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Cruzeiro busca mais um técnico no futebol árabe, enquanto a SAF descarta identidade por dinheiro

Com a demissão de Tite, o clube chegará ao seu 10º treinador desde a transformação em SAF,

Zé da Zaga|Zé da Zaga

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O Cruzeiro procura Artur Jorge como técnico, mas é necessário tirá-lo do Al-Rayyan, no Catar.
  • O clube já trocou de técnico dez vezes desde a transformação em SAF e ocupa a vice-lanterna no Brasileirão.
  • A gestão do Cruzeiro parece focada em custos e benefícios, em vez de um projeto sólido para o time.
  • A contratação de um técnico em meio a conflitos no Oriente Médio simboliza a identidade em crise do clube.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Artur Jorge é a bola da vez para assumir o comando do Cruzeiro Reprodução/Instagram/@alrayyansc

Quando o Cruzeiro anunciou que buscava Artur Jorge para substituir Tite, a reação imediata da torcida foi de entusiasmo — afinal, o português é campeão brasileiro e da Libertadores com o Botafogo.

Mas há uma ironia cruel que passa despercebida nessa história: para trazer o treinador de volta ao Brasil, a Raposa precisa tirá-lo do Al-Rayyan, do Catar. De um país árabe para outro. Ou melhor, de um projeto árabe para outro.


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Porque é isso que o Cruzeiro virou.

Com a demissão de Tite, o clube chegará ao seu 10º técnico desde a transformação em SAF, iniciada em 2022. Dez treinadores em quatro anos. Uma rotatividade que não é acidente de percurso — é política de gestão.


Com média de 2,5 treinadores por ano no período, apenas dois técnicos ultrapassaram a marca de 50 jogos oficiais pelo clube desde então — ambos estrangeiros. Paulo Pezzolano, o uruguaio que subiu o time da Série B, e Leonardo Jardim, o português da Libertadores. O restante é uma lista de passageiros de aeroporto.

A conta é cruel: Pezzolano subiu (e foi embora). Pepa caiu em 25 jogos. Zé Ricardo durou 10. Larcamón foi pela porta dos fundos depois da final do Mineiro. Diniz jogou bonito no papel, fracassou em campo, foi mantido, fracassou de novo e saiu. Tite ganhou o estadual, empatou 3 a 3 com o Vasco e adeus.


No Brasileirão atual, a Raposa ainda não venceu nenhuma partida, ocupando a vice-lanterna com apenas três pontos.

Mas voltemos a Artur Jorge. O técnico português está no Al-Rayyan desde janeiro de 2025, vive momento instável e acumula duas derrotas consecutivas na liga catariana, com o time em quarto lugar, dez pontos atrás do líder.


Está, portanto, disponível emocionalmente para sair — e o contexto geopolítico ajuda. Seu contrato vai até junho de 2027, com multa rescisória superior a 5 milhões de euros.

No entanto, há uma cláusula que permite rescisão em casos em que a integridade física dos profissionais esteja sob risco. Esse cenário ganhou relevância com a guerra no Irã, afetando o Oriente Médio.

As tratativas estão em estágio avançado, com proposta de contrato até o fim de 2027 e discussões sobre ajuste salarial. Artur Jorge recebe valores elevados no Catar, sem tributação direta, o que complica o alinhamento financeiro com o mercado brasileiro.

Mesmo aceitando redução, o treinador voltaria ao Brasil como um dos mais bem pagos do país — recebia cerca de R$ 3,2 milhões mensais no Al-Rayyan.

Aí está o coração da questão. O Cruzeiro não contrata um técnico. Contrata um ativo. Avalia custo-benefício, negocia cláusula de guerra, analisa tributação, projeta retorno de imagem. É uma lógica de fundo de investimento, não de clube de futebol.

Quando Ronaldo Fenômeno comprou a SAF em dezembro de 2021, prometeu reconstrução com identidade. A ideia era apaixonante: um dos maiores jogadores da história do futebol assumindo um dos clubes mais tradicionais do Brasil.

O que se viu foi uma sequência de escolhas técnicas aleatórias, pressão imediata por resultado, e saída do próprio Ronaldo em 2024 — vendendo sua participação para Pedro Lourenço, o Pedrinho BH, empresário do setor supermercadista.

O problema não é Artur Jorge. O problema é o sistema que o contrata. Um clube que troca de técnico dez vezes em quatro anos não tem projeto. Tem planilha. A troca constante de treinadores gera um efeito em cadeia que prejudica a valorização dos ativos e o entrosamento do elenco — a cada mudança, novos esquemas táticos exigem adaptação que o calendário nacional raramente permite.

Futebol árabe virou sinônimo de dinheiro sem alma, de clube vitrine, de estrelas em trânsito. O Cruzeiro não chegou lá geograficamente — chegou conceitualmente.

E a contratação de um técnico que precisa ser resgatado de um conflito no Oriente Médio para salvar um time na vice-lanterna do Brasileirão é, ela mesma, uma metáfora perfeita de tudo que a Raposa se tornou.

Um clube que parou de ser. E ainda não descobriu o que quer virar.

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Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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