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Cuca no banco: como torcer tranquilo com esse passado em campo?

Mesmo sem condenação vigente, o histórico do treinador escancara o desconforto que o futebol insiste em ignorar

Zé da Zaga|Zé da Zaga

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Cuca, que assumiu o comando do Santos Reprodução/Instagram @santosfc

Torcer é, em teoria, um exercício simples.

Você veste a camisa, escolhe um lado, vibra, sofre, xinga o juiz e volta na rodada seguinte como se nada tivesse acontecido.


Mas tem dias em que não dá.

Tem dias em que o problema não está no campo, nem no placar, nem no desempenho do time. Está no banco. Está na beira do gramado. Está na figura que comanda tudo — e no que ela carrega fora das quatro linhas.


O caso de Cuca é exatamente isso.

Sim, a Justiça suíça anulou a condenação que existia contra ele. O processo foi encerrado sem um novo julgamento porque o caso prescreveu e houve irregularidades no processo original.


Mas aqui está o ponto que o futebol finge não ver:

Isso não significa que houve uma conclusão clara sobre o que aconteceu.


Não houve absolvição após análise de provas.

Não houve reconstituição dos fatos.

Não houve uma resposta definitiva.

Houve, basicamente, o silêncio da prescrição.

E é nesse vazio que o torcedor é jogado.

Porque, de um lado, existe o princípio básico: até que se prove o contrário, alguém é inocente. E, hoje, juridicamente, Cuca é um homem sem condenação.

Do outro lado, existe uma história pesada demais para simplesmente desaparecer.

Uma acusação envolvendo uma menina de 13 anos. Um caso que atravessou décadas. Um episódio que nunca foi plenamente esclarecido — apenas encerrado por questões legais.

E aí o futebol faz o quê?

Segue o jogo.

Assina contrato.

Apresenta treinador.

Posta foto com cachecol.

Como se o desconforto fosse um detalhe irrelevante.

Mas não é.

Porque torcer também é se identificar. É olhar para quem representa o seu time e, de alguma forma, se reconhecer ali. E quando existe uma sombra tão grande quanto essa, a relação muda.

Fica difícil comemorar gol com a mesma leveza.

Fica difícil defender o clube com a mesma convicção.

Fica difícil separar completamente o profissional da história que ele carrega.

E, de novo, não é sobre ignorar a Justiça.

Se o processo foi anulado, se não há condenação vigente, isso precisa ser respeitado. Ponto.

Mas futebol não é tribunal.

Futebol é vitrine. É símbolo. É referência para milhões de pessoas — muitas delas jovens demais para entender nuances jurídicas, mas velhas o suficiente para absorver exemplos.

E é aí que mora o incômodo que ninguém quer encarar:

Mesmo quando a Justiça não consegue dar todas as respostas, o futebol parece sempre disposto a seguir em frente como se nenhuma pergunta tivesse sido feita.

Talvez o erro não esteja apenas em quem contrata.

Mas em um ambiente inteiro que se acostumou a tratar desconforto como ruído — e não como sinal.

E, no meio disso tudo, sobra para o torcedor a pior parte:

Ter que engolir a dúvida.

E fingir que dá para torcer como se ela não estivesse ali.

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