Copa 2018 Na Rússia conservadora, mulheres também protagonizam a Copa

Na Rússia conservadora, mulheres também protagonizam a Copa

Nenhuma outra Copa registrou tantos debates sobre machismo no futebol como esta edição, realizada em um país onde é permitido bater em mulheres

copa rússia mulheres

Integrante do grupo feminista Pussy Riot cumprimenta Mbappé na final da Copa

Integrante do grupo feminista Pussy Riot cumprimenta Mbappé na final da Copa

Darren Staples / Reuters / 15.7.2018

A final era da Copa do Mundo de futebol masculino, mas por alguns minutos três mulheres entraram em campo. O protesto das integrantes do grupo Pussy Riot no estádio de Luzniki pegou as equipes de segurança de surpresa. Mas ninguém pode se dizer surpreso com o fato de mulheres roubarem a cena também a decisão deste campeonato mundial.

Em nenhuma outra edição da Copa, o machismo e o sexismo no futebol tomaram tanto espaço nas manchetes esportivas. Algo que se torna ainda mais espetacular quando se considera que a Rússia é um país onde os homens podem, legalmente, bater na namorada ou mulher uma vez por ano sem serem acusados de crime algum.

A mesma lei, sancionada em 2017 por Vladimir Putin, também descriminalizou agressões físicas contra as mulheres que não provoquem lesões graves. Hematomas e cortes superficiais, por exemplo, não são considerados violência contra a mulher.

Neste cenário, poderia se esperar que os casos de abuso e assédio, tão “naturalizados” pela cultura machista do futebol, desaparecessem na Rússia. Só que a Copa da Rússia aconteceu em um momento histórico em que os movimentos de mulheres tomam as ruas e as redes sociais para denunciar abusos nas mais diversas áreas, do cinema aos parlamentos nacionais.

O futebol não ficaria de fora desta onda de atenção mundial para a violência contra as mulheres.

45 casos de assédio

As denúncias de episódios de assédio aumentaram, impulsionadas sobretudo pelas redes sociais, o que forçou a Fifa a fazer um acompanhamento especial. De acordo com levantamento encomendado pela organização à ONG Fare, 45 casos foram registrados oficialmente.

Para embaraço de toda a torcida canarinho, o primeiro e mais forte dos episódios teve como atores principais homens brasileiros. Em vídeo que viralizou nas redes, o grupo faz com que uma russa repita palavras de baixo calão. O episódio rendeu a abertura de um inquérito formal por parte do Ministério do Interior da Rússia.

"Esses são os números oficiais. Talvez, o número real seja dez vezes maior", disse Piara Power, diretor da Fare.

Jornalistas assediadas

Dentre os casos oficialmente registrados, 15 envolveram jornalistas de várias nacionalidades. A repórter da CBF TV, Laura Zago, foi uma delas. Um torcedor sérvio tentou agarrá-la enquanto ela fazia seu trabalho durante a partida do Brasil com a Sérvia, em Moscou.

Repórter da CBF TV é agarrada por torcedor sérvio

Repórter da CBF TV é agarrada por torcedor sérvio

Reprodução / Instagram CBF

“Eu não fui a primeira e infelizmente não serei a última a passar por este tipo de constrangimento”, escreveu a repórter, somando-se à campanha #DeixaElaTrabalhar. A campanha foi lançada por jornalistas esportivas brasileiras, depois de vários episódios semelhantes ocorrerem no Brasil.

A reação das jornalistas brasileiras e de outras nacionalidades aumenta na mesma proporção em que as mulheres conquistam mais espaço no jornalismo esportivo.

No Brasil, a Fox Sports fez a primeira transmissão de uma partida de Copa do Mundo narrada por uma mulher. Isabelly Moraes narrou o jogo de abertura do campeonato, quando a Rússia goleou a Arábia Saudita por 5 x 0.

Fifa faz mudanças

O site oficial da Copa do Mundo contou, em todas as partidas, com um blog minuto a minuto feito com a participação de dois comentaristas convidados, um de cada país envolvido na partida. Boa parte destes comentaristas eram mulheres.

Além disso, pela primeira vez, o comitê organizador tomou medidas contra os agressores. Credenciais de torcedores envolvidos em episódios de assédio foram canceladas.

Antes das partidas de disputa pelo terceiro lugar e da final da Copa do Mundo da Rússia, a Fifa também chegou a solicitar às emissoras de TV que evitassem mostrar “mulheres bonitas” nas arquibancadas durante as transmissões. Uma tentativa de fazer frente a uma cultura futebolística onde mulheres são apenas objeto de decoração e, portanto, podem estar à disposição da audiência dentro e fora dos estádios.

A Fifa parece estar entendendo que o mundo do futebol é, sim, feminino. O próximo passo é trabalhar para mulher nenhuma tenha mais que se esconder, nos estádios ou nas ruas.