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Silvio Lancellotti Copa 2018
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Memórias da Copa 5: nada em 74 e em 78, mas muita tristeza em 82

Longe das competições da Alemanha e da Argentina, um álbum de fascículos para a Espanha, e o debate com Telê, Luizinho ou Edinho na defesa

Silvio Lancellotti|Do R7

Taça Fifa, Carlos Alberto Torres
Taça Fifa, Carlos Alberto Torres Taça Fifa, Carlos Alberto Torres

Serei cruelmente sintético a respeito da Alemanha/74 e da Argentina/78. Explico as razões, porém. Em 74, logo depois de retornar de um período sabático em Stanford, na Califórnia, havia assumido Artes & Espetáculos, em “Veja”, bem longe do Futebol. Em 78, com Mino Carta na Itália e Tão Gomes Pinto em Buenos Aires, assumi a direção da “IstoÉ”, interinamente, e escoltado por Clóvis Rossi, aquele que é grande em dobro, no tamanho e na competência profissional. Conceitualmente optamos por textos de viés político, as relações entre o Esporte e uma Ditadura que findava, aqui, e a outra, em pleno apogeu, que se locupletava dos sucessos da sua seleção. Não me entusiasmei muito com a Taça Fifa que substituiu a Jules Rimet que o Brasil havia abiscoitado de vez no torneio do México, em 1970.

Três anos depois, todavia, a minha perspectiva mudou. Eu havia me transformado em responsável pela área de “Projetos Especiais” da empresa que publicava “IstoÉ”, que então necessitava de um salto na sua tiragem e nas suas assinaturas. Num papo com Armando Salem, velho amigo e o factótum da empresa, brotou a ideia de uma série de fascículos com a História dos Mundiais. Eu já dispunha, em casa, de uma providencial bibliografia e também pude contar com o apoio de Mauro Pinheiro, o brilhante comentarista de rádio que me escancarou as suas prateleiras, do meu filho Eduardo, que organizava os meus arquivos, e do pesquisador Rubens Tavares Aidar, um inesgotável colecionador de revistas estrangeiras.

Argentina comemora a polêmica Copa de 1978
Argentina comemora a polêmica Copa de 1978 Argentina comemora a polêmica Copa de 1978

Sem vanglória, assevero que fizemos um trabalho digno de premiações. Havia de tudo naquela série. Da infância do jogo de bola, do alvorecer da FIFA e da concepção da Copa, ao desenvolvimento dos sistemas táticos. Daí, cada edição, do Uruguai/30 à Argentina/78. Mais um passeio pela antologia do Futebol no Brasil, da seleção inaugural ao time de Telê. O caminho dos 22 países classificados à competição da Espanha, mais a Argentina detentora e a dona da casa. A história do ludopédio em todos, mais os seus campeonatos locais e a lista dos seus ganhadores, e a relação dos seus convocáveis. Tudo bem enriquecido por fotos e por grafismos, por tabelas e por estatísticas.

O álbum dos fascículos de "IstoÉ"
O álbum dos fascículos de "IstoÉ" O álbum dos fascículos de "IstoÉ"

Funcionou admiravelmente a ideia dos fascículos. Consta que a série ajudou que disparassem a tiragem e o volume de assinaturas da “Istoè”. Telê Santana, o então treinador da seleção do Brasil, compareceu à festa de lançamento na Churrascaria Rodeio, concedeu uma entrevista a mim e ao Alberto Helena Jr., no “Show da Noite” da Record, e até me pediu que passasse a municiá-lo com o máximo de informações a respeito dos seus adversários eventuais. Já na sua bagagem ele carregou consigo um robusto catatau de dados sobre os três rivais da etapa de grupos, a União Soviética, a Escócia e a Nova Zelândia. E depois, na fase subsequente, também sobre a Argentina e a Itália.

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Sócrates, Telê e Zico, na Espanha/82
Sócrates, Telê e Zico, na Espanha/82 Sócrates, Telê e Zico, na Espanha/82

Até o dia fatídico de 5 de Julho, quando a “Azzurra” de Enzo Bearzot sobrepujou a “Canarinho” de Telê por 3 X 2, no Sarriá de Barcelona, o time do mineiro de Itabirito havia despachado todos os inimigos, sempre, de maneira vistosa, 13 tentos a favor e 3 contra. Do outro lado, mal e porcamente a Itália tinha se qualificado em sua chave, 3 empates, 2 tentos a favor e 2 contra, 3 pontinhos como Camarões, só que o representante africano realizara um único gol e se despediu invicto. O Brasil havia batido a Argentina por 3 X 1. A Itália, por 2 X 1. Consequência: pelo mesmo critério dos tentos, a Telê bastaria qualquer igualdade contra Bearzot para atingir uma semifinal.

Bearzot e o Presidente Sandro Pertini
Bearzot e o Presidente Sandro Pertini Bearzot e o Presidente Sandro Pertini

Com o tato possível, eu sugeri a Telê que substituísse o zagueiro Luizinho, do Atlético Mineiro, por Edinho, da Udinese da Bota. E ele retrucou, irritadíssimo: “Desde quando você vê partidas do Brasil? Pois saiba que desde o jogo contra o Eire ele não faz nenhuma falta!” O time de Telê havia enfrentado o Eire em Uberlândia, no dia 27 de Maio, o derradeiro amistoso antes da Copa. Eu ainda tentei argumentar. Na “Azzurra” claudicante, um certo Pablito Rossi estava prestes a explodir como o artilheiro que era. No Calcio, pela sua solidez, a sua capacidade de se antecipar aos avantes, o reserva Edinho provinha de um campeonato impecável. Pena. Telê não confiou.

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Luizinho
Luizinho Luizinho

Não foi Toninho Cerezo o culpado exclusivo pela derrota do Sarriá. Reexamine os teipes dos três tentos do Pablito. No primeiro, Antonio Cabrini cruza precisamente sobre o cocuruto de Luizinho, que nem se move enquanto Rossi vôa às suas costas e fulmina, de testa. No segundo, vá lá, Cerezo comete o erro de um fraldinha e ousa um passe horizontal, paralelo à linha da área. Sim, a pelota supera o atraso de Falcão mas, ao invés de uma dividida, Luizinho tenta um carrinho ridículo e permite que Rossi arremate. No terceiro, sim, Cerezo produz um escanteio infantil. O levantamento, porém, na ida e na rebatida, de novo viaja mansamente acima de Luizinho, que depois nem se mexe para impedir que o Pablito desfira o arremate fatal.

Pablito, entre Júnior e o mero olhar de Luzinho
Pablito, entre Júnior e o mero olhar de Luzinho Pablito, entre Júnior e o mero olhar de Luzinho

Obviamente eu não me considero o patriarca da verdade e nem ousarei asseverar que, com Edinho, talvez o Brasil não sucumbisse à Itália no Sarriá. Porém, especulo. No primeiro lance, mais acostumado ao estilo das bolas alçadas do Calcio, com certeza Edinho teria pulado e, no mínimo, roçado na pelota levantada por Cabrini. No segundo, ora, uma simples cutucada de dedo serviria para desequilibrar o atacante. No terceiro, com certeza, Edinho teria pulado etcetera etcetera etcetera. Telê costumava afirmar: “Se for pra mandar o meu time matar a jogada ou dar pontapé no adversário eu prefiro perder o jogo”. Pois o seu delicioso esquadrão tombou na esquina da glória.

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Um mimo, um consolo
Um mimo, um consolo Um mimo, um consolo

Confesso que eu me frustrei amargamente pelo fracasso daquela geração magnífica, mas também porque o meu álbum de fascículos não se completaria com o exemplar extra, celebrativo da conquista da Copa pelo Brasil. Mas, acabei por me consolar com o abrigo da seleção que ganhei do Zico, com a devida dedicatória. E com um presente que me propiciou um saudoso irmão de vida, Leonardo Regazzoni, que viajou da Espanha à Bota no aeroplano da delegação da “Azzurra” e me obteve uma bandeira da Itália com os autógrafos de todos os atletas, membros da Comissão Técnica e até de Sandro Pertini, o fantástico Presidente da República que encantou o mundo ao torcer abertamente por sua “Squadra” na tribuna de honra do Bernabéu de Madrid, ao lado do atônito e perplexo Rei Juan Carlos.

PS: No capítulo subsequente, a estranha experiência de cobrir a Copa de 86 à distância, no backup, aqui do Brasil, textos na “Folha” e comentários na Band.

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