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Silvio Lancellotti Copa 2018
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Memórias 8: na Itália/90, Maradona, a Ferrari sumida e o ódio pela FIFA

 Mesmo com um tornozelo inchado como um "melón", que eu media com uma fita métrica, ele conduziu a Argentina até uma decisão explosiva

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

A final entre Alemanha x Argentina
A final entre Alemanha x Argentina A final entre Alemanha x Argentina (Simon Bruty/Getty Images)

Foi peculiaríssima a odisseia dos jornalistas brasileiros, os da escrita, os da fotografia e os do microfone, que se dedicaram à cobertura da Copa de 90, na Itália. Imagine você que o último cotejo do dia se acabava em torno das 23h00 de lá, ainda 18h00 no Brasil. Na teoria, eu tinha que esticar ao máximo a minha jornada de trabalho, até para acompanhar o ritmo do fechamento da “Folha”, o periódico que me enviara ao Mundial. Sem problemas, pois sou um madrugadófilo. Só que na manhã seguinte de lá, por volta das sete, eu precisava estar de pé, já de banho tomado, na direção de uma Lancia Delta, ora em busca da concentração da Itália, em Marino, a cerca de 35k no rumo sudoeste, ou da concentração da Argentina, em Trigoria, idem no rumo do sudeste. Por um tempo eu só me alimentei de sanduíches de atum.

Com Luciano do Valle, no seu jantar de 43 anos
Com Luciano do Valle, no seu jantar de 43 anos Com Luciano do Valle, no seu jantar de 43 anos

Na competição da Bota eu me dediquei exclusivamente à “Folha”, embora também fosse um comentarista da Band. Tão exclusivamente que só uma vez eu topei um convite do saudoso Luciano do Valle, em 4 de Julho, para, logo depois da semifinal em que a Alemanha havia superado a Inglaterra na disputa de penais, comparecer ao ristorante Santopadre e festejar os seus 43 anos num jantar preparado por outro saudoso, Giovanni Bruno. De certa maneira, a Band havia fretado o Santopadre e lá a sua brigada comia o que o Giovà criava. Antes do dia 4, fome. Até, felizmente, o dia 10 de Junho.

Diante de um dos telões do Gaetano Scirea, o galpão que abrigava o Centro de Imprensa, enquanto a seleção de Sebastião Lazaroni penava para suplantar a da Suécia por 2 X 1, cruzei com Sylvio Guedes, um colega de Brasília, e com ele me animei a procurar um lugar que ficasse aberto em Roma após a voz do Pavarotti, com “Nessun Dorma”, anunciar que em minutos se apagariam todas as luzes do Scirea e, inclusive, do seu estacionamento contíguo.

Com o Xará e outro colega, Luciano Borges, na porta do Action Blu
Com o Xará e outro colega, Luciano Borges, na porta do Action Blu Com o Xará e outro colega, Luciano Borges, na porta do Action Blu

O Xará e eu descobrimos um espaçozinho delicioso no bairro boêmio do Trastevere. Apesar do nome, Action Blu, mistura de pizzas e macarronadas. Em menos de uma semana nós já tínhamos a nossa mesinha cativa, na qual ninguém mais se aboletava. Ficamos amigos do Marco Forte, o chefe-de-cozinha, e do Tullio Gervasoni, que cuidava do forno. Tão amigos que, numa rara noite de folga, eu perpetrei um legítimo Picadinho em honra da freguesia mais fiel. Então, com o Xará testemunhei, nos mesmos telões, a queda do Brasil diante da Argentina, 0 X 1, ainda nas oitavas da Copa.

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Os únicos brasiliani na multidão que preenchia o Scirea, claro que nos tornamos os alvos primaciais de entrevistas. Eu, inclusive, topei participar de um programeto ao vivo da Cubavisión. E detonei a CBF e Ricardo Teixeira, esculhambei o sistema ridículo, montado por Sebastião Lazaroni, que obrigava Careca e Muller a jogarem de costas para a meta do inimigo e que mantinha Romário na reserva. Ao se encerar o papo o seu âncora me agradeceu com uma frase nada trivial “O Comandante Fidel envia sus saludos a Brasil”. É. E eu jamais saberei se aquela despedida não passou de uma formalidade meramente simpática, corriqueira e cubanamente protocolar.

Teixeira e Lazaroni, na apresentação do treinador
Teixeira e Lazaroni, na apresentação do treinador Teixeira e Lazaroni, na apresentação do treinador

Fã público de Fidel e de Cuba, o “Pibe” Maradona foi um dos personagens que mais concentraram a minha atenção na Copa da Bota. Eu já o conhecia dos idos do Napoli e ele não me encarava como um brasileño que merecesse a desconfiança ou o repúdio. Conversávamos em italiano e isso, de certa maneira, o tranquilizava. Havia torcido o tornozelo direito e até me permitia, bem-humoradamente, que usasse uma fita de costureiro para medir o diâmetro, como ele mesmo ironizava, do seu “melón”. Determinada mattinata, desapareceu uma das Ferraris, com placa NA de Napoli, que havia guardado em Trigória. Furibundo, responsabilizou os porteiros do lugar e quase espancou os coitados. Até que carabinieri interceptassem a máquina, num posto de gasolina, dirigida pelo seu próprio irmão, Hugo.

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A Ferrari que o mano Hugo surrupiou
A Ferrari que o mano Hugo surrupiou A Ferrari que o mano Hugo surrupiou

Diego mesmo me ajudou a reconstruir todo o episódio. E, quando a Argentina caiu na decisão diante da Alemanha, 0 X 1, num acesso de raiva, diante da tribuna da FIFA, tonitruantemente xingou João Havelange, num episódio que produziria consequências na Copa dos EUA em 94. Ainda assim, permitiu que eu subisse, como clandestino, no ônibus da sua delegação e me concedeu uma pungente entrevista ambulante, que se tornaria destaque na “Folha” pós-competição. Indiretamente, também coube ao “Pibe” me produzir a pior sensação que me assolou na Itália/90. Em 2 de Julho, na mesma já famosa Lancia Delta, com o Xará, desci de Roma a Nápoles, para a semi que a Bota nunca olvidará. Claro, foi delicioso revisitar o incrível Castel dell’Ovo, erigido nos meados do Século V, onde a FIFA instalou a sua subsede e o Centro de Imprensa local. E foi delicioso saborear as pizzas da Cirò, logo ao lado, e as vongole do Gabbiano, bem à frente. Mas, porém, todavia, contudo...

O Castel Dell'Ovo, sede da Mídia em Nápoles
O Castel Dell'Ovo, sede da Mídia em Nápoles O Castel Dell'Ovo, sede da Mídia em Nápoles

Porque o nosso hotel ficava longe do Castel e mais ainda do Stadio San Paolo, deixei a Lancia na garagem e optei por um táxi. O Sylvio Guedes seguramente se lembrará do susto que levamos quando, numa troca inconsequente de palavras, o motorista, nativo da cidade, desembestou a falar mal da “Azzurra”, do seu treinador Azeglio Vicini e de tudo que, na Itália, se localizava ao norte da Campânia, a região em que Nápoles se situa. Na tarde da peleja, como de hábito, cheguei cedo ao estádio, antes mesmo de seus portões se abrirem aos espectadores. Gosto de reconhecer a minha posição nas arquibancadas da Mídia, verificar as conexões elétricas do monitor de TV e do micro que os organizadores fornecem aos jornalistas. E me choquei ao ver que torcedores do Napoli espalhavam faixas de apoio a Maradona e de desdém absurdo, radical, pela sua “Azzurra”, a seleção do que seria, eu supunha, a sua pátria.

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Os carabinieri recolheram todas as imprecações antes de a pugna principiar. Os tifosi ao menos respeitaram o Hino da Itália e, depois do apito inicial de Michel Vautrot, o árbitro francês, paulatinamente transferiram o seu prazer à seleção da pátria. Explodiram aos 17’, com o tento de Totó Schillaci, um meridional siciliano. E permaneceram calados quando, numa falha patética do arqueiro Walter Zenga, o esperto Caniggia, quase de dorso para a meta, e praticamente de nuca, fez 1 X 1. Daí, mesmo contra uma equipe dizimada fisicamente, Vicini arruinou o que ainda havia de chances de a “Azzurra” vencer. Aos 70’, tirou o ágil Vialli e colocou no prélio o estático Serena. E só aos 73’ lançou na arena Roberto Baggio, o mais brilhante dos seus avantes, tolamente ignorado. Na loteria dos penais o arqueiro Goycochea conduziu a Argentina ao triunfo. Ele que começara a Copa na suplência de Pumpido.

Vinte anos depois do seu fulgor no México, de retorno ao nada o Brasil do meu passaporte e dos meus filhos. A “Azzurra” dos meus ancestrais, que havia me consolado na Espanha/82 e que, agora, descartado o time pífio do Lazaroni, por qual era dificílimo torcer, tinha me animado com a possibilidade de um novo sucesso e de um novo lenitivo, também a “Azzurra” na rota do nada. Profissional que nunca deixei de ser, voltei a Roma e a Trigória e à fita métrica no tornozelo de Maradona e aos repastozinhos tardios no Action Blu. E me controlei para não exagerar no sal e screver que a decisão de 8 de Julho no Olímpico fora grotescamente ruim, Alemanha 1 X 0 na Argentina, Brehme, aos 83’, num pênalti nebuloso, apontado por Edgardo Codesal, mexicano, genro de Guillermo Cañedo, um parceirão de João Havelange.

Fracionada por lesões e por excesso de cartões amarelos, suspenso Caniggia, a Argentina que disputou a final só entrou em ação com sete remanescentes do San Paolo. E Codesal ainda não marcou um pênalti muito mais claro de Klaus Augenthaler em Gustavo Dezotti e expulsou de campo Dezotti e Pedro Monzón. Na cerimônia de entrega da taça a Lothar Matthaeus, o ensandecido Maradona liderou um coro de vitupérios sobre as mães dos cartolas da FIFA. O rumor do estádio evitou que Havelange & Cia. escutassem o refrão. Mas, não foi necessário ser um leitor de lábios para traduzir as imagens da TV.

Um "Pibe" em fúria
Um "Pibe" em fúria Um "Pibe" em fúria

PS: Nos próximos dois capítulos, a vingança impiedosa da FIFA contra Maradona. Uma história tão complexa que precisarei dividi-la ao meio. Numa primeira parte, o que ocorreu antes da Copa dos EUA. Na outra, todos os detalhes da sórdida trama que envolveu o seu suposto doping por uma tal de Efedrina.

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