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BRASILEIRO 2022
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De onde vem o dinheiro da Arábia Saudita para contratar as estrelas do futebol mundial?

Astros como Benzema, CR7 e Firmino trocaram protagonismo europeu pelos bilhões sauditas, fruto de uma economia baseada na exportação de petróleo, recheada de controvérsias

Futebol|Gabriel Herbelha, do R7

Cristiano Ronaldo assinou contrato milionário com o Al-Nassr, da Arábia Saudita
Cristiano Ronaldo assinou contrato milionário com o Al-Nassr, da Arábia Saudita Cristiano Ronaldo assinou contrato milionário com o Al-Nassr, da Arábia Saudita

Em janeiro deste ano, o mundo do futebol vivenciou um dos movimentos de mercados mais surpreendentes dos últimos tempos, quando o astro português Cristiano Ronaldo trocou o Manchester United pelo até então desconhecido Al-Nassr, da Arábia Saudita.

O grande público poderia não saber ainda, mas ali começava um processo grandioso para colocar esse país na corrida para sediar a Copa do Mundo de 2030 e fortalecer a liga de futebol local.

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Nas últimas semanas, jogadores que brilhavam nos maiores clubes europeus, como é o caso de Karim Benzema, do Real Madrid, de Roberto Firmino, do Liverpool, e de N’Golo Kanté, do Chelsea, que trocaram a maior vitrine do futebol mundial para se aventurarem em um campeonato pouco comentado.

Essas transferências foram impulsionadas pelos bilhões de dólares à disposição dos principais clubes sauditas, que, com a ajuda da monarquia, conseguiram seduzir os atletas com salários astronômicos.

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Para vestir a camisa 7 do Al-Nassr, Cristiano Ronaldo voltou ao posto de jogador mais bem pago do mundo. O português recebe cerca de 200 milhões de euros por ano (cerca de R$ 1,06 bilhão).

Para Thiago Freitas, COO da Roc Nation, a escalada dos árabes no mercado de transferências gera transformações em todo o ecossistema do futebol:

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“Esse movimento não gera consequências apenas nos orçamentos dos clubes sauditas e dos atletas que são contratados, mas impacta toda a ‘pirâmide’ do futebol europeu. Quando um clube europeu recebe um valor, digamos, não esperado, pela transferência de um atleta que já não é uma jovem promessa, parte considerável desse recurso tende a ser destinado para a substituição desse profissional”.

Ajuda estatal

Em junho, o FIP (Fundo de Investimentos Públicos da Arábia Saudita) comprou os quatro principais clubes da elite saudita: Al-Nassr, Al-Ittihad, Al-Hilal e Al-Ahli.

Os quatro clubes mais populares da Arábia Saudita foram comprados pelo fundo
Os quatro clubes mais populares da Arábia Saudita foram comprados pelo fundo Os quatro clubes mais populares da Arábia Saudita foram comprados pelo fundo

Dessa forma, os clubes foram transformados em empresas do fundo da monarquia saudita. O FIP tem direito a 75% da fatia de cada time, e o restante fica à disposição para outros acordos.

Segundo dados do IFW Institute (instituto alemão de pesquisa econômica independente e sem fins lucrativos), o fundo dispõe de 620 bilhões de dólares (cerca de R$ 2,9 trilhões, na conversão de valores) em ativos financeiros.

"Em um processo que guarda algumas semelhanças com o que passa o Brasil com as SAF´s, os alguns clubes passarão às mãos da iniciativa privada. Aqui, os clubes são majoritariamente associações, portanto não têm um dono definido. Lá, os clubes são de propriedade do Estado, normalmente nas mãos de membros da família real", afirma o advogado Eduardo Carlezzo, que estuda o mercado saudita.

Em 2021, o fundo fez um grande investimento no futebol, ao comprar 80% do Newcastle, tradicional clube inglês, que disputa a Premier League, por cerca de 300 milhões de libras — cerca de R$ 2,2 bilhões, na época.

Confira as principais contratações do ‘Sauditão’ desde janeiro deste ano

Benzema, Firmino, Kanté e Koulibaly desembarcaram na Arábia
Benzema, Firmino, Kanté e Koulibaly desembarcaram na Arábia Benzema, Firmino, Kanté e Koulibaly desembarcaram na Arábia

Al-Nassr:

Cristiano Ronaldo

Brozovic 

Seko Fofana

Alex Telles (faltam detalhes)

Sadio Mané (negociando)

Al-Ahli:

Edouard Mendy

Roberto Firmino

Riyad Mahrez (faltam detalhes)

Saint-Maximin (faltam detalhes)

Al-Ittihad:

Jota

Karim Benzema

N’Golo Kanté

Fabinho (faltam detalhes)

Al-Hilal:

Rúben Neves

Milinković-Savić

Koulibaly

Mitrović (em negociação)

Malcom (em negociação)

Al-Ettifaq (único da lista a não ter sido comprado pelo fundo soberano):

Gerrard - treinador

Jordan Henderson

Origi (interesse)

A grande questão que fica no ar na primeira divisão saudita é em relação à competitividade, já que os outros 14 clubes do torneio não recebem o apoio estatal.

Desde a primeira temporada, em 1975, os quatro times comprados pelo FIP ganharam 39 das 48 edições. Para o futuro da competição, imprevisibilidade parece não ser uma das características dessa disputa.

Mas, afinal, de onde vem o dinheiro da Arábia Saudita?

O maior país do Oriente Médio em extensão tem na extração do petróleo sua principal atividade econômica.

Segundo dados da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a Arábia Saudita tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo, com cerca de 297,5 bilhões de barris, que corresponde a 17% da produção e exportação mundial dessa matéria-prima, atrás apenas da Venezuela.

"A indústria petroleira é muito desenvolvida, mas a Arábia Saudita tem tentado diversificar a produção, desenvolveu técnicas de agricultura em algumas regiões do país e as grandes cidades se desenvolveram como grandes centros financeiros e de economia diversificada", explica Manuel Furriela, professor de relações internacionais na FMU.

Acusações de sportwashing

Príncipe Mohammad Bin Salman
Príncipe Mohammad Bin Salman Príncipe Mohammad Bin Salman

Com dinheiro a perder de vista, os sauditas tentam agora, com a ajuda desse investimento, o ponto mais difícil: limpar a sua imagem.

O país, que é uma monarquia absolutista, tem o islamismo como religião oficial, é comandado pelo príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman, que também acumula o cargo de primeiro-ministro.

A falta de liberdade de imprensa, o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, em 2018, a mando do príncipe, violação de direitos humanos e a intervenção militar em outros países do Oriente Médio reacendem o debate sobre a monarquia fazer uso do sportswashing — conceito, em inglês, para explicar como o esporte é usado para reposicionar a imagem de um país — para mascarar graves problemas sociais daquele território.

Em 2022, a ONU (Organização das Nações Unidas) listou a Arábia Saudita entre os cinco países que mais violam direitos humanos no mundo. Nessa lista estão Coreia do Norte, Síria, Irã e Afeganistão também são citados.

Também no ano passado, a Anistia Internacional informou que o país do Oriente Médio executou 196 pessoas, sendo o maior número registrado em 30 anos no território. A Arábia adota a sharia, a lei islâmica, como a sua constituição.

Na opinião de Furriela, o amplo investimento na modalidade é uma chance para a monarquia diversificar investimentos e agradar à sua população de 35,9 milhões de pessoas, que tem, disparadamente, o futebol como esporte favorito.

"O futebol é visto na Arábia Saudita como popular. O governo entende que agrada à população e é visto como uma diversificação de investimentos. Não é propriamente para desviar a atenção da população ou para divulgar internacionalmente o país, mas sim por ser uma modalidade interessante de investimento, altamente lucrativo, inclusive no próprio país, onde há muitos torcedores", comenta o professor.

Apesar da controvérsia, é notável o "boom" de interesse gerado no futebol saudita com a chegada dos reforços internacionais.

Agora, resta saber se o projeto terá longo prazo, investimento para novas gerações de atletas nascidos no país, sustentabilidade do negócio, ou se se tornará uma nova "China". Há cerca de sete anos, o país asiático investiu rios de dinheiro em reforços para times locais, com ajuda estatal e de multinacionais, até progressivamente abandonar o projeto.

Veja quem seu time pode perder para o milionário futebol da Arábia Saudita

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