Lance Jamie Murray conta o que aprendeu com Bruno Soares em 5 anos de parceria e amizade

Jamie Murray conta o que aprendeu com Bruno Soares em 5 anos de parceria e amizade

Ex-número 1 do mundo nas duplas, escocês é das figuras mais influentes no circuito profissional de têni

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Por Ariane Ferreira - O escocês Jamie Murray, ex-número 1 e atual 22° do ranking de duplas da ATP, conversou com o Tênis News nos bastidores do Millenium Estoril Open, torneio em que disputa ao lado do neozelandês Michael Venus.

Membro do Conselho dos Jogadores, Murray falou sobre o futuro do tênis, melhorias do circuito de duplas, da parceria vitoriosa com o mineiro Bruno Soares, criticou os mandatários do tênis britânico e deu seus pontos de vista sobre o fenômeno Emma Raducanu e o recente banimento de russos e bielorrussos por parte de Wimbledon.

Jamie Murray chegou para a entrevista com marcas de ventosaterapia no ombro esquerdo. As marcas são de processo fisioterápico da medicina tradicional chinesa, que promove a eliminação de dores musculares e amenizar inflamações, diminuindo desconfortos.

Confira a conversa exclusiva com um dos jogadores mais influentes nos bastidores do tênis e administração do circuito ATP nos últimos anos.

Lance!: Vamos começar falando um pouco da sua parceria com o Bruno [Soares], que é bastante vitoriosa. Como você vê essa parceria?

Jamie Murray: Agora fará 5 anos que nós jogamos juntos, contando que houve uma quebra de período nesse tempo. Nela eu tive os melhores anos da minha carreira, 2016, 17 e 18. Nós ganhamos muitos títulos juntos [12], alguns Grand Slams [Australian Open 2016 e Us Open 2016], alguns Masters 1000… nós jogamos o ATP Finals a cada um desses anos. Nós nos divertimos muito nesse tempo. Nós nos damos muito bem, somos amigos próximos. É sempre divertido ganhar títulos com alguém assim.

Tomara que, este ano e no próximo, possamos ter mais experiências como essas.

L!: E qual foi a melhor coisa que Bruno te ensinou?

JM: Me ensinou? Hum… Muitas coisas. Ele é muito calmo a respeito das coisas. Eu sou mais emocional.

Digo, conforme as coisas vão acontecendo, ou não, quais são os planos? O que vamos fazer aqui? Sabe? Ele não é de ficar muito empolgado com o feito em certos momentos. O que eu acho que ajuda a manter as coisas mais "pés no chão".

Pra ele é assim: 'Ok. Conseguimos uma melhoria. Nós demos nosso melhor. Isso é tudo que posso fazer. Não posso controlar os resultados. É sempre ficarmos satisfeitos pelos nossos esforços. Na próxima semana, talvez seja a nossa semana, então vamos estar prontos para jogar bem lá'.

Isso é importante, especialmente nas duplas, por causa da forma como o placar é, é muito difícil vencer o tempo todo. Então, é importante manter as coisas em perspectiva.

Tipo, qualquer semana pode ser a sua semana. Você precisa estar preparado. Isso foi uma coisa importante que Bruno me ensinou, e é importante ter essa 'habilidade' no circuito de hoje em dia.

L!: Voltando um pouco no tempo, na campanha deste ano no Rio (Open), quais as lembranças e sensações que você guardou?

JM: Nós tivemos uma grande semana. (com ênfase e um sorriso).

Nós nos divertimos muito. Bruno pôde compartilhar muito com a família dele, lá. Os fãs, nós tivemos um ótimo apoio durante toda a semana.

Nós tivemos um pouco de sorte com a programação, porque choveu bastante, e nos meio que evitamos isso, para alguns jogadores foi uma "longa semana", mas para nós foi OK.

Nós acabamos perdendo na final, num jogo muito apertado, também muito longo. Porém, não foi uma vergonha não vencer, mesmo sabendo o quanto Bruno queria vencer no Brasil. Vencer no Rio, salvo engano ele chegou a vencer três vezes em São Paulo [Brasil Open ], mas nunca no Rio. E claro, é o maior torneio do Brasil, agora o único já que São Paulo não faz parte do calendário. Sei que ele estava desesperado para vencer, foi um pouco triste não poder vencer aquele jogo.

L!: Você tinha falado sobre os placares dos jogos nas duplas. Mas considerando os últimos 10 anos, ou mais, quais foram as boas mudanças no circuito de duplas para vocês e também como produto? O que a ATP pode fazer para melhorar ainda mais?

JM: Desde que eu comecei, lá em 2007/2008, as pessoas têm muito mais acesso aos jogos de duplas. Podem assistir pela TV, no stream e tal. Acho que também há um maior reconhecimento dos jogadores

Você consegue ver isso nos torneios, porque com atletas nacionais ou não, as pessoas vão assistir aos jogos.

Em alguns países, as duplas são mais populares que em outros. Mas penso, pro Brasil por exemplo, eles apoiam muito seus compatriotas, não importa muito se duplas ou simples, eles vão estar lá e vão apoiar os brasileiros. Sinto da mesma forma no Reino Unido.

Também acho que o jogo mudou muito ao longo dos anos, porque há muito mais jogadores que não sacam e voleiam. Eles sacam e ficam lá atrás. Muitos jogadores perceberam que podem ter sucesso nas duplas assim. Pra mim, as mudanças de condições [das quadras] também ajudaram, pois hoje são mais lentas do que costumavam ser. Os jogadores têm mais tempo para a devolução, tempo para jogar da linha de base e é bastante difícil acelerar a disputa contra esse tipo de jogador como era antes, com as quadras mais rápidas.

Outra, os jogadores são inteligentes, eles vêm mais tênis, os treinadores vêm mais tênis e eles percebem a melhor maneira em que podem ter mais sucesso, nem sempre jogando o estilo tradicional das duplas.

Outra coisa também importante é que no tênis a questão financeira melhorou bastante com o passar dos anos. Isso também é uma motivação para que os jogadores de simples disputem em duplas e joguem bem, porque é possível ganhar muito dinheiro jogando duplas nos dias de hoje.

L!: Estamos num momento de virada do tênis, com o Big 4 [Roger Federer, Rafael Nadal, Novak Djokovic e Andy Murray] mais próximos da aposentadoria. Ao mesmo tempo em que a ATP tem uma 'Next Gen' não tão jovens, a maioria deles já passou dos 20 anos. Como você vê essa renovação do tênis?

JM: Acho que o problema do potencial do tênis (em termos comerciais e relevância) está que as pessoas acham que o tênis está em 4 jogadores, mas existe uma centenas de jogadores e a ATP compreendeu isso e começou a promover essa nova geração de jogadores [Next Gen], porque esses jogadores [Big 4] não permanecerão pra sempre. Eles vão acabar e as pessoas não conhecem os outros jogadores e isso não é bom para o esporte.

Pra mim, eles [ATP] fizeram um ótimo trabalho nisso, esses novos caras são conhecidos. Obviamente, eles seguem em desenvolvimento, seja em seu jogo ou fisicamente, até porque eles são jovens.

Vemos gente como [Carlos] Alcaraz fazendo coisas maravilhosas. [Alexander] Zverev, apesar que parece que ele está aí há muito tempo ele tem, acho, uns 23 anos**. [Daniil] Medvedev agora tem jogado um tênis maravilhoso, os canadenses Felix [Auger-Aliassime] e Denis [Shapovalov] têm muito jogo e talento. Quando os colocamos todos juntos, eles são tenistas maravilhosos. O tênis está em um bom ponto,eles seguem se desenvolvendo e melhorando, olhando esses caras mais de perto, Rafa, Roger, Novak e até Andy, eles sabem o que precisa ser feito, que trabalho precisa ser realizado para ser um jogador top.

**Correção: Alexander Zverev tem 25 anos completos no último dia 20 de abril.

L!: Gostaria de falar com você sobre a Emma [Raducanu]. Num passado quando você ou mesmo seu irmão venciam vocês eram britânicos, se perdiam eram escoceses. Emma é filha de migrantes, nascida no Canadá. Ela está propensa a sofrer essa pressão ou a mentalidade no Reino Unido mudou?

JM: Sinceramente? Eu não sei. Eu realmente não sei, honestamente.

Obviamente, ele teve duas semanas incríveis no US Open [2021] e as coisas têm sido loucas para ela desde então, com muitas mudanças em sua vida. Tenho certeza de que ela não estava pronta pra isso. É algo completamente anormal… (risos)

L!: Sim…

JM: É um pouco estranho porque ela estava em desenvolvimento, fazendo bem até, mas agora ela tem 18 ou 19 anos e um título do US Open, o que não é algo esperado. Então é claro que as expectativas vão lá em cima.

A vida dela mudou. Acho que vai custar algum tempo para ela possa encontrar o equilíbrio, e até mesmo possa entender como lidar com essa nova plataforma que ela tem no Reino Unido através do tênis.

Eu não acho que as pessoas devam esperar coisas incríveis dela constantemente e talvez isso mude daqui uns anos. Mas agora, ela está tendo a experiência do que é jogar o circuito em geral e demora um pouco a se habituar com isso. Ela ainda é muito jovem, tem muito a aprender e conforme ela se cerque de boas pessoas que a ajudem a se focar no tênis: trabalhando duro e competindo sem grandes distrações, isso vai dar a ela a chance de ter uma grande carreira. Tomara que ela tenha.

L!: Qual é a sua opinião sobre a decisão de Wimbledon em banir jogadores da Rússia e de Belarus?

JM: Bem, é muito difícil. Eu posso entender porque eles fizeram o que fizeram, mas não consigo ver os efeitos disso no tênis… os efeitos de forma ampla. Mas sim, é uma situação muito difícil, infeliz.

Claro que algumas pessoas pensam que política e esportes devem se misturar, eu não sei. Realmente não sei. Mas sei que na Ucrânia a situação não é boa, me sinto péssimo pelos ucranianos. Talvez alguns jogadores terão de perder Wimbledon por um ano.

L!: Há um rumor, não existe absolutamente nada de oficial sobre isso, de que a ATP e a WTA estão prestes a discutir a ideia de não somar os pontos jogados em Wimbledon para os rankings. Você acha que essa é uma boa opção?

JM: Honestamente, não sei qual a melhor solução para toda essa situação. Realmente não sei. Como te disse, é uma situação infelizmente complicada em que estamos. Alguns jogadores serão afetados, outros não. Mas restringindo pontos, mais jogadores serão afetados.

Eu não sei. É uma situação que precisa ser gerenciada, mas não sou eu quem toma a decisão.

L!: Falando em tênis britânico, que vive um bom momento nos últimos anos, com diversos atletas Cameron [Norrie], [Daniel] Evans, [Dominic] Inglot, [Joe] Salisbury, você e o Andy. Para o futuro, você acha que os irmãos Murray e todos esses caras estão motivando meninos e meninas a jogarem tênis no Reino Unido?

JM: Não sei bem. Acho que o país teve a sua maior oportunidade dos últimos 50 anos de realmente desenvolver o esporte e trazer mais pessoas para seu entorno. Graças a tudo que Andy estava conquistando na sua carreira e todo o interesse que ele gerou para o esporte por todo o país.

De qualquer forma as vantagens que poderiam ser tiradas dessa situação, foram bem aquém das possibilidades. Pra mim, eles perderam uma oportunidade de ter mais crianças pegando em raquetes e tentando o esporte.

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