiveram chance porque o Alexandre Mattos não manda mais no futebol do clube. É verdade?

Quem escala jogador é treinador. Se um diretor escala e o treinador aceita, os dois têm de ir embora correndo. Se não tivéssemos reestruturado a base, esses meninos não existiriam no Palmeiras. Em 2019, Gabriel Menino, Patrick de Paula, Veron ficaram à disposição do profissional. Vieram da base que nós montamos.

Agora quem escala é o treinador, nunca o executivo do clube.

E tem de lembrar que um ano na vida desses meninos, na carreira, faz muita diferença. Eles não eram em 2019 os jogadores que são hoje.

O que aconteceu foi o seguinte. Ao final de 2019, eu, o Cícero, o Galiotte, o Zanotta, o Buosi e o Mano decidimos o planejamento de 2020. Como não ganhamos, era muito mais fácil trocar e abrir espaço para os garotos. O Borja e o Deyverson estavam definidos que iriam sair. E concretizar a venda do Bruno Henrique, como foi. Tudo foi planejado. Os meninos iriam jogar. Tanto que o Mano lançou o Veron.

O meio de campo que imaginamos era Matheus Fernandes, que foi vendido para o Barcelona por 11 milhões de euros. Gabriel Menino e Patrick de Paula. Foi desenhado pelo Mano na Academia de Futebol do Palmeiras.

E essa chegada dos meninos no time principal foi cumprida.

Mesmo com a minha saída e com a saída do Mano.

Esses garotos saíram da base que montamos com excelência no Palmeiras. Graças ao trabalho da minha equipe. Formamos a melhor base do Brasil. Em todos os sentidos.

Contratar Mano Menezes e ver o time fracassar, custou caro. O emprego de Mattos

Contratar Mano Menezes e ver o time fracassar, custou caro. O emprego de Mattos

Cesar Greco/Palmeiras

O quanto você ficou frustrado em não ter conquistado a Libertadores?

O meu maior sonho eu consegui. Que foi ter colocado o Palmeiras de volta ao topo. Isso eu conquistei. Título é consequência. Foi a primeira vez na história do clube que, em 2020, disputaria a Libertadores pela quinta vez. Isso eu consegui. O resgate do Palmeiras foi a maior conquista de todas.

O Paulo Nobre me pediu para ganhar o Brasileiro e não a Libertadores. Tinha 22 anos que o Palmeiras não ganhava, mais do que a Libertadores. E tinha tido dois rebaixamentos. O Palmeiras conseguiu a hegemonia do Brasileiro. Campeão em 2016 e 2018. Um vice. E um terceiro lugar. Clube algum conseguiu isso neste período.

Alexandre, sob seu comando o Palmeiras não teve coerência na contratação dos técnicos. Cada um deles tinha um perfil. Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira, Cuca, Eduardo Baptista, Alberto Valentin, Roger Machado, Felipão e Mano Menezes. Não havia filosofia a ser seguida.

Isso é característica do clube. Vamos lembrar que o Palmeiras ganhou três títulos na temporada 2020 e trocando de técnicos. Dois treinadores, Luxemburgo e Abel Ferreira, completamente diferentes. O Palmeiras é assim porque tem uma torcida que cobra muito. Tem uma torcida muito ansiosa. Que ficou muito machucada de 2002 a 2014 vendo seus principais rivais conseguirem títulos.

O Corinthians ganhou a Libertadores e o Mundial O São Paulo foi tricampeão brasileiro. O Santos venceu a Libertadores. Isso criou uma expectativa enorme na torcida do Palmeiras. E ela queria a vitória da noite para o dia. E quando vem a derrota, ela gera uma cobrança maior. Era o que acontecia no Palmeiras. E as trocas de técnicos.

Você não ficou muito marcado como executivo do Palmeiras. Aceitaria trabalhar no Corinthians, por exemplo?

Eu acabei de sair do Atlético. Eu tenho uma identificação enorme com o Cruzeiro. Eu sou um profissional como outro qualquer. O clube que apresentar projeto, a gente analisa e se for bom, a gente vai. Ainda está muito vivo o Palmeiras na minha carreira, sem dúvida. Na final da Libertadores, nove jogadores eram da minha gestão.

Mas sem dúvida, onde eu for trabalhar, vou vestir a camisa, me dedicar, dar a vida. Como sempre eu fiz. Trabalhei nos três clubes de Belo Horizonte.

Você acredita que os clubes brasileiros estão muito atrasados em termos administrativos em relação aos europeus. Se negando a virarem sociedades anônimas. Aceitarem ter donos. Assumirem ser empresas, buscarem títulos e lucro?

Acho que o grande dificultador é a questão estatutária dos clubes. Porque a política pode mudar tudo. De três em três anos, você tem eleição. Isso pode acarretar em mudança drástica em tudo. Isso aconteceu comigo no Atlético. O presidente que me trouxe tinha um planejamento de me deixar mais três anos, mas ele não foi eleito. E não ficou. E o novo presidente que chegou quis trabalhar com outras pessoas. E o nosso projeto parou.

Os clubes quebram muito os projetos. A base do Palmeiras, por exemplo, não seria feita em um ano. Levou cinco para começar a dar frutos. É assim.

A instabilidade é uma marca registrada por aqui.

O primeiro ano do Guardiola no Manchester City ele não ganhou nada. Seria impossível ter o Klopp no Brasil. Ele ficou três anos no Liverpool e não venceu campeonato algum. Três anos montando o time que ganharia a Champions. Como é que um técnico ficaria aqui em um clube grande sem ganhar? Impossível.

O maior gestor do futebol mundial, o Ramon Monchi ficou 16 anos no Sevilla. E ganhou seis títulos. 16 anos e seis títulos como gestor do Palmeiras não seria aceito.

E o que você está fazendo agora?

Estou cuidando da minha família, porque os últimos 15 anos foram muito intensos para mim. Estou fazendo curso de gestor na CBF. Dois cursos na Universidade de Futebol. E também um curso espetacular da Fifa, o primeiro de gestão. Houve um processo seletivo de 500 pessoas para 24 vagas e eu passei. E estou cuidado de mim. Estou dando aula. Escrevi o meu livro. E estou esperando Deus me abrir a porta certa no momento certo.

Quanto ao seu futuro, você só trabalharia em um clube estruturado, rico?

De jeito nenhum. Por já ter trabalhado tanto em clubes com dificuldades, não há problema algum em assumir o futebol de uma equipe com problemas financeiros. Aliás, foi tudo o que eu fiz na minha carreira até agora. Menos no Atlético Mineiro.

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