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Silvio Lancellotti Copa 2018
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Memórias 10: o estranho "Caso Ronaldo" que custou a Copa de 98

Um reconstituição, com os detalhes possíveis, do que ocorreu, de fato, nas horas dramáticas que antecederam a decisão contra a France de Zidane

Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

Choque de Ronaldo e Barthez, na final de 1998
Choque de Ronaldo e Barthez, na final de 1998 Choque de Ronaldo e Barthez, na final de 1998

Afastado sabaticamente da TV e da mídia impressa, em 1998 eu encontrei tempo e sossego para lançar um livro, “Almanaque da Copa do Mundo”, pela editora LPM, com a narrativa dos bastidores e mais a reconstrução de todas as fichas técnicas de todos os cotejos do Uruguai/30 até os EUA/94. Uma pesquisa ultraprofunda que me propiciou uma compilação estatística inencontrável em outras obras até mais charmosas visualmente. Admito: coisa mais de um nerd matemático que de um prosaico jornalista/escritor.

De todo modo, ao intuir que se desdobravam mil enigmas inexcrutáveis no estranho episódio do sumiço temporário de Ronaldo Luís Nazário de Lima do Château de Grand Romaine em Lésigny, arredores de Paris, onde a seleção de Mário Zagallo se concentrava, bateu em mim o velho espírito do repórter investigativo que eu fôra no passado e velozmente produzi um novo livro de nome, confesso, propositadamente comprido e intrigante: “França 1998 – Brasil: o (Quase) Campeão do Século”, idem LPM.

Entrevistei três dezenas de pessoas, inclusive da família de Ronaldo, gente da Comissão Técnica, alguns parentes de personagens da cúpula da seleção, outros convocados, funcionários do Château e do hospital Des Lilas, colegas da cobertura daquela competição, médicos, psiquiatras, e até mesmo Massimo Moratti, o dono da Internazionale de Milão, clube que contratava o craque. Detalhe crucial: o livro repercutiu a ponto de se esgotar rapidamente na sua primeira leva, e ninguém desmentiu o que relatei. Aqui, nestas “Memórias”, obviamente, por carência de espaço, reduzo numa síntese.

No sábado, 11 de Julho, depois de presenciar, pela TV, a Croácia ganhar da Holanda, 2 X 1, e arrebatar a terceira posição da Copa, no seu aposento, o 290 do Château, um Ronaldo aborrecido fez uma conta simples. Davor Suker tinha anotado o tento da vitória e subido a 6 na tabela dos artilheiros do certame. Batistuta e Vieri, das já eliminadas Argentina e Itália, somavam 5 cada qual. Ele havia feito apenas 4. Missão quase impossível, cravar 3 na decisão, contra a França hospedeira, para assumir a liderança dos goleadores da competição.

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Dividia o quarto com o lateral Roberto Carlos, que nunca explicou, ao menos claramente, o que ocorreu no 290. Ronaldo, porém, não dormiu bem entre a noite do sábado e o alvorecer do domingo da final. Susana Werner, a sua noiva de aliança na mão direita, também estava em Paris, a trabalho com a Rede Globo. Na própria concentração do Brasil se espalhavam rumores de que a garota havia se envolvido com um apresentador da emissora. No celular, um enciumado Ronaldo tentou localizá-la por volta das 23h00. A noiva jantava num restaurante bem chique da Cidade Luz. Mas, prometeu visitá-lo no Château. E de fato, não pairam dúvidas, rumou até lá.

Suzana e Ronaldo
Suzana e Ronaldo Suzana e Ronaldo

Abro parênteses. No domingo, nas tribunas do estádio de St.-Denis, Suzana involuntariamente confirmou a visita. Assim que a FIFA divulgou a escalação da equipe sem o craque, a mídia se apressou a cercá-la com perguntas. E Suzana respondeu, literalmente: “Meu Deus! Deve ser por causa daquele remédio que ele estava tomando...” O remédio que ela mesma teria encaminhado ao noivo, sem o menor cuidado, na noite anterior.

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Suzana em St.-Denis
Suzana em St.-Denis Suzana em St.-Denis

Uma longa distância separa o bloco principal do Château da portaria. O craque teria percorrido a distância numa bicicleta. Funcionários do Château, aliás, confirmaram a existência de uma bicicleta de seu uso no bloco principal, habitualmente estacionada ao lado de uma mureta, fora do alcance do hóspede normal. Os jogadores da seleção, todavia, costumavam brincar com a tal magrela. Cuja, no dia seguinte, um jardineiro encontrou jogada ao chão, em uma arborizada alameda que conecta o bloco e a portaria.

Uma alameda do Château
Uma alameda do Château Uma alameda do Château

Remédio? Um repórter italiano, muito amigo de Moratti, também considerou misteriosa demais a versão oficial da CBF para o episódio. E foi a Lésigny. Falou com vários funcionários, chegou até a vasculhar o apartamento 290. Seu raciocínio lógico: ora, se existiu o remédio citado por Suzana Werner, Ronaldo o rejeitaria para não correr o risco de um flagrante no antidoping.

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Uma panorâmica de Lésigny
Uma panorâmica de Lésigny Uma panorâmica de Lésigny

Sim, claro, atiraria fora. Num lampejo, o repórter enfiou a mão na privada do banheiro. Eureka! Bingo! Um frasco de calmante que, pelo formato e pelo tamanho, tinha se entalado no sifão. Um frasco que, daí, entregou a Moratti. Questionado por mim a história se era verdadeira, o padrone da Inter não confirmou mas não negou. Puxou um outro assunto. Lembrou que estivera em St.-Denis com toda a família, a esposa Milly e os cinco filhos do casal, Angelo, Carlotta, Celeste, Peppina e Gigio. Os seis uniformizados com as camisas amarelas da seleção do Brasil. Fecho parênteses.

Ronaldo, Moratti e quatro dos filhos do presidente da Inter
Ronaldo, Moratti e quatro dos filhos do presidente da Inter Ronaldo, Moratti e quatro dos filhos do presidente da Inter

Pois bem, retorno a Lésigny e à madrugada de 11 para 12 de Julho. Roberto Carlos declarou que, às 3h30, Ronaldo sofreu uma crise de pânico. Possível. Dona Sônia, a mãe do craque, recordou que, na meninice de Ronaldo, o seu mano Nelinho, fã de filmes de terror, obrigava o caçula a se sentar no sofá de olhos abertos. Assim que surgia uma chance, Ronaldo, então Ronaldinho, se escondia debaixo do sofá. Segundo Roberto Carlos, o craque se debulhou em lágrimas e chegou a vomitar. Pergunta indispensável: por quê o lateral não reportou o ocorrido e só muito depois se dignou a descrever a cena terrível? Bem, convenhamos, Roberto Carlos possui uma personalidade peculiar...

A mãe Sonia, uma amiga, e o mano Nélio
A mãe Sonia, uma amiga, e o mano Nélio A mãe Sonia, uma amiga, e o mano Nélio

Ronaldo se levantou às 11h30 do domingo, dispensou o desjejum e mergulhou direto no almoço, salada, feijão, arroz, bife e purê de batatas. Cerca de 13h30 retornou ao apartamento 290. Esticou-se cama, diante da TV e de um programa sobre os seus tentos mais bonitos no Canal + da França. Ainda pretendia apreciar o GP de Silverstone, na Inglaterra, Fórmula 1. Roberto Carlos, entretidérrimo por um walkman, escutava uma fita de música sertaneja. Não percebeu exatamente em que momento daquela tarde o companheiro de quarto começou a transpirar e a tremer na cama.

Bons companheiros
Bons companheiros Bons companheiros

Pela média das diferentes entrevistas que deu, é possível estimar as 14h20. Em outras variegadíssimas entrevistas Ricardo Teixeira, o presidente da CBF, e Lídio Toledo, o ortopedista da seleção, transitaram das 14h00 às 15h30. Mais interessa saber que, no meio de tanta confusão, o lateral imaginou que o atacante brincava de fazer caretas quando, na realidade, sofria espasmos que provocavam espuma na sua boca. Então, Roberto gritou e logo apareceram, na correria, Giovanni, Rivaldo, Edmundo e César Sampaio.

Joaquim da Matta
Joaquim da Matta Joaquim da Matta

Apavorado, Giovanni cobriu os olhos. Rivaldo desandou a chorar. Expedito, César Sampaio reflexivamente puxou a língua de Ronaldo e evitou que ele sufocasse. Quando o clínico Joaquim Da Matta e Lídio Toledo despontaram, o craque já havia relaxado e dormia, quieto. O comando da delegação decidiu levá-lo a um hospital, para os exames inevitáveis. Às 16h30, discretamente, sem que a turba da mídia sequer suspeitasse da súbita movimentação, um automóvel com Ronaldo, o doutor Da Matta e o fisioterapeuta Claudionor Delgado, saiu do Château na direção do Des Lilas em Paris.

O local dos exames
O local dos exames O local dos exames

O craque passou por uma tonelada de exames acurados. Um eletroencefalograma. Um eletrocardiograma. Uma tomografia cerebral. Uma ressonância magnética. Nada a reparar. Convulsão? Difícil, diagnosticou-se, apesar dos espasmos e da espuma na boca. De todo modo, claro, não convinha que disputasse um jogo qualquer. No Château, paralelamente, Zagallo anunciava aos pupilos a escolha de Edmundo para o seu time titular. O ônibus que levaria a seleção ao St.Denis partiu de Lésigny às 18h22. E, às 19h10, o treinador entregou a Ricardo Setyon, assessor de imprensa da CBF, a relação formal dos onze que a FIFA exigia. E Ronaldo? Setyon manifestou a sua perplexidade e o treinador tergiversou: “Uma questão de estratégia”.

Ricardo Setyon
Ricardo Setyon Ricardo Setyon

Nem Zagallo, na aventura da Copa desde a Suécia/58, imaginava o que fazer. Moralmente arrasado, o elenco do Brasil sequer subiu até o gramado para o aquecimento de praxe. Então, às 20h10, aparentemente inteiro, Ronaldo irrompeu no vestiário e começou a se desvestir. Escutei infinitas versões sobre o que, adiante, sucedeu. Prático, Dunga propôs que Zagallo mantivesse Edmundo no time e guardasse Ronaldo para a etapa derradeira. Leonardo, ao contrário, considerou crucial a presença de Ronaldo no ataque. Irritado, Edmundo chutou um banco. E um reserva a quem protejo com o anonimato me assegurou que, repentinamente, pela porta invadiu um vociferante Ricardo Teixeira, que se exibiu, como um feitor aos escravos: “Quem contar o que aconteceu aqui, está morto para o futebol.” Típico, bem ao seu jeito.

Ricardo Teixeira
Ricardo Teixeira Ricardo Teixeira

A França inaugurou a contagem aos 27’; Logo após, aos 30’, aconteceu um incidente normal para os espectadores do estádio ou para aqueles que testemunhavam via TV. Mas um incidente que dilapidou o que restava de ânimo na seleção. Lançado num contra-ataque, Ronaldo trombou violentamente com o arqueiro Barthez e desabou. Companheiros zuniram até onde o craque parecia desmaiado. Cafu se virou de costas. Até Zagallo se desesperou. Pudera. Uma fonte ligadíssima a ele me jurou que o treinador apenas mandara Ronaldo ao prélio pela pressão desaforada de Teixeira.

Ali se encerraram as chances de o Brasil reagir e virar o resultado. Encerrado o prélio, França 3 X 0, de volta ao Château o craque ignorou o apê 290 e se transferiu, por sua conta, a uma casa que alugara em Pontault Combault. Exaurido, e devastado, se agarrou a Nélio, o seu pai, aos prantos, e implorou: “Me abraça, por favor”. Embora já separada do marido, Sônia escoltou Nélio, paciente, afetuosa porém tensa, na pesadíssima vigíla: “Um pavor”.

Enfezadérrimo, Massimo Moratti desabafou: “Deveria existir, na CBF, alguém lúcido o suficiente para impedir tal loucura. Uma convulsão, a seis horas do início de uma partida seguramente nervosa, não é o melhor viático, a melhor bagagem, para se entrar em campo”. Concordou tecnicamente o Dr. Renato Marchetti, coordenador do Ambulatório de Epilepsia do Hospital das Clínicas de São Paulo: “Era evidentíssima a necessidade de precaução. Na decisão de uma Copa do Mundo. Ou até numa pelada de várzea.”

Moratti: enfezado
Moratti: enfezado Moratti: enfezado

Como no caso do suposto doping de Diego Maradona, na Copa dos EUA/94, descrito no capítulo anterior destas minhas “Memórias” compactas, a FIFA e uma entidade nacional contribuíram para o desrespeito à lisura de uma paixão universal. A CBF porque arriscou a saúde do seu craque, e desprezou a integridade de um garoto então nos 21 de idade. Por vaidade, petulância, autoritarismo, ou a imperiosidade de agradar à Nike, sua patrocinadora, para quem Ronaldo era a cereja do bolo? Escolha. Mas a Fifa, seguramente, por absoluta, inominável, imperdoável, descarada incompetência.

Na balbúrdia, ainda sob o comando de João Havelange, sogro de Ricardo Teixeira e no cargo até o final da Copa, quando Joseph Blatter herdaria o seu trono, mal-informada pela CBF, a FIFA não soube como entender o simples, o elementar: Ronaldo padecera com uma crise de pânico, situação que ninguém e talvez nem ele mesmo conhecia. Chefe da delegação do Brasil, o gaúcho Fábio Koff, ligado ao Grêmio de Porto Alegre, assinou uma nota ridícula, em inglês, na qual asseverava que o craque se ressentira de uma lesão e, por isso, a Comissão Técnica o enviara ao Des Lilas para mais exames.

Deslavada mentira. Ora, se Ronaldo havia acusado dores musculares, articulares etcetera, por quê um clínico como Joaquim Da Matta e não o ortopedista Lídio Toledo na sua condução ao Des Lilas? Pior, a FIFA acreditou na peta e publicou outra nota, em dois idiomas. No francês, o craque havia acusado uma lesão no tornozelo canhoto. No espanhol, no tornozelo direito. Anos depois, Lídio Toledo, a quem eu conhecera em 70, me afirmou, num encontro casual num boteco da estrada entre Búzios e o Rio: “Mal imagino de onde o Koff tirou a ideia daquela nota desastrada. Pode dizer que eu disse”.

Está feito.

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