Clássico da infância sobre futebol faz 50 anos, e autor festeja na UTI

História sobre figurinhas, 'O  Gênio do Crime' foi lançado em 1969; João Carlos Marinho, seu autor, se recupera de doença e precisa de doadores de sangue

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Furquim guarda dedicatória de livro escrita por seu pai

Furquim guarda dedicatória de livro escrita por seu pai

Reprodução/Facebook/Beto Furquim

Duas paixões movimentam a vida de João Carlos Marinho: o futebol e a literatura. E, mesmo tendo se tornado advogado trabalhista, após estudar na Suíça, as raízes brasileiras e a sua própria essência não conseguiram ficar escondidas e se manifestaram mais tarde, quando ele se tornou escritor.

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Sua obra mais conhecida, "O Gênio do Crime", de 1969, expõe essa essência, na qual o enredo comunica para o leitor todas as vivências de Marinho, como estudante, jogador amador de futebol e, acima de tudo, como menino sonhador.

Marinho, aos 83 anos, viu seu livro mais famoso completar 50 anos neste início de 2019, no mesmo momento em que ele se deparou com problemas de saúde e teve de ser hospitalizado.

Ele comemorou a data na UTI do hospital Sancta Maggiore, em São Paulo, onde vem lutando para se recuperar de uma infecção, há cerca de um mês, conforme contou um de seus três filhos, Beto Furquim, músico, poeta e jornalista.

"Meu pai ficou contente com a comemoração destes 50 anos do livro. Fiz uma postagem no dia e muita gente interagiu. Ele ficou bem feliz."

A situação de Marinho não é simples e Furquim realça a importância de voluntários doarem sangue para ajudar na recuperação do pai. 

As doações, por meio do Banco de Sangue Paulista, podem ser feiras na Unidade Vila Nova Conceição (R. Dr. Alceu de Campos Rodrigues, 46 - 14° Andar - Telefone: 3048-8969) e na Unidade Santo Amaro (Rua Iguatinga 382- Telefone: 5521-4013).

Colecionador de figurinhas

Além de "O Gênio do Crime", ao longo da carreira, Marinho escreveu outras obras, como "O Caneco de Prata", 1971, e "Sangue Fresco", de 1982, ano em que ganhou o Prêmio Jabuti.

A maioria dos enredos é protagonizado pela turma do Gordo, um grupo de crianças que remete às aventuras do próprio Marinho e de seus amigos na infância.

Marinho nasceu no Rio de Janeiro em 25 de setembro de 1935. Mas ainda menino foi morar em Santos, onde viveu até perto dos 12 anos, quando foi estudar em Zurique, na Ecole Nouvelle de la Suisse Romande. Retornou ao Brasil quatro anos depois, em 1956, para, já morando em São Paulo se formar em Direito pelo Largo São Fransico.

Já com um escritório de advocacia trabalhista, ele sentiu a necessidade de colocar no papel suas inquietações de menino, quando colecionava figurinhas e, durante os desafios do "bafo", idealizava tanto os craques quanto a própria arte, e mistério, de colecionar.

Colecionar figurinhas, desafios, ideais e sonhos. Viajando por essa coleção de vivências, Marinho se firmou como escritor. E como escritor ele também pode ser um pouco jogador.

Foi uma maneira de ele relembrar os tempos de goleiro, no colégio Ateneu, e depois de atacante, já na Suíça, onde capitaneou sua equipe de colégio por três anos.

Furquim revela como o futebol e a literatura vêm servindo como alicerces fundamentais para o seu pai.

"São a vida dele. Hoje em dia ele vive para esses dois temas. Fica assistindo jogos do futebol europeu e interage com os leitores. É tudo quase uma coisa só."

Seleção de todos os tempos

Nestas interações pelas redes, em razão do relançamento do livro "Deuses da Bola - mais de 100 anos da seleção brasileira de futebol", em 2018, Marinho fez questão de revelar qual é a sua seleção de todos os tempos: Gylmar; Carlos Alberto, Domingos da Guia, Mauro e Nilton Santos; Zito, Gérson e Zizinho; Garrincha, Leônidas e Pelé.

João Carlos Marinho não conseguiu estar entre esses nomes, como jogador. Mas compensou essa frustração contando histórias, inclusive sobre o futebol, o que lhe valeu um lugar de respeito no time dos escritores. "O Gênio do Crime", em todas as suas edições, vendeu mais de um milhão de exemplares e até hoje é utilizado no currículo de escolas.

Furquim conta que, na época, não era costume se realizar grandes eventos de lançamento. E que, portanto, seu pai considera que o dia de lançamento de "O Gênio do Crime" foi quando ele recebeu o pacote com os primeiros exemplares, em 28 de fevereiro.

Um deles, ele ofereceu a Furquim, então com quatro anos de idade, que até hoje guarda o texto de dedicatória.

Para o filho, a própria profissão de escritor foi englobando cada espectro da personalidade de Marinho, a do jogador, do advogado, do garoto, do pai, resumindo por meio das palavras a sua essência como um todo.

"Ele gostava de advogar. Foi um ótimo advogado trabalhista em Guarulhos. Mas a vocação de escritor o foi absorvendo e ele foi bem-sucedido nela. Hoje tem condições de se aposentar modestamente como escritor, viver de sua obra, algo que muitos escritores talentosos não conseguem."

Recentemente, Marinho havia anunciado que iria parar de escrever. Mas, conforme conta Furquim, ele ainda encontrou fôlego para escrever "O Fantasma da Alameda Santos." Depois, novamente falou em parar. E foi hospitalizado.

Agora, na velhice, Marinho se depara com mais um desafio: a sua recuperação. Pelo menos por mais algum tempo. E, para isso, a força do escritor novamente pode entrar em ação, com a ideia de um novo livro, segundo Furquim. E ele logo emenda, com uma dose de esperança:

"Quem sabe?"

Artista cria figurinhas alternativas de quem foi à Copa e não ao álbum