Campeonato Carioca Ex-Lusa-RJ lembra vitória sobre o Real Madrid: 'Não viram a bola'

Ex-Lusa-RJ lembra vitória sobre o Real Madrid: 'Não viram a bola'

Jurandir atuou no jogo histórico em 1969; Portuguesa-RJ, sempre acostumada a ser zebra, hoje é vice-líder do Carioca

  • Campeonato Carioca | Eugenio Goussinsky, do R7

Jurandir era centroavante

Jurandir era centroavante

Acervo pessoal

O sucesso da Portuguesa-RJ, atual vice-líder do Campeonato Carioca, está sendo acompanhado à distância por um de seus jogadores históricos, o ex-atacante Jurandir Procópio, 75 anos. Vivendo em Vila Velha (ES), no estado natal de sua esposa, ele é um exemplo típico de como um clube de menor expressão costuma criar um vínculo afetivo em quem vestiu sua camisa.

Jurandir é mais um nesta legião de bons jogadores que se multiplicam pelo país, não despontam para o estrelato, mas conhecem a fundo o segredo de ser feliz longe de um clube grande.

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Nem tão longe, é verdade. Do outro lado. Ele esteve em campo naquela histórica vitória sobre o Real Madrid, em 1969, por 2 a 1, em 1969, durante excursão à Europa. Zebra? Que nada! Para ele a vitória já começou no aeroporto, após o jogo em que o Palmeiras havia vencido a grande equipe espanhola, então tricampeã nacional.

Lusa-RJ foi destaque nos jornais

Lusa-RJ foi destaque nos jornais

Acervo/Portuguesa-RJ

"Eu era amigo do César Maluco, do Palmeiras. E a Portuguesa acabou indo para o jogo, convidado às pressas pelo Real. As delegações (do Palmeiras e da Portuguesa ) se cruzaram no aeroporto local. O César veio e me falou que eles queriam jogar contra nós porque souberam que éramos um time pequeno e queriam ir à desforra contra um time brasileiro. 'Ah, é? Estão doidos? Tá bom', eu disse. E deu no que deu, eles não viram a bola", conta Jurandir, em tom divertido.

Na carreira, Jurandir experimentou momentos de êxito, desde que deixou o Flamengo, onde iniciou na base, em 1963, para atuar no Athletico-PR, numa troca que envolveu os goleiros Valdemar e Marco Aurélio, que vieram atuar no Rio de Janeiro.

Depois de um ano, voltou ao Rio, para atuar no São Cristóvão.

"Naquela época era pedreira para time grande jogar contra os chamados pequenos. Olaria, Bonsucesso, São Cristóvão, eram todos times bons. Davam trabalho! Não era só a Portuguesa", lembra.

Sem medo de cara feia

Mas foi na Portuguesa que ele conseguiu seus melhores resultados no futebol brasileiro. A vitória sobre o Real foi inédita. E a história da excursão, recheada de momentos divertidos, marcados pelo acaso.

"Nem era para jogarmos contra o Real, como eu disse. Mas quando soube da novidade, nosso técnico, Daniel Pinto, já prometeu bicho dobrado se ganhássemos. Fomos ainda mais motivados. Era comum, naquela época, times menores excursionarem pela Europa. O futebol brasileiro tinha muito prestígio e era uma importante fonte de renda", lembra.

Convidado às vésperas da viagem para atuar pela Portuguesa, após contato de Daniel Pinto, Jurandir foi como reserva mas, no amistoso contra o Sevilla, dias antes do encontro com o Real, entrou e jogou bem. Foi mantido na partida em Madrid. E não decepcionou, apesar de não ter marcado gols. Quem definiu o jogo foi o meia Miguel, que fez os dois.

"O Jurandir era o tipo do centroavante que gostava de apanhar", diz, em terceira pessoa, bem no estilo comunicativo de Dario Dadá Maravilha, com quem se assemelha em termos de espontaneidade. E, possivelmente, de estilo.

"Eu ficava brigando pela bola dentro da área, não era de armar jogada. Sinceramente, apanhei muito naquele jogo contra o Real. Mas nunca tive medo de cara feita. E foi uma emoção enorme, nunca me esqueço daquele dia. Depois, foi aquela festa", diz o jogador.

Outra passagem marcante de Jurandir foi no América-RJ, em 1970, para o qual se transferiu a convite do treinador Otto Glória, técnico da seleção portuguesa na Copa do Mundo de 1966, entre outros trabalhos.

"O Otto Glória me chamou e eu fui. Era um timaço, com Badeco, Antunes, Edu (os dois irmãos de Zico). Num jogo contra o Palmeiras, perdíamos de 1 a 0. O Otto Glória me colocou no lugar do Antunes. De tão bravo que ficou, o Antunes deixou o campo e nunca mais jogou futebol. Acabei fazendo parte da história dele."

Jurandir, então, tornou-se um viajante do futebol. Atuou por um ano no Necaxa, do México, e depois se transferiu para o Anzoátegui, da Venezuela, país onde morou por 20 anos e teve os seus dois filhos, Daniela e Jurandir Jr.

"Joguei por 4 ou 5 anos e depois fui para Caracas, trabalhar como treinador na base. Revelei o famoso Giovanni Savarese. Depois fiz algumas pontes com o Brasil, representando marcas e ajudando a trazer a seleção de másters, com Leão, Clodoaldo e outros ex-craques", conta.

Seu estilo comunicativo sempre lhe abriu portas. Jurandir fincou raízes por algum tempo na Venezuela. Abriu uma loja de esportes e um restaurante, o famoso Aquarela do Brasil.

"Ia muita gente lá, tinha comida típica, feijoada, caipirinha, bem brasileiras. Se perguntarem para um venezuelano qual brasileiro mais fez pelo Brasil na Venezuela e não responderem Jurandir, estarão brincando", fala, bem-humorado.

A experiência na Venezuela se encerrou em 1994, quando o país entrou em uma crise financeira e política.

"Pensei, é hora de voltar, o negócio está feio".

Até estimulou seu filho a jogar futebol. O menino começou no Brasil, mas logo foi convidado a atuar no seu país de origem. Na Venezuela. Jurandir Jr. iniciou bem, jogando pelo Maturin, acabou convocado para representar o país nos Jogos Bolivarianos, mas não seguiu na profissão.

Preocupação com as crianças

Jurandir seguiu a trajetória do filho a distância. Passou a atuar na formação de jogadores pelo Centro de Treinamento Santa Rita, em Vila Velha.

"O centro fica em um local muito pobre, com alto índice de violência. Meu objetivo é ajudar os meninos a encontrarem um caminho, ficarem longe das drogas. Sinto como uma missão. O fundador do local morreu há pouco e bateu um desânimo, quase fechou. Mas estamos ainda tentando superar os problemas e trabalhar pelos garotos", conta.

Também a distância, ele se informa sobre o atual momento da sua Portuguesa.

"A Portuguesa é a zebra que não surpreende. Com esse trabalho bem-feito, já esperava que os resultados viessem. E estão ocorrendo. Planejamento é isso. Futebol tem um pouco de acaso, mas não é à toa que a Portuguesa sempre conquistou esses resultados inesperados".

O futebol acabou ensinando Jurandir a encontrar alegria em tudo. A bola, esférica e muitas vezes traiçoeira, sempre lhe pareceu companheira. Pelo que representava. Mesmo longe das maiores glórias. As estrelas são minoria. Quem faz o futebol são seus personagens mais comuns.

Os campos pequenos, o quique inesperado, a terra batida, o lado humano do jogo se mantiveram ao lado de Jurandir. Na vida, ele aprendeu a estar sempre aberto às zebras.

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