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Silvio Lancellotti Copa 2018
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Memórias da Copa 3: o gol de Clodoaldo e a camisa que ganhei

Guadalajara, Brasil 3 X 1 Uruguai, tensão e superstição: a roupa que ninguém trocava e o sumiço do distintivo de lapela com a bicicleta do Pelé.

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

O ingresso de Brasil 3 X Uruguai 1
O ingresso de Brasil 3 X Uruguai 1 O ingresso de Brasil 3 X Uruguai 1

Manhã ensolarada de 9 de Junho em Guadalajara. No refeitório do Clube Providência, José de Almeida, o factótum da delegação do Brasil, orienta a montagem das mesas para o almoço dos atletas e da Comissão Técnica da seleção. Véspera do jogo contra a Romênia, na fase de grupos da Copa do México/70, naquela data não haveria a tradicional “janela”, a entrada dos jornalistas para um papo informal na concentração. De todo modo, através das grades de um portão de ferro eu examino o interior e aguardo a aparição de Clodolado Tavares de Santana, o “Corró”, o sergipano de Itabaiana, vinte anos de idade, médio-volante do Santos e da seleção de Zagallo.

Clodoaldo, o sergipano "Corró"
Clodoaldo, o sergipano "Corró" Clodoaldo, o sergipano "Corró"

Excessivamente tímido, apesar da sua titularidade ao lado de astros mais famosos como Gérson, Tostão, Rivellino e, claro, Pelé, ainda em Guanajuato ele havia feito um trato comigo. Na época o “Corró” namorava Clery, uma jovem de Santos, com quem se casaria e de quem permanece um ótimo marido até hoje. Escrevia cartas atrás de cartas, me pediu que as infiltrasse no malote aéreo da Editora Abril e, como presente, caso viesse a marcar um gol na Copa, me daria a sua camisa respectiva. Trato unilateral, aquele. Eu sabia que, no seu curto percurso na seleção, o “Corró” só tinha anotado dois tentos, em partidas insignificantes: em 9 de Julho de 69, nos 8 X 2 diante de um catadão de semiprofissionais de Aracaju, e no 6 de Maio anterior, 3 X 0 num treino com um combinado rastaquera de Guadalajara.

O lance do gol, num poster da "Placar"
O lance do gol, num poster da "Placar" O lance do gol, num poster da "Placar"

Não me aborreci com tão suposta desvantagem. Outros atletas de clubes paulistas, Leão, Zé Maria, Baldocchi e Ado, recorriam à minha ajuda. Carlos Alberto Torres, o “Capita”, ao constatar que eu usava uma máquina igual, me passou a dele, para que eu pudesse fotografá-lo em ação. Fique bem explicitado que eu topava a função de pombo-correio por solidariedade mas, também, por um motivo acessório. Um dos caçulas da mídia no México, dificilmente eu obtinha a chance de uma exclusiva com os medalhões. Auxiliar os menos celebrados me concedia a possibilidade de informações muito interessantes. Eventualmente, do tipo que todos almejávamos.

O "Papagaio"" e o "Bigode": desfalques contra a Romênia
O "Papagaio"" e o "Bigode": desfalques contra a Romênia O "Papagaio"" e o "Bigode": desfalques contra a Romênia

Pois naquela manhã, ao me entregar as suas missivas, o “Corró” me revelou o time que pegaria a Romênia. Não que me valesse um furo de reportagem. Eu trabalhava para “Veja”, semanal. Mas, pude me orgulhar de, ao retornar ao Hotel Morales para mais uma refeiçãozinha de queso e médio melón, espalhar a escalação que nem os veteranos Michel Laurence e José Maria de Aquino, nem Aymoré Moreira, o treinador campeão no Chile, em 62, frequentador do Providência para a fisioterapia na mão ferida na moenda de cana do seu sítio de Taubaté, sequer fantasiavam. Não entraria em cena metade do eixo de armação do Brasil: os lesionados Gérson "Papagaio" e o Rivellino "Bigode".

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O álbum de figurinhas do México 70, no original italiano
O álbum de figurinhas do México 70, no original italiano O álbum de figurinhas do México 70, no original italiano

Com a petulância de um jejuno subitamente promovido a dono-da-verdade, pontifiquei: “Félix, Carlos Alberto, Brito, Fontana, Everaldo, Piazza, Clodoaldo, Paulo César, Jairzinho, Tostão, Pelé. Desfalques sérios, o Gérson e o Riva...” Ao que o Aymoré, paternalmente, me ironizou: “Que é isso, garoto? Que outra seleção, nesta Copa, tem um reserva como o Paulo César? E que outra seleção tem Jairzinho, Tostão e Pelé?” De fato, o resultado de 3 X 2 não definiu o que foi a superioridade do Brasil contra a Romênia. E o “Papagaio” e o “Bigode”, felizmente, retornariam diante do Peru, nas fase das quartas-de-final, resultado de 4 X 2, também com razoável tranquilidade. Consequência: na semi de 17 de Junho, o Brasil enfrentaria o Uruguai.

Os capitães, Ubiñas e Carlos Alberto
Os capitães, Ubiñas e Carlos Alberto Os capitães, Ubiñas e Carlos Alberto

Quase que exatamente três décadas depois, nos dias que antecederam o duelo do Jalisco não se discutiu um outro assunto além do “Maracanazo” de 16 de Julho de 1950. A “Celeste” havia se qualificado em um grupo intrincado com a Itália, a Suécia e Israel. Depois, havia suplantado a União Soviética, nas quartas, graças a um gol do reserva Espárrago, na prorrogação, aos 117’. Não parecia ser um espantalho capaz de escantear Zagallo & Cia. da decisão. E no entanto, aos 19’, num lance bizarro de Cubilla, saiu à frente, 1 X 0. O Zé Maria, o Aymoré e eu nos olhamos e nos checamos. Sim, os três nas roupas de praxe. Então, num lampejo, eu me lembrei de um outro amuleto.

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A bicicleta que visrou distintivo e brinde
A bicicleta que visrou distintivo e brinde A bicicleta que visrou distintivo e brinde

Ganhara do Pelé um maravilhoso distintivo de lapela em enamel azulado e mais um contorno em ouro, a celebrada efígie do “Rei” em plena bicicleta, flagrada numa foto de antologia por Alberto Ferreira do “Jornal do Brasil” – o Alberto, aliás, presente em Guadalajara. Podia trocar de camisa mas não abdicava do distintivo pregado ao meu colarinho. Percebi que o Pelé sumira. Sim, eu precisava achá-lo ou o Uruguai destruiria o Brasil. Procurei pelo chão, nas escadarias, nos corredores, no banheiro, até que subitamente me estalou um eureka. Junto a uma máquina de refrigerantes eu tinha escorregado e caído no carpete. Corri até a máquina, achei o amuleto e me reabolotei em meu posto na tribuna. Eram os 42’ da duríssima etapa inicial.

A celebração, Clodoaldo e Tostão
A celebração, Clodoaldo e Tostão A celebração, Clodoaldo e Tostão

Logo depois, aos 44’, Everaldo tocou a Clodoaldo que tocou a Tostão, quase na lateral canhota do gramado. Tostão avançou alguns passos e de esquerda, devolveu ao “Corró” que invadia o miolo da defesa do Uruguai. Com o peito do pé, de destra, o rapaz sergipano, que envergava a amarelinha que seria minha, decretou o empate, 1 X 1. No segundo tempo Jairzinho viraria, aos 76’, e Rivellino triplicaria, aos 89’. Pelé ainda desferiu um drible de corpo fenomenal em Mazurkiewicz mas empurrou a pelota a milímetros fora da meta. Desci aos vestiários, na porta cruzei com o Corró que me entregou o presente. Cujo eu vesti lá mesmo, emesmo molhado, mais um talismã. Um mimo que me passou a segurança de que o Brasil arrebataria definitivamente a Jules Rimet na minha primeira Copa como repórter.

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PS: No próximo capítulo, a vigília na Cidade do México, a descoberta de La Pèrgola, a chuva que poderia ajudar a “Squadra Azzurra” e o retorno atribulado ao Brasil.

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