Cosme Rímoli Amistosos inúteis, duas Copas América, Eliminatórias. Dependência de Messi. Os motivos do vexame da Argentina diante da Arábia

Amistosos inúteis, duas Copas América, Eliminatórias. Dependência de Messi. Os motivos do vexame da Argentina diante da Arábia

Os argentinos acreditavam nas 36 partidas que tinham de invencibilidade. A maioria delas contra adversários fraquíssimos. E não quis ver a decadência, aos 35 anos, de Messi. Derrota foi choque de realidade

  • Cosme Rímoli | Do R7

A Argentina veio para o Catar para consagrar Messi. A Arábia Saudita deu um choque de realidade

A Argentina veio para o Catar para consagrar Messi. A Arábia Saudita deu um choque de realidade

AFP

Doha, Catar

Lionel Messi.

E a vontade de se enganar, com amistosos inúteis, duas Copas América e as 17 partidas das Eliminatórias Sul-Americanas.

Essa é a explicação de uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo.

A vitória da Arábia Saudita, de virada, sobre a Argentina. 2 a 1. No Lusail Stadium ensandecido com a vibração, intensidade, vontade, superação do time árabe, comandado pelo treinador francês Hervé Renard.

De nada adiantaram as 36 partidas invictas da Argentina.

E a criação de um roteiro apostando que a última Copa de Lionel Messi seria fabulosa, com direito à fácil conquista aqui no Catar.

Lionel Scaloni, o treinador argentino, deveria ser o último a acreditar nesse conto de fadas. Só que foi o primeiro.

Montou sua equipe extremamente dependente e jogando ao redor de uma atleta excepcional, mas de 35 anos, vindo de contusão e com companheiros muito abaixo tecnicamente. 

A Argentina padece do mesmo mal do Brasil.

Em 2012, o ex-presidente da AFA, Julio Grondona, e o da CBF, Ricardo Teixeira, cometeram o mesmo absurdo mas lucrativo erro. Pensaram apenas no dinheiro.

Nos 2 milhões de dólares a cada partida. Na AFA e na CBF.

E venderam dez anos de amistosos às empresas Pitch International e ISE. Uma inglesa e a outra, árabe. Elas escolheram os amistosos mais lucrativos para elas, na última década. A esmagadora maioria de nível técnico baixíssimo.

Daí a ilusão da Argentina com sua invencibilidade. E também o altíssimo aproveitamento de Tite, 81% com a seleção brasileira.

Lionel Messi, seis vezes o melhor do mundo, não é nem mais sombra do jogador que foi, por exemplo, há dez anos.

Sua técnica apurada faz com que seu desempenho seja supervalorizado, ao lado de Messi e Neymar.

Só que a seleção de seu país depende dele. Não só no futebol, mas psicologicamente. Há a necessidade de personalizar no camisa 10 o jogador que conduzirá a Argentina à reconquista do Mundial, desde 1986.

Quase a reencarnação de Maradona.

Mas, carente de confrontos importantes na sua preparação para a Copa, o time de Scaloni acreditou que teria uma partida fácil contra os árabes. Só que o francês Hervé Renard faz um trabalho muito sério desde 2019.

Conseguiu fazer dos atletas que atuam no seu país um time às antigas. Muito ligado à sua torcida, à população. Eles jogam no mundo árabe.

Em formação moderna, com linha de cinco, com quatro jogadores no meio-campo. E um no ataque. 

Messi tentou, correu, ensaiou dribles. Mas os 35 anos e os fracos companheiros pesaram

Messi tentou, correu, ensaiou dribles. Mas os 35 anos e os fracos companheiros pesaram

Reprodução/Twitter

A Argentina entrou em campo com um despreocupado 4-3-3.

E até começou bem demais o jogo, com Lionel Messi cobrando pênalti discutível em Paredes. Para ilusão dos argentinos, eles marcaram mais três gols na primeira etapa. Todos impedidos.

A Arábia Saudita entrou com medo demais do rival, de Messi.

No segundo tempo, os árabes adiantaram suas linhas e perceberam que o time de Scaloni tinha falhas gritantes na sua defesa.

E Al-Shehri fez o que quis de Romero e bateu cruzado, sem chance de defesa para Martínez. 1 a 1, aos cinco minutos. Os argentinos ainda mantinham a postura arrogante taticamente, dando espaço para os árabes.

Eles aproveitaram. 

Al-Dawsari dominou a bola na entrada da área, driblou dois argentinos e, quando seus companheiros gritavam, pedindo o passe, ele bateu forte para o gol. Martínez raspou a mão esquerda na bola. Mas ela entrou. 2 a 1, Arábia Saudita.

Os argentinos ficaram desnorteados.

Todos os olhos se voltaram para Messi, cobrando uma resposta.

Mas ela não veio.

Por conta da fortíssima marcação, impulsionada pela vontade inacreditável de vencer um rival com muito mais talento. 

René recuou outra vez suas linhas.

E a Argentina não tinha em Messi seu maestro. 

O sonho desmoronava.

O time de Scaloni passou à estratégia constrangedora de levantar bolas para a área. O que só facilitou a vida dos zagueiros árabes. E do ansioso goleiro Al-Owais.

No final, quando o árbitro Slavko Vincic apitou o fim da partida, veio o choque de realidade para os argentinos.

A vitória da Arábia Saudita não foi casual.

Há muito mais profundidade nessa derrota do que qualificá-la apenas como zebra.

A Argentina cometeu enormes erros na sua preparação.

E muitos deles foram feitos também pelo Brasil.

Esse é o grande perigo...

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