Futebol Abel: “Podemos ter craques, mas igual ao Pelé, jamais. Não nasce outro”

Abel: “Podemos ter craques, mas igual ao Pelé, jamais. Não nasce outro”

Ex-ponta-esquerda do Santos deu depoimento emocionado ao Diário do Peixe sobre como foi conviver com o Rei do Futebol em seus anos de glória na Vila Belmiro

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“Quando fui contratado, eu peguei um avião com o Carlos Alberto Torres, o capita, e fomos nos encontrar com o Santos lá em Brasília. Eles voltavam de uma viagem para o Paraguai. Paramos em Brasília e fomos para Belém do Pará, onde eu estreei. E, nisso, foi a primeira vez que encontrei o Pelé. Pensei: ele existe mesmo, é de carne e osso, igual a nós.

Quando o conheci, ele já era bicampeão do mundo, já era o maior de todos. O Pelé era um cara tranquilo. Durante o jogo ele era um cara como qualquer outro. O Zito gritava com ele, o Carlos Alberto gritava com ele. Eu não, ficava na minha. Eu torcia para o Pepe não jogar para eu entrar. Inclusive, vim para isso, para substituir o Pepe.

Lá no Rio de Janeiro, de onde vim, as pessoas falavam: você está maluco? Vai para o Santos jogar com essas feras, daqui a pouco está de volta. Mas fui muito bem recebido por todos, inclusive pelo Pelé. Até hoje estou aqui.

Quando cheguei, o Pelé já tinha conquistado o mundo pelo Brasil, Santos... então todos já estavam acostumados. Mas eu não, eu me assustei. Um dos primeiros jogos, pelo Paulistão, em Presidente Prudente, calor miserável, foi 5 a 0 e todos do Pelé. Eu pensei, minha Nossa Senhora, fiquei apavorado. Era toca no Pelé que ele faz. Chegava na linha de fundo e toma, faz o gol. Acabei me consagrando assim. Eu ia no fundo e cruzava. Em alguns gols dele, tenho participação. O Pelé consagrou a minha carreira.

Em pé: Carlos Alberto, Ramos Delgado, Marçal, Cláudio, Clodoaldo e Rildo; Agachados: estão Douglas, Negreiros, Toninho, Pelé e Abel

Nós vivíamos mais no aeroporto do que em casa. Não tínhamos tanto tempo, era descanso e aeroporto. E lá, nós ficávamos jogando, jogava cueca, buraco... fora do campo, é uma lembrança com o Rei. Na rua, não tinha como. Se ele fosse pra rua, ele voltava correndo, entrava no carro e ia embora. Não tinha como. Ele era nossa salvação quando chegávamos no aeroporto. Ele ia na frente, todo mundo ia correndo atrás dele e íamos por outro lado.

Me lembro que uma vez, eu já veterano, organizamos uma pelada daquelas de fim do ano, ali no canal 6, com Serginho Chulapa e com os mais velhos. Aí o Pelé resolveu ir... Ele parou na calcada da praia. Quando desceu do carro, alguém apontou: olha o Pelé... a praia inteira foi para cima dele. Ele entrou no carro e deu no pé. Não dava mais para ele, coitado. Era muita gente.

Pelé, Oberdan, Edu e Abel, em jantar, juntos (Crédito: Reprodução)

Costumo até dizer que não há comparação, é só ver os vídeos. O Messi é um fenômeno, mas, como diz o Pepe, o Pelé é um E.T. A comparação é inexplicável. Nesse mundo atual, não há ninguém que se compare ao Rei Pelé. Hoje nós temos o Haaland, no City, mas não tem a mesma categoria. O Pelé tinha tudo. Ele fazia gol de falta, cabeça, pé direito, esquerdo, fazia tabela com ele mesmo, metia caneta em três caras seguidos. Ele corria, marcava... Podia dar bola para ele que resolvia. Ele sempre olhava pro gol e ia ganhando espaço. Só quem viu Pelé sabe, não tinha jogo ruim para ele.

Podemos ter vários jogadores bons, craques. Esse Haaland, por exemplo, pode fazer mais gols que o Pelé. Vai jogar mais vezes. Mas igual ao Pelé, jamais. Nunca mais nasce outro. Futebol bonito, vistoso e todo mundo torcer a favor, todo mundo ir ao campo só para ver ele, só Pelé. Não vai ter outro. É único”.

Depoimento de Abel Verônico, ex-ponta-esquerda do Santos (de 1965 a 1972), ao DIÁRIO DO PEIXE, em comemoração ao aniversário de 82 anos do Rei Pelé*

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