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'Brasil aceitou pagar a conta dos Jogos Olímpicos', critica executivo da FGV

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O coordenador do programa executivo em Aperfeiçoamento em Gestão de Esportes da Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio de Janeiro, Pedro Trengrouse, acredita que o Brasil embarcou demais na agenda do Comitê Olímpico Internacional (COI) e acabou não desenvolvendo as suas próprias prioridades para os Jogos Olímpicos do Rio, em agosto. O jornal O Estado de S.Paulo conversou com o professor sobre a responsabilidade brasileira e os impactos da imagem do País no exterior.

A Olimpíada será realizada em um momento cheio de protestos, brigas no governo e crise econômica. Como isso pode afetar a percepção dos brasileiros em relação ao evento? E dos estrangeiros que vêm ao Brasil?

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Os Jogos Olímpicos colocam o Brasil em evidência no mundo todo. É pena que o momento seja tão crítico e a imagem que o mundo inteiro vê é de uma grave crise econômica, política e institucional, sem falar da violência e de questões de saúde pública como a poluição da Baía de Guanabara e do zika. Sem dúvida isso tudo afeta a percepção dos brasileiros e do mundo, não só em relação ao evento, mas em relação a tudo mais.

A candidatura da Olimpíada foi vinculada a uma série de projetos para modernizar o Rio, como na mobilidade urbana, e vendia o Brasil como um país que estava dando certo. Agora que a situação não é tão favorável, o que você acredita que vai acontecer? Vai ficar sem um plano mesmo?

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Há uma grande confusão causada pelo excesso de euforia gerado pelas promessas relativas aos Jogos Olímpicos. Não acho certo misturar mobilidade urbana com Jogos Olímpicos. O COI investiu alguma coisa nisso? A linha 4 do metrô já deveria ter sido feita há muito tempo, com ou sem Olimpíadas. Não dá pra chamar de legado olímpico coisas que fazemos com nosso próprio dinheiro e já eram necessárias com ou sem os Jogos.

O TCU determinou que um novo plano de legado seja apresentado até o início do evento. Mas estamos a um mês dele. Se sair um plano, será bem feito ou a probabilidade é que seja feito "nas coxas"?

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Não acredito que a essa altura do campeonato um novo plano seja solução para isso. O legado que deveria ter ficado dos Jogos seria o desenvolvimento das modalidades olímpicas no país e isso não foi feito. Clubes como Fluminense e Flamengo, que formaram a maioria dos atletas brasileiros na história dos Jogos Olímpicos, deveriam ter recebido investimentos para revitalizar seus parques desportivos e até mesmo sediar competições, em vez de construirmos equipamentos, que tendem a se transformar em elefantes brancos, simplesmente porque não se pensou na vocação natural de quem já desenvolve o esporte olímpico brasileiro. Uma das grandes frustrações da Copa foi justamente essa falta de legado. Qual foi o erro do governo na época e de agora?

A Copa do Mundo passou pelo Brasil deixando o futebol brasileiro pra trás. Como esperar que os estádios sejam bem utilizados se os clubes brasileiros estão cada dia mais fragilizados?

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O Brasil perdeu uma grande chance de mudar todo esse sistema arcaico, sem transparência nem democracia que administra o futebol no país. Essa deveria ter sido a agenda do Brasil na Copa, exigindo da Fifa contrapartidas concretas para desenvolver o futebol brasileiro. Além disso, o governo errou muito quando deu para as empreiteiras a administração dos estádios. No Rio de Janeiro, por exemplo, Fluminense, Flamengo e CBF montaram um consórcio para fazer as obras necessárias no Maracanã e ficar com a gestão compartilhada por 30 anos. O projeto era de R$ 600 milhões e não envolvia dinheiro público. O governo preferiu pagar três vezes mais para a Odebrecht. Chegaram ao cúmulo de colocar uma cláusula no edital impedindo clubes de apresentar proposta.

É possível dizer que o governo mentiu? Que vendeu uma imagem e uma promessa que não tinha condições de cumprir?

Sem dúvida o governo prometeu muito e entregou pouco, mas qual é a novidade? A despoluição da Baia de Guanabara está prometida desde a ECO-92 e fala-se no metrô até a Barra há 20 anos.

Como todos esses problemas podem afetar a realização de grandes eventos no País no futuro?

Esses eventos vieram pra cá porque o Brasil aceitou pagar a conta. Os Jogos Olímpicos se resumem às competições e as instalações já estão prontas. Acho que tudo vai transcorrer sem maiores incidentes. No período que antecedeu a Copa, a imprensa internacional também estava muito crítica. Foi só a bola rolar que começaram a dizer que toda Copa deveria ser no Brasil de tão boa que estava. Eventos esportivos como esses são na verdade grandes festas, que não têm a menor condição de mudar coisa nenhuma no país. Isso tudo é propaganda e o COI vai dizer que os Jogos de 2016 foram os melhores da história porque precisam vender esse peixe para o próximo freguês.

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