Num duelo sempre de riscos, a Juve bate a Fiorentina por fáceis 3 X 0
Felizmente, desta vez, só houve problemas fora do estádio e antes da partida, numa rivalidade às vezes impiedosa, que se iniciou, acredite, em 1928
Silvio Lancellotti|Do R7 e Sílvio Lancellotti

A Fiorentina nos 18 pontos, apenas a 10ª colocação na tabela do Campeonato Italiano de 2018/19. A Juventus nos 37, além do dobro, lideríssima, 8 adiante do Napoli e 9 à frente da Internazionale, os únicos rivais que contam nesta temporada em que a “Senhora” busca o seu oitavo título consecutivo. Poderia ser apenas mais um cotejo de sábado na rodada de número 14 do Calcio. No entanto, descontados os combates entre as agremiações de mesmas cidades, trata-se do duelo de maior rivalidade na história do Futebol da Bota. Tanto que, faz uma semana, estavam vendidos todos os 47.415 lugares do Artemio Franchi. A plateia não interferiu no resultado, deu a “Zebra” 3 X 0.

Muito mais jovem do que a Juventus, nascida em 1897, a Fiorentina mal tinha festejado dois anos de idade quando, em 7 de Outubro de 1928, realizou o seu jogo de estreia diante da “Senhora”, em Turim, e amargou uma sapecada de 11 X 0. Foi o começo de uma aventura de 179 prélios em que a “Zebra” acumulou 84 vitórias a 39, e registrou 304 tentos a 196. À parte o absurdo dos 11 X 0, todavia, ocorreram três outros episódios que estimularam, dentre os “tifosi” da “Viola”, uma impressionante ojeriza visceral pela Juve.

O primeiro data de 16 de Maio de 1982. Última jornada do Campeonato, a Fiorentina e a “Zebra” com 44 pontos e o topo da classificação. Em Catanzaro, a Juve supera o time local por 1 X 0, num penal polêmico que o irlandês Liam Brady converte. Em Cagliari, a “Viola” sofre com um gol injustamente anulado de Ciccio Graziani e fica na mera igualdade, 0 X 0. O cineasta Franco Zeffirelli, fã da Fiorentina, publicamente chama de mafioso a Giampiero Boniperti, o presidente da Juve. Boniperti processa o seu desafeto e, em 1989, abiscoita milhões de indenização. Doou, claro, a instituições de caridade.

Enquanto perdurou aquele bafafá, se exacerbou a ira dos “tifosi” da “Viola”. Que atingiria os pináculos em 1990. Uma trama do destino colocou a Juve e a Fiorentina na decisão da então Copa da UEFA, programada para duas partidas. Em Turim, com o resultado em 1 X 1, Emílio Solano Aladrén, um árbitro espanhol, validou uma “rete” irregular da “Senhora”, que enfim venceu, 3 X 1. Sem o Franchi, interditado pela agressividade da sua platéia na semifinal, 0 X 0, diante do Werder Bremen da Alemanha, a “Viola” hospedou a pugna de retorno em Avellino, 0 X 0, e a Juventus arrebatou a taça.

No dia 17 de Maio a “Zebra” celebrou a sua conquista e, paralelamente, anunciou a contratação de Roby Baggio, o ídolo de Florença. A torcida da Fiorentina se mobilizou num protesto radical contra o presidente Flavio Pontello. Sucederam manifestações pacíficas mas, também, atos de vandalismo em praças e avenidas da cidade, basicamente nos arredores do número 4 da Viale Manfredo Fanti, sua sede formal. Passaram-se quase três décadas. Até hoje, de todo modo, principalmente na capital da Toscana, os prélios entre as duas agremiações exigem atenções singulares das autoridades. Além das barreiras nas imediações do Franchi, para a revista dos espectadores, além do volume habitual de “stewards” ao redor do campo, neste dia 2 de Dezembro se dobrou o número de policiais à paisana.

Infelizmente, a “sicurezza” não impediu a idiotia de uma turma de cretinos que pintou algumas paredes de fora do Franchi com dísticos deprimentes. Por exemplo, “Heysel -39 brucia all’inferno!”, alusão à tragédia de 29 de Maio de 1985, final da Champions, brutalidade de “hooligans” do Liverpool que provocou a morte de 39 “bianconeri” mas não impediu o triunfo da Juve por 1 X 0; e ainda a Gaetano Scirea, astro da “Senhora”, morto num acidente de carro em 3 de Setembro de 1989. Resposta elegante e afetuosa da “Zebra”: na subida ao gramado do Franchi, o capitão Giorgio Chellini, um ex-Fiorentina, depositou um ramo de flores em homenagem a Dàvide Astori, o capitão da “Viola”, morto por uma súbita parada cardíaca em 4 de Maio.

No Futebol, a visitante ignorou a hospedeira. Dominou as ações até os 31’ quando, depois de uma tabela belíssima com Dybala, quase da linha da área Bentancur desferiu um petardo em diagonal, 1 X 0. Chiellini, numa estranha virada que traiu o arqueiro Lafont, dobrou aos 69’ e daí, bem ao contrário da reação de muitos ex-, comemorou a “rete” como um adolescente. Então, aos 79’, Mandzukic tentou um cruzamento e Edmílson desviou de braço. Penal. Cristiano Ronaldo cobrou, um bólido no meio da meta. Até a noite da segunda-feira, dia 3, quando o Napoli irá a Bèrgamo e desafiará a Atalanta, a Juventus descansará com uma folga eloquente de 11 pontos na tabela.
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