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Silvio Lancellotti Copa 2018
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Memorias da Copa - 1, México/70: a primeira delas ninguém esquece

Trinta dias em Guanajuato, 3.000 de altutude, na preparação da seleção de Zagallo. Muito trabalho, comida ruim, e um tiroteio no hotel dos jornalistas.

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Guanajuato, o Cierro de las Ranas
Guanajuato, o Cierro de las Ranas Guanajuato, o Cierro de las Ranas

Estava escrito. Numa disputa de palitinho, eu literalmente conquistei o mimoso privilégio de cobrir ao vivo a minha primeira Copa do Mundo, no México/70. Corria o mês de Abril, nome da editora para quem eu então trabalhava, na “Veja”, como editor-assistente. Fora estabelecido que a revista enviaria cinco profissionais ao Altiplano, quatro no texto e um nas imagens. Então, determinada semana, a falta de um patrocinador cortou dois e a editora decidiu acumular, num time só, os remanescentes da “Veja” e os já definidos da recém-fundada “Placar”. Sobramos, lá da “Veja”, Tim Teixeira, naturalmente, porque era o responsável por “Esportes”, Armando Salem e eu. Só que, dias antes do embarque, os nossos passaportes já visados e as passagens reservadas, a Abril podou mais um. E Mino Carta, o diretor da “Veja”, resolveu salomonicamente. Salem e eu brigaríamos pela vaga no paltinho. Numa melhor-de-três. E eu, sortudo, venci.

A cidade, ao entardecer
A cidade, ao entardecer A cidade, ao entardecer

Mal conheci a capital, a Ciudad de México. Do aeroporto mesmo, em dois carros pré-alugados, a equipe conjunta rumou a Guanajuato, quase 350 quilômetros de distância. Relíquia pré-colombiana, então com 32.000 habitantes, incrustada nas colinas do Cerro de Las Ranas, ou o Sítio das Rãs, Guanajuato se localiza numa altitude de 3.180 metros e a Comissão Técnica da seleção a havia adotado, como sua base de treinamentos, exatamente para facilitar a adaptação dos jogadores ao ar rarefeito do país. Hoje se sabe que, de fato, fisicamente, a equipe do Brasil voou na Copa de 70. Quando cheguei a Guanajuato, aliás, Zagallo & Cia. já colecionavam duas semanas da tal adaptação. Os meus colegas e eu, todavia, padecemos bastante até nos acostumarmos à falta de oxigênio e de umidade. Do sangramento das narinas às tonturas no subir escadas, rampas, colinas etceteras.

Um detalhe do Museu das Múmias
Um detalhe do Museu das Múmias Um detalhe do Museu das Múmias

Outros tempos, outro calendário, para o Futebol e para a Mídia. Fiquei quase um mês em Guanajuato, um lugar tão seco que as roupas lavadas se desidratam em um par de horas e uma das atrações é o Museu das Múmias, com centenas de corpos preservados, inclusive sem o sepultamento. Talvez, no desenrolar das suas carreiras, os jogadores do Brasil não tenham atingido uma forma tão exuberante como naquela sua estada na região. Claro, porém, que igualmente se multiplicaram as contrapartidas incômodas. Cidadezinha celebrada também pela ótima qualidade da sua Universidade, Guanajuato vivia o seu período de férias escolares. Não existiam diversões, nem restaurantes. A embaixada do Brasil ainda organizou um show de Bossa Nova no único teatro acessível. Restavam apenas os melancólicos passeios pelas ruas subterrâneas que se emaranhavam sobre leitos de rios extintos.

As ruas, nos leitos dos rios subterrâneos
As ruas, nos leitos dos rios subterrâneos As ruas, nos leitos dos rios subterrâneos

Abrigados no Castillo de Santa Cecília, gigantesco hotel que ocupa uma fortificação de 1686 e que tranquilamente serviria de cenário para um filme de terror e de vampiros, aos jornalistas cabia uma rotina monocórdica. Desjejum com queso e médio melón. Almoço com queso e médio melón. Jantar com queso e médio melón. Sim, pois logo se mostaram intragáveis a sopa de frango, o ensopado de frango, o assado de frango, o correlato de frango. O velho Aymoré Moreira, treinador do Brasil bicampeão na Copa do Chile/1962, que integrava como comentarista a nossa tropa, descobriu um boteco que oferecia hamburguesas, aliás, preciosas. Comprávamos às pencas. No intervalo da manhã, frequentávamos a “janela” da seleção, hospedada no mais bucólico Parador San Javier. À tarde, víamos os exercícios com bola. Na “janela” e na tarde colhíamos as informações e tirávamos as fotografias. Para “Veja”, que descartara um especialista, eu me desdobrava nas funções.

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Castillo de Santa Cecília, o hotel dos jornalistas
Castillo de Santa Cecília, o hotel dos jornalistas Castillo de Santa Cecília, o hotel dos jornalistas

Os textos nós transmitíamos, via teletipo, num aparelho colocado, por encomenda da Abril, num apartamento do grupo no Castillo. Datilografar num teletipo arruína os dedos. E eu me obrigava a enrolar as unhas com tiras de esparadrapo, à maneira dos voleibolistas. Para os filmes com as fotos, formávamos um pool. Enfiávamos os rolos num malote e, a cada dia, um da turma assumia a direção de um veículo hidramático e viajava 65 quilômetros até León, onde havia uma agência de uma empresa aérea com quem a Abril mantinha convênio. De contrabando, no malote, também enfiávamos cartas e cartões postais, nossos ou dos jogadores, cujos, em São Paulo, o saudoso Ulysses Alves de Souza se encarregava de distribuir.

Treino físico: em primeiro plano, Rivellino e Ado
Treino físico: em primeiro plano, Rivellino e Ado Treino físico: em primeiro plano, Rivellino e Ado

Pois é. Naqueles idos sem Internet, “redes sociais” ou câmeras eletrônicas, não era nada fácil cobrir uma Copa. Missão que, até, redundava em constrangimentos. Além da credencial oficial da FIFA, para o acesso à “janela” do San Javier a delegação do Brasil exigia uma identificação suplementar, fornecida por um batalhão de seguranças sob o comando do Major Roberto Ipiranga dos Guaranys, um ex-paraquedista que havia participado de um plano malévolo destinado a explodir o Gasômetro e outros logradouros do Rio, e então, na esteira do terror que se disseminaria, eliminar quarenta personagens cruciais da política de oposição à Ditadura Militar do General Emílio Médici. O País atravessava um momento de implacável repressão. Naqueles idos ocorreu o sequestro, no Rio, de Ludwig Von Holleben, embaixador da Alemanha. Ainda que gentil no trato, o major não dispensava um destruidor aperto de mão, emoldurado por um sorriso gelado.

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A capa do "Jornal do Brasil"
A capa do "Jornal do Brasil" A capa do "Jornal do Brasil"

Era ainda uma missão que podia redundar em perigos de origem insólita. Empenhada em promover largamente o lançamento de “Placar”, a Abril havia colado, na capa do primeiro número, uma espécie de moedinha com a efígie de Pelé. Outro saudoso, Cláudio de Souza, da cúpula da editora, forneceu a cada um dos seus jornalistas daquela Copa uma sacola repleta de tais bijus que nós doávamos a quem solicitasse. O Castillo tinha uma boate na qual uma bandinha mais se divertia do que entoava, Certa noite, na véspera de nos mudarmos, com a seleção, a Guadalajara, encerramos o milionésimo campeonato de buraco e uns doze de nós, entre a opção da cama ou de um novelão na TV do salão, escolhemos visitar a boate. Outros perdidos se juntavam ao redor de latinhas de cerveja. Numa mesa redonda, três homens soturnos e seis mulheres ruidosas bebiam tequila.

Mulheres ruidosas em Guanajuato?

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A moedinha, na capa da "Placar"
A moedinha, na capa da "Placar" A moedinha, na capa da "Placar"

Um garçom nos advertiu. Que tomássemos cuidado. Os homens provinham de Irapuato, se destacavam pela fama de violentos. Do grupo, apenas uma das mulheres morava na região, era a dona do único lupanar de Guanajuato. E nós esquecemos o caso. Até que, subitamente, um colega, negro como Pelé, entrou na boate e a dona do rendezvous se alçou aos berros: “Foi ele! Foi ele!” Imediatamente os homens também se levantaram, e de pistolas em punho. O colega intuiu o que logo sucederia e zuniu em retirada enquanto os homens disparavam. Reflexo coletivo, quase todos os presentes à tal da boate nos arremessamos ao chão e debaixo dos móveis. Dez minutos absurdos.

A moedinha com a efígie do "Rei"
A moedinha com a efígie do "Rei" A moedinha com a efígie do "Rei"

Inacreditavelmente as duas solitárias viaturas da polícia de Guanajuato despontaram e detiveram os violentos. E o mistério da razão do entrevero se desfez quando o colega ressurgiu em busca dos indispensáveis goles relaxantes. Funcionário de uma outra empresa, contou que havia achado, esquecida num canto, uma sacola com a efigie do “Rei” e que pretendia devolvê-la. Mas, numa noite anterior, ao passar diante do lupanar e ver a luz acesa, resolveu se empavonar. Inventou que era um mano do Pelé, usou todos os atributos da dama e pagou com o conteúdo da sacola.

A seleção de 70, com a sua Comissão Técnica
A seleção de 70, com a sua Comissão Técnica A seleção de 70, com a sua Comissão Técnica

Pouco depois um comissário da polícia foi ao Castillo verificar se ninguém havia se ferido. E nos costurou o restante da história. Ao entender que tudo aquilo que enchia a sacola não valia nem seu peso, a madame pediu socorro aos três homens, leões-de-chácara em Irapuato. E os violentos rumaram a Guanajuato com a intenção de pregar um susto no malandro. Acabaram por aterrorizar também uns trinta, quarenta transeuntes. Felizmente, na tarde seguinte nos transferimos, todos incólumes, a Guadalajara.

PS: No próximo Capítulo destas “Memórias”, eu falarei sobre as jornadas com a seleção já em Guadalajara, rumo ao Tri.

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