Até quando o futebol vai dar palco para quem jamais deveria ser exemplo?
A nova fuga do goleiro Bruno expõe uma pergunta incômoda sobre os limites entre justiça, memória e responsabilidade dentro do esporte
Zé da Zaga|Do R7

O futebol é vendido todos os dias como sonho.
Sonho do menino da periferia. Sonho do garoto que treina em campo de terra. Sonho de quem passa a infância acreditando que uma bola pode mudar a própria vida.
E é exatamente por isso que algumas histórias deveriam simplesmente ter terminado.
Mas não terminaram.
Nesta semana, o goleiro Bruno Fernandes de Souza voltou às manchetes. Não por uma defesa difícil, não por uma atuação decisiva, não por qualquer coisa relacionada ao futebol. Ele passou a ser considerado foragido da Justiça após não se apresentar às autoridades, depois de ter a liberdade condicional revogada por viajar sem autorização judicial.
Bruno foi condenado a mais de 20 anos de prisão pelo assassinato de Eliza Samudio, um dos crimes mais brutais e chocantes já ligados ao esporte brasileiro.
E mesmo assim, de tempos em tempos, o futebol insiste em abrir a porta de novo.
Um contrato aqui.
Um clube pequeno ali.
Uma tentativa de “recomeço” acolá.
Sempre aparece alguém disposto a apostar.
É aí que mora o problema.
Porque ninguém está discutindo a lei. A Justiça define pena, progressão de regime, direitos e limites. Isso é papel do Estado.
Mas futebol é outra coisa.
Futebol é símbolo.
Futebol é vitrine.
Futebol é referência para milhões de jovens que olham para jogadores como modelos de vida.
E é impossível ignorar o absurdo que existe quando um esporte que se apresenta como sonho também abre espaço para alguém condenado por um crime dessa dimensão.
Não é sobre vingança.
É sobre responsabilidade.
Toda vez que um clube resolve contratar Bruno, a mensagem que chega em algum campo de várzea, em algum centro de treinamento, em algum projeto social é simples — e perigosa:
No futebol, aparentemente, tudo pode ser esquecido.
Até o imperdoável.
E talvez o mais revoltante de tudo seja perceber que, 15 anos depois de um crime que chocou o país inteiro, ainda existam dirigentes dispostos a transformar essa história em nota de rodapé.
Como se fosse apenas mais uma polêmica.
Não é.
Nunca foi.



