Lance Um dia de frustração para torcedores no treino da Argentina

Um dia de frustração para torcedores no treino da Argentina

Parvel, que nasceu no Tajiquistão, e o casal argentino Lisandro e Luján esperavam ver o treino aberto dos Hermanos na Rússia nesta segunda-feira. Mas não deu. Veja o motivo 

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A segunda-feira, véspera do feriado de 12 de junho , dia da Soberania Russa – nesta data em 1990 o país deixou de se declarar União Soviética – tinha tudo para ser muito especial para o casal de argentinos Lisandro e Luján e também para Parvel, um adolescente de 17 anos nascido no Tajiquistão e que mora na Rússia há nove anos. O motivo era o mesmo: a oportunidade de acompanhar o primeiro treino da Argentina na Rússia, pois este seria aberto ao público.

Morador de Zhostovo, uma cidade da Grande Rússia, ele saiu de casa, pagou 55 rublos (pouco mais de R$ 2 reais) pelo bilhete de metrô, fez a baldeação, pegou a linha 7 – de intermináveis 23 estações que demora 90 minutos para ser coberta - e desembarcou no ponto final, Konestki. Bem no finzinho da zona sul da capital russa. Saltou, foi até o terminal de ônibus e pegou o 324, que tem ponto final em Bronnitsy, cidadezinha do interior que fica a uma hora da capital. Mais R$ 110 rublos (R$ 4) e depois desta via crúcis ele chegou no destino final. Na cabeça, a realização de um sonho, ver de perto os jogadores da Argentina e seu ídolo Messi, que tantas vezes ele viu na TV e jogou nos games.

Sem falar uma vírgula de inglês, ele se virou no tradutor com smartfone para tirar dúvidas com a imprensa e saber como chegar no CT que virou o quartel geral dos Hermanos na Copa.

parvel

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Parvel, de cnza no alambrado, frustrado (Carlos Alberto Vieira)


Para os jornalistas estava sendo um dia perdido. E para os torcedores barrados?

Parvel não se conformava. Estava em pé no alambrado.

- Me põe lá dentro – falava e me fazia o movimento com as mãos que indicava o que ele falava em russo.

- Não dá, até eu fui barrado . Impossible (impossible ele entendeu)

Parvel seguiu firme no alto do alambrado. E lá ficou, totalmente frustrado esperando por uma oportunidade que nunca viria. Triste fim de tarde para o simpático garoto do Tajiquistão.

Já Lisandro e Luján resolveram não pagar para ver e foram embora pegar o ônibus da volta.

- Lamentável. Mas não tínhamos os bilhetes. Uma pena perder a chance – disse Lisandro, mas já preocupado com um outro detalhe.

- Você sabe como conseguir ingressos para os jogos? Queríamos assistir à partida de abertura.

Pelo visto este simpático casal, que não conseguiu um bilhete para um simples treino, vai morrer na frustração de não ver Rússia x Arábia. Mas, ao menos, acompanharão os jogos da Argentina, coisa que Parvel não terá a oportunidade. E ambos, no futuro, falarão a mesma coisa: teve um dia que quase vimos um treino da Argentina. E isso não foi possível por causa de burocracia, planejamento ruim dos hermanos, que escolheram um CT acanhado que nem suporta a carga de jornalistas do próprio país e dos organizadores, que venderam um sonho para muitos e disponibilizaram, através de bilhetes entregues a Vips, a frustração de muita gente.

nahum

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Nahum se prepara para entrar ao vivo  na La  Sexta (Espanha) e dizer que não entrou no treino da Argentina por falta de espaço na tribuna (Carlos Alberto Vieira)


- É sério mesmo que só 180 jornalistas vão poder cobrir a Argentina? Esse número não deve dar nem para o contingente de argentinos - lamentava Nahum Miranda, repórter da La Sexta, uma grande TV espanhola. Depois de meia hora de tentativa infrutífera, ele e outros 100 profissionais deram meia volta e pegaram o caminho de casa, reclamando da bagunça que estava sendo a organização do primeiro dia de treinos da Argentina.


- Posso ir com você? Me ajuda? É verdade que poderia pegar uns autógrafos ou selfies? Se o Cristiano Ronaldo fez isso em Portugal, o Messi pode fazer o mesmo? – enchia-se de esperança enquanto andava a pé os dois quilômetros entre a rua que foi fechada para veículos e o portão de entrada para os torcedores.

Lá já estavam Lisandro e Luján . Eles viviam uma situação bem diferente. Os dois são de Buenos Aires e chegaram em Moscou para acompanhar a Copa do Mundo e curtir muito o evento. Ele, torcedor do River Plate. Ela, do Boca Juniors. Ambos vestidos com a camisa 10 de Messi. E a primeira ação deles – hospedados próximos da Praça vermelha, onde tudo acontece - foi descobrir como chegar na estação e pegar o mesmo ônibus 324, prontos para mais um dia futebolístico em suas vidas.

- O portão vai abrir 17h30 – gritou um dos muitos argentinos (uns 300) que esperavam ansiosos para ver um treininho que provavelmente seria o de sempre, jogadores em metade do campo trabalhando finalizações , brincadeira de bobinho , corridinha em torno do campo, o tremendo me engana que eu gosto, pois em treino aberto ninguém mostra nada. Mas a torcida não quer saber. Quer ver de perto o Messi, o Agüero, tirar fotos e selfies para daqui a 20, 30 anos, relembrar daquele dia inesquecível.

Mas aí vem a burocracia.

- Aqui só entra quem tem ingresso - grita um voluntário.

- Que ingresso ? Não é treino aberto? Onde se pega isso? – vinha a pergunta de um torcedor

- Foi distribuído - respondia outro voluntário.

- Quando? Onde? - vinha um burburinho em várias línguas.

- Não dá para todo mundo – diziam os voluntários, meio acuados, mas garantidos pelos muitos policiais carrancudos.

Só entrava quem tinha bilhete, uns poucos gatos pingados, uns argentinos, uns russos. Até mesmo repórteres tinham dificuldade. Era preciso um cartãozinho da Fifa além da credencial. Por sorte, uma autoridade chegou com o tal cartãozinho e os repórteres passaram. Parvel, Lisandro e Luján, não.
Mas a liberação na primeira barreira não adiantou nada para repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Sem um outro tipo de ingresso, e eram apenas 180, o jornalista que passara pelo pente fino e andara quase um quilômetro para chegar na entrada do CT, não entrava.

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Jornalistas barrados (Carlos Alberto Vieira)

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